segunda-feira, novembro 06, 2017

Ana


Sentada à mesa no restaurante, comendo distraidamente, eu a vi. Rosto maduro, musculatura da face um pouco frouxa, um rosto bonito. Os olhos passeavam distraídos também, entre a janela à sua frente e as mesas à sua direita. Depois voltava-se para o prato com uma dedicação quase obrigatória. Pensei que a conhecia. Mas não se encaixava em nenhum lugar. Mesmo assim não conseguia tirar os olhos dela, um incômodo tomou conta de mim, como se eu tivesse que saber de que lugar, de que tempo, em que situação, eu a conhecia. Não lembrei. Terminei de almoçar e ao pagar a conta já nem lembrei de olhar novamente pra ela. Saí do restaurante e pensei em ir até o rio antes de voltar pra casa. No caminho a imagem da mulher preencheu meus pensamentos. Não era colega de ensino médio, há 40 anos. Aquela era a Claudia, mais pesada, rosto mais exato. Essa tinha um rosto e um corpo de quem tentou perder peso, e perdeu. Recomecei a tentar encaixá-la em algum lugar. O rio que passa em Encantado passa por Muçum, pensei. Em Muçum mora minha ex colega de faculdade. Ela tem duas filhas, uma com síndrome de down. E tem um supermercado. Era ela, a minha colega de aula por quatro anos! E o nome? Não lembrei. Dei meia volta no carro e voltei ao restaurante na esperança de encontrá-la ainda lá, surpreendê-la, quem sabe ela também não lembrando quem sou, depois de 22 anos. Mudei, ela mudou. Não estava mais. Conversei com o senhor do caixa, que é o dono do restaurante, conhece todo  mundo. Ele disse que o casal vem seguido almoçar lá, que o nome do marido dela é Marcos. Lembrei no ato porque ela falava muito no Marcos. E o nome dela? Ele não sabia, não lembrava...chamou o garçom, explicou a situação, perguntou o nome dela. Também não sabia, não lembrava. Deixei meu antigo nome e sobrenome para que ela relembrasse, talvez. Deixei o telefone, se ela quisesse entrar em contato. Talvez sim, talvez não. Não importa. Talvez não tenhamos mais assunto depois de tanto tempo. Saí do restaurante com um ar de alívio restaurado, minha memória ainda existe e resiste. Entrei no carro, manobrei, dirigi algumas quadras...e pimba! Ana. Esse é o nome dela.

terça-feira, julho 04, 2017

quando parece que não resta mais nada

Quando parece que não resta mais nada
quando parece que não há esquina
 não há fim da estrada
não há fundo do rio
nem final do arco-íris
ainda há a palavra
e com ela que marco o tempo
a passagem
a presença.

terça-feira, março 14, 2017

Quem nunca?

Ele saiu para comprar cigarros na esquina, e nunca mais voltou.
Quem nunca pensou, uma vez na vida, em fazer isso? Simplesmente desaparecer. Pois eu pensei e foi assim, de repente, sem nunca ter pensado nisso antes. Saí, não para comprar cigarros, mas para comprar erva-mate. De repente, me vi andando de carro por uma estrada deserta no interior do interior. Pensei que seria fácil, seria apenas seguir em frente. Pensei que não sacaria o dinheirinho na poupança, não usaria cartão de crédito para não me localizarem, não sacaria meu salário da aposentadoria. Iria até acabar a gasolina, aí abandonaria o carro e seguiria caminhando, pedindo carona...e a essa altura da minha divagação comecei a pensar que teria que levar protetor solar e a minha câmera. Pra que? Onde postaria as fotos, para quem mostraria? Aliás, fotografias pra que? Minha filha me disse um dia desses que nem tudo precisamos registrar, algumas imagens temos que levar apenas em nossas retinas, em nosso coração. Então, logo descartei a câmera, mas não o protetor, afinal eu caminharia muito em meu desaparecimento. Mas...e a família? O que pensariam, o que diriam, o que sentiriam? Comprei a erva, e na volta já havia esquecido que pensei em desaparecer como aquele homem que foi comprar cigarro na esquina e nunca mais voltou. Afinal, quem nunca?

terça-feira, março 07, 2017

Homenagem a meu único e fiel leitor

Claudinei Nacarato
Advogado. Foi amigo de juventude e companheiro de partido de Arouca.

(Ribeirão Preto - 20.01.2005)
Vídeo 3
Claudinei: Sou Claudinei Nacarato, advogado, ex-militante do Partido Comunista Brasileiro, juntamente com Sérgio Arouca e outros companheiros.
Bom, parece que pra falar sobre Sérgio Arouca, uma grande figura como tantas outras e outras inclusive da história... Veine, Robespierre, etc., etc., etc... esses outros não surgem ao acaso, surgem assim... porque são gênios, nasceram gênios, essa teoria meio jus naturalista  ou seja lá qualquer outro nome que tenha. Na realidade, na década de 60, no início da década de 60 vivia-se um momento de tentativa de transformação da sociedade, com uma agenda muito forte, muito positiva, que era aquele projeto nacional desenvolvimentista burguês do Getúlio que é retomado pelo Jango, com a palavra de ordem das reformas de base. Então nós estamos na ofensiva; nós eu me refiro a todas as forças progressivas de esquerda incluindo o PCB, no qual o Arouca e eu militávamos, junto com o Barbierie e tantos outros.
Essa militância por si só e essa tentativa de transformar o Brasil, ela se mostrava num momento extremamente propício, porque nós tivemos em 59 a Revolução Cubana, quando ficou provado aos nossos olhos naquela época que: um, uma revolução nas barbas do Imperialismo era possível... dois: uma Revolução ainda que fosse por fora do partido era possível, então nós tínhamos toda uma agenda de transformação e o Brasil começou a ter uma efervescência, antes e depois da Revolução Cubana que envolveu uma série de fatos da vida nacional. Porque naquela época você já tinha reação, só que hoje quando a gente fala de reação você logo lembra de repressão, tortura, esses negócios e não era assim. Você leu a carta-testamento do Vargas em que ele desce o pau na reação nacional e internacional, dentro dessa luta pela transformação, pelas reformas de base, porque o que você necessitava era de ter argumento, isso vai gerando uma série de necessidades e que também vão gerando conseqüências, exemplos: surgimentos da Bossa Nova, surgimento do Cinema Novo, nós temos tanta gente por aí. Temos também o Teatro do Oprimido com o Barbierie, a estética da fome...
Então esse potencial cultural era fundamental para fazer a politização, a conscientização, da necessidade de se fazer a Reforma de Base. Começa-se a ver muita gente engajada e à medida que você vai se engajando, você vê necessidades, por quê? Porque o pessoal que está nessa luta não é cabeça de bagre, é um pessoal que está estudando, que está lendo e tal.
Por que eu gosto de colocar esse contexto? Todos os da nossa geração... Barbierie, Arouca, eu, Gigis e tantos outros, se você quer que tenha uma leitura obrigatória mínima... era o Manifesto do Partido Comunista, A Ideologia Alemã, o 18 Brumário... aquele outro que tem aquela polêmica com o Malthus [na realidade com Proudhon], A Filosofia da Miséria ou A Miséria da Filosofia e tantas outras coisas... Quando eu falei aqui do Teatro do Oprimido a gente lia tudo de Brescht, e Dias Gomes e Lauro César Muniz e lia também Pirandello, Libisi (?)... lia até Stanislavski, para entender um pouco de dramaturgia. Como tinha o Centro Popular de Cultura da UNE, que teve aqui em Ribeirão Preto, também o Barbierie deve ter falado do Rocha Lima... lá você tem contato com a obra do Carlos Vila, Ferreira Goulart, Paulo Mendes Campos, o Jorge Amado, Graciliano Ramos... todos engajados, Maracovski, se eu fosse citar nomes e nomes... mas era o mínimo que você tinha. Ahhh! Eu falei só de algumas obras do Marx, mas você tinha que ler também o esquerdismo do partido comunista [Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo], O Que Fazer... era o mínimo que você tinha, porque naquela época você não tinha televisão, você não tinha internet, então o contato era pessoal, o contato era com grupos... se a gente fosse conversar com algum companheiro de partido sem ter esse mínimo, você não tinha como conversar e tinham companheiros nossos que estavam sempre um livro à frente. Eu lembro direitinho do Gigis, o Gigis de Bilistum que posteriormente foi assistente do Antonioni.
Ah! Cinema, eu não citei aqui o cinema internacional. Tinha que saber Rossellini, Bertolucci, todo aquele pessoal do cinema do pós-guerra da Itália, você tinha que compreender tudo aquilo, Godard. Você tinha que pegar um La noche do Antonioni, mas você tinha que discutir ideologicamente o que era, que seria uma crítica do louco, do vazio na burguesia... e nisso entra também o Buñuel, a Bela da Tarde, e vai por aí afora, quer dizer toda essa efervescência levava a uma necessidade de você conhecer, de você ler, de você assistir, de você jogar xadrez etc., etc., etc.
O Gigis que eu estava citando ele estava sempre um livro à frente, então quando você estava lendo Politzer, ele já estava lendo Garodin, a hora que você chegava no Garodin, ele já estava no Tousse, quando você chegava no Tousse, ele já estava no Foucault. O Turco era terrível. Uma vez saiu uma bomba de um livro que eu não me lembro o nome do livro nem o autor, mas eram uns calhamaços, uns três ou quatro calhamaços, sobre a Segunda Guerra Mundial e ele se trancou e leu tudo aquilo de uma tacada e pra chegar e falar que não valia nada, que não tinha análise, não tiha nada, uma montoada de lixo.
Regina: Mesmo... quer dizer, você é advogado, né, voccê é mais da área de humanas, vamos dizer assim, mas mesmo outros comunistas militantes, que eram de profissões assim... como a Medicina, e mesmo Engenharia, liam essa coisa toda?
Claudinei: Obrigatoriamente, e assim o Barbierie deve ter prestado depoimento. Ele toca violão, ele compunha e ele também fazia poesia. O que não era privilégio dele, eu também tinha um mundaréu de poesia, só que não guardei nenhuma, pra felicidade geral da literatura brasileira. Mas quando a gente ia fazer um espetáculo pra politizar isso, aquilo e aquilo outro, não era só pra cantar a canção do subdesenvolvido, ou a canção do Zé da Silva era um homem livre e blá, blá, blá, blá... não. Você tinha que criar também.
Regina: E quais eram os sonhos de vocês? As coisas de sonhos, ideais... pelo que vocês pensavam que valia a pena lutar?
Claudinei: A luta básica era pela transformação das estruturas econômicas e sociais que achávamos arcaicas do Brasil daquela época, via reformas de base que não enxergávamos como ponto de chegada, mas como ponto de partida. E já que você é historiadora seria assim, a reforma seria uma espécie de governo Kerenski, ou seja, o primeiro passo pra tentar alguma coisa além daquilo. E isso tava muito ligado também com outras lutas internacionais que estavam todas em ascensão. Os movimentos de libertação da Argélia, Angola, Moçambique, Guiné Bissau, estavam todos em ascensão. A guerra do Vietnã que já tinha derrotado, os Franceses (acho que foi em 54), estavam derrotando os Americanos e partindo pra uma ótica assim socialista, comunista.
Regina: Você conviveu muito com o irmão do Arouca?
Claudinei: O Zé Carlos? Eu trabalhei com ele quase 20 anos.
Regina: E ele também era comunista? Também era do partido comunista? Enfim então também estava engajado com essas lutas? Quer dizer o Sérgio Arouca se espelha muito nesse irmão? Você acha que ele tinha isso?
Claudinei: Ele também era do partido. Eu acho que eles tinham uma relação tão forte que na minha ótica o José Carlos considerava o Sérgio como uma espécie de filho... não era só irmão mais novo, era mais um filho que ele tinha. E o Sérgio via o Zé  Carlos como uma espécie de pai, era uma relação muito forte, muito profunda e a partir também de características muito divergentes entre os dois muito grande na vida diária pessoal que o pai deles, o senhor José Pereira Arouca, ele comentava muito com o meu pai, que eles batiam papo toda tarde, eram vizinhos, idosos e tinham aquele papo. E o senhor José sempre dizia o seguinte pro meu pai: “Pois é, senhor Vicente, o José Carlos ele é organizadíssimo, ele me telefona, ele vem, ele cumpre horário, agora o Sérgio, você já viu, né, Vicente? O Sérgio é bonachão, largadão, ele às vezes esquece de telefonar, às vezes fala que vem e esquece o compromisso, o horário. Mas eu e a Alzira já estamos acostumados.”
Agora uma coisa que eu gostaria de deixar gravado... que era o orgulho que todos os militantes do partido de Ribeirão Preto... que nós tínhamos dois irmãos brilhantes, em suas respectivas áreas, duas cabeças privilegiadas, duas pessoas... do ponto de vista pessoal mesmo, que eram fantásticas e os dois eram companheiros de partido. Aquilo era a honra e a glória pra todos nós.
Bem, então eu falo muito de todo esse contexto, porque Ribeirão Preto estava dentro disso. Quer dizer, sem essa luta geral, não haveria centro acadêmico Rocha Lima, não haveria o Centro Popular de Cultura do Rocha Lima e todos esses episódios que se seguem... quer dizer, não surgiria um Sérgio Arouca, que foi um sanitarista brilhante e que depois ficou provado. O Gigis não seria assessor do Michelangelo Antonioni, eu achava isso piada, quando o Turco chegou aqui de Roma e falou que era assessor do Antonioni, eu pensei “eu acho que ele carrega uma maleta lá pro Antonioni”, até o dia em que eu fui ao cinema e vi lá “assessor do diretor: Gigis de Bilistum”, e era Turco, com o qual eu lutei pela posse do João Goulart, na Revolução do Jango. Fizemos um puta movimento, fizemos jornal na escola... mas tudo isso eu acho irrelevante, o mais importante é o movimento geral, o movimento no qual todos nós estávamos, numa ofensiva pra transformar o Brasil.
E tem uma visão que algumas pessoas colocam que... “esse pessoal da esquerda, eles queriam trocar uma ditadura por outra”, “queriam transformar o Brasil na União Soviética, Cuba e tal”, esse era um pessoal muito fraco, porque eles desconhecem o mínimo de dialética, marxismo, de leis, da própria história, pra saber que cada contexto histórico social tem uma característica própria. Você não pode copiar revolução. Eu acho ridículo que não passa por nenhum de nós, o pessoal que viveu esse momento transformar o Brasil em Cuba, Rússia, China, seja lá o que for, apesar que Ribeirão Preto ter esses apelidos, Moscou brasileira, Havana brasileira, Pequim brasileira, porque era muito grande o núcleo do pessoal aqui engajado no movimento de esquerda, não só do PCB, mas também forças da área progressista da igreja católica e outras forças que foram surgindo. Então nós sabíamos o que queríamos, ou seja, esse país que estava igual ou semelhante desde quando foi descoberto tinha de ser modificado, quer dizer a nossa estrutura agrária era semelhante, quase igual a das capitanias hereditárias, com aquelas sesmarias, aqueles latifúndios, acho que seis léguas por seis léguas.
Regina: E você acha que a luta dessa geração obteve sucesso, que as coisas mudaram nesse sentido? Houve mudança com a luta do Sérgio Arouca, sua... o que você acha, vendo introspectivamente?
Claudinei: Vendo do ponto de vista mais geral, nós somos derrotados com o golpe de 64. E houve erro de avaliação da nossa parte, porque nós sabíamos que existia uma reação, que essa reação era articulada, nós sabíamos que existia um embate, um ímpeto... coisa que todos sabem hoje, mas nós sabíamos antes do golpe. E órgãos da reação tipo o jornal Estado de São Paulo, a revista Visão, não se cansava de dizer que o Jango tinha um dispositivo sindical-militar, o Gaspari fala só de dispositivo. Não! Eles usavam um dispositivo sindical-militar. E eles diziam: “o Jango resiste ao golpe porque ele tem o Ministro da Guerra, ele tem o Comandante do Exército e tal”. Tinha aquela bobagem de generais do povo, que quando houve o golpe eles desapareceram. Quer dizer, era um engodo aquilo, da própria reação... eles diziam... “não, mas mesmo que ele não conseguisse a resistência militar, ele tem o movimento sindical nas mãos, ele pára o país”. E nós acreditamos nessa bobagem, que às vezes era repetida na Voz Operária, no Novos Rumos, que a gente também era obrigado a ler e a discutir. Por isso que eu estou te dizendo que o militante daquela época tinha que ter um background, que era fogo na roupa. Ler a Novos Rumos, que era um jornal chato, mal diagramado, maçante, pesado, com um texto assim que mata, mas que era obrigação do militante do partido. O Voz Operária era um jornal dito clandestino e na última página costumava ter um artigo do Antônio Almeida, que era o Luís Carlos Prestes. Nossa! Aquilo a gente tinha quase que decorar.
Isso sem contar que tinha que ler Celso Furtado, Caio Prado Júnior, enfim eram tantas obras de tantos autores... uma coisa que líamos, o romance que marcou época “O encontro marcado”, do Fernando Sabino. Porque depois dos romances de Machado de Assis, foi o grande romance que surgiu na literatura brasileira e era também um romance engajado, tanto que até o fim dos seus dias o Fernando Sabino era cobrado por um novo romance e ele se tornou um excelente cronista. E uma coisa muito interessante sobre tudo isso que eu estou te falando... o maior palavrão que existia pré-64 era alienação, era imperdoável a pessoa se dizer alienada, quer dizer não era contra a reforma, não era a favor e tal.
Quando a pessoa era direita você já sabe, “ele é de direita, não adianta e tal”, tem o cara mais à direita ainda lá do CCC, você até aceitava, mas quando o cara era assumidamente alienado, isso era pecado mortal, sem direito a indulgência, penitência, perdão... seja lá o que for.
Regina: E esse movimento de vocês em Ribeirão ele congrega muita gente, é um grupo grande, tem representatividade popular?
Claudinei: Tinha na época, tinha muita representatividade, assim como o partido como um todo. Na eleição de 1950, o partido laçou um candidato a presidência da república o Doutor Yedo Fiuza do Rio, mas me parece que um ou dois dias antes da eleição, o Carlos Lacerda que era da reação, mas excelente jornalista, escritor e orador, ele escreveu um artigo “O rato Fiuza”, demolindo com a candidatura do partido. E o doutor Fiuza era conhecido quase que só no Rio de Janeiro, com tudo isso ele teve 10,7% da votação e depois disso o partido começou a crescer porque o Getúlio ganhou a eleição, mas fez aquela aliança com o Prestes. Houve toda aquela luta, o Tamburus vai falar muito sobre isso, a luta nacionalista da década de 50, que na minha ótica ela é interrompida pelo Juscelino Kubitschek, porque o projeto do Getúlio era a industrialização de bens de capitais e o Juscelino, ele faz uma mudança de rota, pela industrialização por bens de consumo. Um monte de porcariada, que o primeiro mundo já estava abarrotado e eles viram isso daqui como desaguadouro disso. Mas aí, o projeto getulista é retomado e aprofundado com a renuncia do Jânio e a posse do Jango, principalmente quando o Jango torna-se presidencialista.
Sempre lembrando que o Jango caiu, no governo do Getúlio porque ele teve a ousadia e a coragem política numa conjuntura extremamente favorável de dobrar o valor do salário mínimo e a reação não perdoou e o Getúlio teve que tirar o Jango. Hoje fala-se muito pouco no Jango, critica-se muito ou às vezes até se omite, mas foi um período em que nós estivemos próximos de tentar uma transformação.
Agora, quando eu digo que até 64 era uma coisa, porque nós estávamos na ofensiva, abrindo sindicato mais sindicato, ganhando eleições do centro acadêmico, UEE, UNE, tentando legalizar uma central de trabalhadores, o que era proibido por lei, só podia ter sindicato e confederação... aquelas da CLT. Mas uma geral, nacional, era proibida por lei, porque eles tinham medo de que poderia parar o país.
Agora com o golpe, o movimento comunista etc., etc... o movimento comunista continua forte só que ele passa pra defensiva, se tornou um movimento de resistência ao golpe.
Mas o assunto disso tudo aqui é Sérgio Arouca... bem, Sérgio Arouca num primeiro momento, ele parecia até uma figura fraca, por uma razão simples: ele ficava ouvindo as pessoas falarem, fica ouvindo, ouvindo, ouvindo, então num primeiro contato você ouvia um falar, outro propor uma idéia revolucionária, daqui, de lá, então tinha que ser assim, vamos fazer isso, vamos fazer aquilo, vamos fazer pichação aqui e fazer panfletagem... e o Sérgio lá caladinho, né...
Aí a gente achava o seguinte... esse companheiro aqui é meio devagar, será que ele não está entendendo, será que ele é meio pazzo, mas na realidade ele era cerebral pra chuchu... ele ficava vendo uma monte de abobrinha que a gente falava, aquilo que havia de aproveitável e no final ele fazia um síntese, excluindo aquilo que era supérfluo e aproveitando aquilo que ele entendia que era aproveitável.
Uma das facetas pelas quais ele ficou célebre é que ele virava todas as assembléias da faculdade de medicina, isso aí é narrado pela Ana, que pode ser tida como suspeita, porque era namorada dele na época... mas Toshil Tanaka, companheiro de partido também da base do Arouca e amigo pessoal meu, ele me contava... a gente ficava estarrecido, porque ele participava, né, e ele falava “nossa, mas o Arouca virou a assembléia” sempre nesse estilo, o pessoal falava, falava, falava e o Sérgio lá, quietinho, quietinho, quietinho, característica essa que ele manteve com ele até quando ele voltou da Nicarágua...
Porque eu estava aqui em Ribeirão Preto, na casa do meu cunhado e o Sérgio apareceu lá, e tinham umas vinte pessoas tudo de esquerda, todo mundo falando e tal, quer dizer e ele que tinha vindo da Nicarágua, quietinho, quietinho, só que na hora que ele abriu a boca, parou o show e as bailarinas desmaiaram... e se você me pedisse uma visão muito pessoal assim... uma definição do doutor Sérgio Arouca eu definiria com uma palavra: “simplicidade”, e isso aí sempre foi impressionante.
No momento que eu conheci, durante todo o tempo que eu trabalhei com o irmão dele, quando ele esteve me pedindo pra fazer a revisão da tese... eu, a professora Bassega e mais uma professora aqui de Campinas, porque eu também fui professor de português e o Sérgio chegou lá com aquela tese, como se fosse a coisa mais corriqueira, a coisa mais banal do mundo e tal: “vê lá com a Bassega e tal, dá uma revisada lá no português”, e eu quando li a tese eu fiquei apavorado, porque eu já senti que era uma coisa de gênio. A lida que eu dei me impressionou. E o negócio de ser bagunçado como o pai dele falava “Ah! O Sérgio é meio bagunçado, meio largadão...” Bom, depois que ele defendeu a tese e tal eu sempre pedi uma cópia, mas ele sempre que falava “pô, Claudinei, eu tenho que dar uma procurada, porque eu mesmo não sei bem aonde é que foi parar essa tese”. E é claro que eu fiquei muito honrado, nele manter na edição do livro o meu nome, como revisor, porque a Maria Aparecida Bassega afinal de contas, foi professora da ECA, Escola de Comunicação de Artes da Universidade de São Paulo, e eu dei aula de português num cursinho de Madureza... e essa simplicidade dele vinha também pra defender a tese, quando o Zeferino Vaz segurou... chegaram lá no escritório do Zé Carlos, como se tivesse me visto no dia anterior e ele “pô, Claudinei, você não conhece ninguém que tenha serviço sobre o Zeferino pra obrigar ele a me deixar defender essa tese e tal... porque o homem não deixa eu defender”, e ele ficava louco da vida.
E por fim, acabou por defender essa tese e essa tese virou... ficou famosa na OMS e tal... e o Sérgio com a simplicidade de sempre, sem nenhuma frescura.
Quando foi candidato a vice do Roberto Freire, foi em 89, né... ele veio aqui em Ribeirão e eu fiquei com ele quase que todo o tempo e tal, mas aquela coisa assim... porque a essa altura ele já era famoso como sanitarista, a tese, etc., etc... Mas ia lá na casa dele... e o seu José “Claudinei, sobe lá, se ele ainda não acordou, tire-o da cama”, seu José era muito... era gente fina. Aí eu subia lá... “oh! Arouca!”, aí ele “Pô, Claudinei, tô aqui tomando uma chuveirada, pega uma cerveja lá pra nós”. E assim a gente ia daqui, dali, acolá e passamos uns três dias juntos e tal... E sei lá, eu gosto de deixar bem claro isso, porque quando se fala de Arouca, lembra-se logo de Ribeirão Preto. E Ribeirão Preto é uma coisa heterogênea que tem o pessoal progressista de esquerda, mas tem os reacionários. Tem gente que fala “Não, o Arouca foi homenageado, tem um Centro de Saúde com o nome dele, foi feita uma sessão solene pelo prefeito...” Agora, enquanto vivo, eu não conheço nada que a reação de Ribeiro Preto tenha feito em homenagem ao Arouca. Nem me lembro de terem feito uma menção por ele ter sido o primeiro cidadão de Ribeirão Preto a ser candidato a vice-presidente da república. Não saiu em nenhum jornal. O Palocci... só pra servir de comparação... só pra se ter uma idéia da restrição que se fazia aos comunistas que foram presos, como o Arouca, e que nunca teve espaço em Ribeirão Preto e, pelo contrário, a ligação que ele mantinha com Ribeirão Preto era uma ligação que era com o pessoal do Partido... o Barbierie, com quem ele sempre manteve, quer dizer com Barbierie ele fez um trabalho maravilhoso em Manguinhos. O Arouca tinha essa atenção pela gente. Quando ele foi Secretário de Saúde do Rio, a minha mulher precisava ir lá pra conseguir uma entrevista com o Reinaldo Guimarães, da FINEP. Cheguei lá 6hs da manhã no Rio, ele era secretário de saúde do Rio e eu ligo pra casa dele e digo “Arouca, eu to aqui no Rio, cheguei na estação rodoviária e tal...” Com a maior simplicidade, ele me disse “ô Claudinei, que felicidade! Mas ontem eu tomei um porre, vou chegar um pouquinho mais tarde, mas você entra na minha sala e me espera lá”. Cheguei lá tinha um bando de gente simples, todo aquele pessoal da Baixada, lideranças sindicais de comunidades, de bairros, tudo povão pobre, tudo esperando lá o ilustríssimo Senhor Doutor Sérgio Arouca, célebre no mundo inteiro e com aquela simplicidade de desde quando ele era estudante.

quinta-feira, dezembro 22, 2016

As borboletas dentro de mim

O dia amanheceu cinza. Dor nos ombros, vontade de ficar na cama dormindo, sem conseguir dormir. A Necessidade me empurra pra rua. Estaciono na frente do banco, tudo funciona no caixa eletrônico. Vou pra Lajeado, duas paradas de cinco minutos. Estaciono na frente de onde preciso ir. Os Azuizinhos não aparecem. Na primeira parada encontro um moço muito alto e me espanto. Do nono andar ao térreo trocamos informações: ele mede 2,10 e eu 1,50! Fiquei pensando que deve ser bom enxergar as coisas de outro patamar!
Na segunda parada o porteiro deseja ótimo final de semana e já estou lá na calçada, correndo e me concentrando, ao mesmo tempo, para não perder nada (óculos, chave do carro, agenda). As borboletas dentro de mim começam a bater asas querendo voar. Sinto a alegria voltando. Na rua um jardineiro podando plantas na calçada. Paro e pergunto se posso pegar as lindas plantas que estão espalhadas, espantado ele diz que sim, pois vão pro lixo. Na faixa de segurança uma moça fica indecisa, eu faço um gesto indicando que ela pode passar. Ela passa em frente ao carro lentamente e me devolve um baita sorriso. Fico olhando pra ela passar e ir adiante e seu sorriso me ilumina mais ainda e a essa altura preciso abrir a janela do carro para que as borboletas saiam voando. No rádio Nando Reis entoa Sebastião a vida é boa. Sim, a vida é boa e é bela. E é boa.

Tempos difíceis

Vivemos tempos feios, difíceis. Não bastasse o mundo estar em guerra, aqui pelo Rio Grande o caos se instalou. No dia de hoje seis fundações foram extintas: Zoobotânica (FZB), Cultural Piratini (TVE E FM Cultura), de Ciência e Tecnologia, de Economia e Estatística (FEE), Desenvolvimento de Recursos Humanos (FDRH) e de Planejamento Metropolitano e Regional (Metroplan). 
O salário do funcionalismo estadual vem sendo pago com atraso e parcelado. O décimo terceiro desapareceu nesse último mês do ano. Hoje, em Pelotas, uma professora aposentada tentou atear fogo ao corpo quando viu que não havia dinheiro na conta. Dentro do Banrisul. 
Corrupção, desvio de verbas, hospitais fechando, moradores de rua sendo despejados da rua, pobreza aumentando, miséria, violência. Millôr repetiria a frase que mais representa o ser humano: O homem é um animal inviável. 
Pois, andando pelas ruas de Capão eu vejo um carro estacionar e uma mulher sair com comida para dar aos gatos de rua. Ela coloca água num pote de sorvete e comida para os ariscos gatos de rua. Não tenho como não lembrar da turma do Manda-Chuva, aqueles gatos espertos e falantes, sempre aprontando e fugindo do Guarda Belo. Lembrei do Batatinha, Bacana...e sorri para dentro de mim, para que a bondosa mulher não se equivocasse com meu sorriso. 
Chego na padaria pra pegar o pãozinho nosso de cada dia e percebo um menino de bicicleta esperando do lado de fora. Lá de dentro surge a atendente com duas sacolas com pães, cucas e biscoitos dormidos, certamente, mas digeríveis. O olhar do menino é de agradecimento antes que a palavra obrigada saia baixinho de seus lábios. Ele se vai e fico imaginando quantas pessoas aqueles pães irão alimentar. 
Gestos que me comovem e me fazem pensar que o ser humano não é inviável. Não todos. 

quarta-feira, dezembro 21, 2016

Liga depois, estou na sinaleira

Caminhando nos corredores da livraria ouço a frase 'Me liga depois, estou na sinaleira'.
Cheguei ao final do corredor e espiei adiante. Um homem e uma menina olhavam um brinquedo e conversavam sobe ele. A sinaleira, inexistente, dava a ele a privacidade e o tempo que precisava com a menina. Estar na sinaleira requer atenção, cuidado. Logo ela abre e seguimos em frente,então não podemos conversar. Pensei em como o telefone celular ainda não mostra o que o usurário está fazendo em tempo real, embora já o localize no espaço e no tempo.

Estar na sinaleira agora tem um novo significado.

Dez anos

Entáo....esse ano o meu blog completa dez anos de idade. Isso significa 3.650 (três mil, seiscentos e cinquenta dias)  4.380 (quatro mil, trezentos e oitenta dias), 1 87.600 (oitenta e sete mil e seiscentos horas) ,  5.526.000 (cinco milhões, quinhentos e cinquenta e seis mil minutos),  315.360.000, (trezentos e quinze milhões, trezentos e sessenta mil, segundos) .


Nunca fui boa com números, sempre me dei melhor com as letras. Fico pensando em todo esse tempo, em como não escrevi.Como não falei das coisas que penso, das coisas que sei. Dez anos. É algo,é algum tempo.

E nesse entremeio de tempo, tenho ideias, pensamentos.

terça-feira, maio 10, 2016

Fragmentação

Fragmentação

Programada, inicio a desfragmentação.

De pedaço em pedaço, me desfaço. Primeiro os pés. Guardo-os lado a lado numa caixa de sapatos.  Olho para eles. Estão um pouco inchados e amassados por passarem o dia todo dentro de um par de botas. A meia deixou desenhos na pele.As veias azuis estão salientes .Passo o dedo por elas de leve. Sinto-as ainda quentes. Os dedos brancos, as unhas quadradas, delicadas. Cubro-os com um papel de seda. 

Depois, guardo o umbigo numa caixinha de metal, destas de pastilhas Valda. Não consigo deixar de pensar que meu umbigo ficará com cheiro de eucalipto. Gosto de eucalipto. Meu umbigo redondo, pequeno, parece um botão cor de pelo.  Umbigo inútil. Durante muito tempo olhei apenas para ele.

Os seios, guardo-os na gaveta da cômoda, entre lenços e cachecóis.

O sexo, debaixo do travesseiro, ao alcance da mão.

O coração, retiro-o com cuidado e sinto-o pulsar entre as mãos. Seguro firme.Temo abrir os dedos e que ele fuja, voe como um beija-flor. Não, meu coração bate fraquinho. Olho com cuidado e vejo que tem as bordas amassadas.Alguns pedaços estão faltando.Fico pensando como ainda pulsa.Como ainda vive.Ou não vive? Ou é apenas impressão minha? Ou será reflexo de um músculo involuntário?

 Guardo-o numa caixinha, no fundo de uma gaveta. Por cima, coloco cartas de amor não recebidas, poemas não escritos, fotografias esmaecidas.Ao lado, uma flor seca.


Minha memória guardo numa dessas caixinhas de separar coisas de costura.Um partezinha para as alegrias, duas para os sofrimentos.Outra para as esperanças.E uma última para a alegria de viver.

Os olhos, extraio um a um. Guardo-os na bolsa, irão onde eu for.

A voz, prendo numa gaiola.Ficará lá, à espera de um instante mágico em que precise de minha palavra, de meu grito.


As mãos, estas mãos que buscam, que ardem, que doem, guardo-as nos bolsos de um casaco.Um dia desses, despretensiosamente, alguém as achará, tal qual uma moeda perdida e tão festejada.

 Assim,deito e não sou mais. Desfragmentada, não existe Eu. Apenas partes do que fui.

  • A Igualdade é Branca
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