domingo, novembro 27, 2011

Como é difícil viver longe dos filhos e longe do amor dos filhos.

sexta-feira, novembro 25, 2011

A luz das manhãs




Gosto da luz da manhãs. Na cidade grande a luz incide sobre os arranha céus, as árvores, as pessoas caminhando apressadamente, os cães preguiçosos, os moradores de rua ainda adormecidos nas calçadas.No campo, a luz da manhã ilumina o orvalho na relva, as águas cristalinas dos rios e acorda a passarada. Gosto da luz das manhãs na minha pele, gosto de olhar sob a luz das manhãs.

Amigos,amor.




A música Pais e Filhos, da Legião Urbana, tem um tom de tragicidade, de tristeza e de apelo ao amor incondicional aos filhos e amigos, às pessoas que amamos e com quem convivemos. Gosto dessa música, mas nem sempre fazemos da sua letra uma máxima em nossa vida, um norteador, um direcionador. Não perdi nenhuma das pessoas da foto, mas lembrei disso quando, mexendo no computador, encontrei a foto. As amigas Elisena e Angela não verei mais seguidamente, talvez raramente, talvez nunca mais. Uma mora em Passo Fundo, a outra em Guaíba. Nosso amigo João Maurício não encontramos mais. Ele não veio mais para as aulas, provavelmente nunca mais nos veremos.Na foto restamos eu e minha filha, um encontro e reencontro sistemático, senão pessoalmente, por telefone, e.mail e pensamento. São os laços do amor familiar que se perpetuam.
A amizade e o amor que temos pela pessoa deve se manifestar a cada momento, a cada dia. É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã. E na verdade não há.

quinta-feira, novembro 24, 2011

Nas profundezas do jardim

Minha amiga Paula resolveu reformar a casa. Os pedreiros chegaram de mansinho com pás, talhadeiras, furadeiras, martelos e carrinhos-de-mão. Combinados com o Angelo, marido de Paula, puseram-se a quebrar paredes e remodelar a casa, construída há dez anos, à beira do Canal de São Gonçalo.

Reforma sempre demora mais do que o previsto. Assim, os dias foram passando, a poeira cobrindo tudo, móveis fora do lugar e os pedreiros chegando às 7hs e saindo às 18hs. Sem concluir a reforma dentro de casa, passaram para o jardim. Com a necessidade de se fazer uma drenagem da água no terreno, que é próximo ao rio, os pedreiros iniciaram a traçar profundos e estreitos canais no jardim.

Ao chegar em casa, no final da tarde, os pedreiros relatavam os progressos do trabalho diário. Paula e Ângelo já estavam ficando exasperados com todos os buracos, tábuas pelo chão e poeira, mas essa é normalidade de uma reforma. No entanto, numa dessas tardes, Paula chegou em casa e foi a vez dos pedreiros mostrarem-se exasperados:
- Dona Paula, a gente tava cavando a terra lá no buraco e encontramo uma coisa estranha. E relataram:Ao aprofundarem a escavação, num dos tuneis abertos no meio do terreno, encontraram uma laje. Não era uma laje natural, dessas que nascem e crescem desordenadamente como as magnólias do Machado de Assis. Ao contrário, era uma laje lapidada por mãos humanas, retangular e de cor alaranjada. Debaixo da pesada laje havia um plástico preto e grosso, enrolado como se fosse um tapete, em torno de si mesmo. O rolo media, aproximadamente, 1,80cm. Desenrolaram o "tapete" de plástico preto e um odor fétido empestou o ar. Cobriram os narizes com as camisetas sujas e espiaram para dentro do rolo. Roupas podres e água suja. E fedor. Enrolaram novamente o plástico e deram um fim naquilo.

Paula achou graça do relato dos pedreiros, mas tentou levar a sério.
- Vamos chamar a polícia, quem sabe é um corpo?
- Não, Dona Paula. Nóis já botemo lá pras banda do rio.
Minha amiga insistiu, mas eles desconversaram.

Quando ela me contou essa história logo pensei: quem seria o morto ou a morta? Seria humano, inumano? Seria um desumano? Enterrado há mais de dez anos, essa reforma era a esperança, quem sabe, desse cadáver desconhecido ser, finalmente, encontrado e reconhecido.

Quem desapareceu há mais de dez anos na região do Canal de São Gonçalo, em Pelotas? Era homem, mulher? Moço, velho? Era alto, isso é certo. Das roupas, os pedreiros não informaram quase nada. Como o corpo estivera tanto tempo dentro d'água, literalmente desapareceram, corpo e tecidos, restando fragmentos de trapos apodrecidos.

Certamente Watson saberia dizer quem era o defunto, o que fazia, como morreu e até o que comeu em sua última refeição. Mas não sou Watson, embora continue a pensar no morto, enterrado tão profundamente naquele solo arenoso e úmido, tão solitário e anônimo nas profundezas do jardim da minha amiga.



(Os nomes e lugares foram alterados para preservar a segurança dos vivos)

quarta-feira, novembro 23, 2011

Sou sua sabiá

Se o mundo for desabar
sobre a sua cama
E o medo se aconchegar
sob o seu lençol
E se você sem dormir
tremer ao nascer do sol
Escute a voz de quem ama
ela chega aí

Você pode estar
tristíssimo no seu quarto
Que eu sempre terei
meu jeito de consolar
É só ter alma de ouvir,
e coração de escutar
E nunca me farto
do uníssono com a vida

Eu sou, sou sua sabiá
Não importa
onde for vou te catar
Te vou cantar te vou
te vou te vou te vou
Eu sou, sou sua sabiá
O que eu tenho eu te dou
E tenho a dar
Só tenho a voz cantar,
cantar, cantar, cantar


Marisa Monte

A mãe

terça-feira, novembro 22, 2011

O pai

Meus sabiás




Um casalzinho de sabiás fez ninho na área da minha casa. Quando percebi já haviam nascido três filhotes. Fiquei espantada com o tamanho dos bichinhos,eu não diria que eram filhotes a não ser pela dificuldade em manterem os olhos abertos por muito tempo.

Há alguns dias eu os observava e eles ficavam lá, paradinhos, olhando para fora, com os olhos fixos em mim. Quando me aproximava eles não se mexiam. Percebi que não tinham medo ou não conheciam o perigo. Os pais, não, eles mudavam o canto quando eu ou um gato se aproximava. Os gatos oferecem um perigo real, se eles conseguem chegar perto do ninho dos sabiás,adeus tia chica!Ou, adeus sabiá!

Agora eles saíram do ninho e iniciaram os primeiros voos. Ficaram por ali durante dois dias, nas cadeiras, nos galhos das árvores, no chão. Um deles dormiu na janela da cozinha, na primeira noite. Agora já foram para o mundo e tomara que esse mundo seja bom para eles e, principalmente, que saibam fugir quando necessário,que saibam reconhecer entre um gato malandro e a dona da casa que se debruça na janela e adora ouvi-los cantar.

Esses são meus sabiás, porque eu quero dizer que são meus, mas eles são deles mesmos, são livres.

Todas as tardes quando chego em casa do trabalho encontro meus sabiás.Eu,na janela e eles, no telhado em frente. Eles cantam, eu respondo. Eu canto, eles respondem. Eles, meio desconfiados, viram a cabecinha em minha direção e observam. Devem pensar que sou muito grande para uma sabiá. Eu penso que os engano com meu falso canto. Ficamos assim um tempinho, até que eles voam para outros lugares e eu vou tomar meu café.

Minha felicidade pessoal, no momento, reside nesses momentos de encontro com os meus sabiás e seus filhotes.

terça-feira, novembro 15, 2011

O Dudu e eu

segunda-feira, novembro 07, 2011

Flores, frutos e felicidade materna

Hoje minha filha me disse uma das coisas mais bonitas que já ouvi. E eu experimentei uma doce sensação de felicidade materna. Ela disse que percebe que à medida que está ficando mais velha está ficando muito parecida comigo. Não fisicamente, mas no jeito de olhar o mundo, de pensar certas coisas.
Como toda mãe que se preza pensei que ensinar a se organizar, a ter uma cama com lençóis limpos e cheirosos, a receber bem as pessoas, era importante. Ela sempre resmungou um pouco com isso e às vezes foi meio contra, argumentando que eu me apegava a coisas pequenas, desnecessárias.
Pois foi exatamente sobre isso que falamos hoje. Ela disse que se importa com isso, acha importante apresentar uma cama limpinha a uma visita, por exemplo. E aí que disse que percebe estar ficando cada vez mais parecida comigo. Isso me deixou muito feliz. Não que minhas verdades sejam absolutas, mas são as minhas verdades, coisas que tentei passar para meus filhos.
Arrumar a mesa com cuidado, colocar guardanapo, os talheres no lugar, uma louça bonita, uma toalha limpa, flores, velas. Gosto disso, acho bacana. É uma forma de demonstrarmos nosso amor e carinho por quem estamos recebendo.
Enfim, é aquela velha história da sementinha. Plantamos a semente, cuidamos da terra, regamos e não podemos ter pressa, um dia ela brota, cresce e dá flores e frutos.

Sobre a beleza e a arrogância

Sobre a foto retirada do blog. O barquinho ancorado no lago, na foto, pertence ao sítio de uma colega minha. Ela era minha amiga, mas de tanto ser agressiva e arrogante, para não dizer estúpida, eu me afastei dela. A última aconteceu na sexta passada, no final do expediente. Ela estacionou na faixa amarela, em frente ao nosso local de trabalho, durante toda a tarde. Quando saí do trabalho, casualmente a encontrei e comentei que eu tinha medo de estacionar na faixa amarela. Ela disse assim: "Tu tem mesmo que ter medo porque tua carteira é provisória, eu não preciso ter medo. E de mais a mais este estacionamento é nosso (do trabalho). Eu argumentei que, para mim, o certo é certo, agora e depois quando tiver carteira definitiva. Ela se afastou e eu fique indignada, por sua arrogância, por sua agressividade gratuita, de novo.
Ela é uma dessas pessoas que nunca nos dizem algo de bom, ao contrário, sempre tem algo ruim a dizer. E eu faço o possível para ficar longe de pessoas como ela, eu e os outros noventa por cento dos colegas.

Então, eu não sabia como escrever sobre isso sem nomear exatamente como fiz agora. O que eu queria era comparar um lugar tão bonito, que pertence a uma pessoa tão feia, o que, de certa forma, é injusto.

Mas, como meu leitor percebeu a retirada da foto, preciso explicar-me.

Demorei muito a aprender a dirigir, ainda estou aprendendo e não pretendo infringir a legislação, seja agora ou depois de ter carteira definitiva. Penso que as leis deveriam ser respeitadas em todos os níveis, sempre, afinal elas servem para que não sejamos animalescos, para que nos relacionemos com o outro e com o mundo de forma civilizada. Para algumas pessoas não são necessárias as leis, o respeito é intrínseco, para outras, nem existindo leis resolve. Elas não respeitam nada mesmo e impõem o que pensam e o que sentem a todos os outros. É o caso dessa colega. Infelizmente para quem tem que conviver com ela.

Esse fato me incomodou durante o final de semana, foi como se uma espinha de peixe estivesse atravessada em minha garganta. Difícil de engolir.

domingo, novembro 06, 2011

As chaves



Gosto de estar em Porto Alegre. Gosto do burburinho das ruas, do por do sol do Guaíba, da agitação cultural. Gosto dos bares da Lima e Silva, embora não tenha ido a nenhum deles (ainda). Mesmo assim, gosto de passar e ver as pessoas sentadas, conversando, bebendo, confraternizando.
Por outro lado, quando vejo pessoas dormindo nas ruas, enroladas em um cobertor velho e sujo, não consigo deixar de pensar que elas têm (ou tinham) uma família, pai, mãe, irmãos. Ou não. Mesmo que não tenham, como diz a minha mãe, "não são filhos de carucaca", embora eu não saiba exatamente o que quer dizer isso. Elas nasceram de uma mãe, isso é certo, embora possam ter tido apenas mãe durante a vida toda.

Mas, é nessa Porto Alegre e nesse domingo ensolarado de novembro que aconteceu um fato inusitado, desses que a gente ouve falar mas que nunca nos aconteceu.
Indo para o brique da Redenção, dei uma paradinha na praça da Matriz para tomar água e descansar à sombra das acácias e jacarandás, quando uma moça aproximou-se e perguntou se eu ia ficar por ali. Respondi que ia ficar um pouco, mas não muito. Ela explicou que alguém deixara um molho de chaves sobre o banco próximo dali, onde ela estivera sentada e que ela não queria ir embora deixando as chaves; alguém poderia pegar e o dono não mais as encontraria. Percebi que ela estava aliviada em passar para mim a responsabilidade sobre as chaves. Ela explicou que provavelmente alguma mulher teria deixado cair da bolsa e entraria em pânico quando percebesse a perda. Que poderia ser alguém que tivesse estacionado o carro por ali e só notaria quando fosse embora. Perguntei se não daria para identificar a marca do carro pela chave, ela disse que não. Enfim, ela foi embora e eu me aproximei do banco, sentei ao lado das chaves. Junto tinha um chaveiro escrito "enfermagem". Várias chaves, todas de portões e portas de casa, nenhuma de carro.Além de várias chaves comuns, todas de portas externas. Deduzi que a pessoa deveria, provavelmente, morar por ali. Além disso, dois cortadores de unha de aço inox, exatamente iguais. Pensei que as chaves seriam de um homem, já que mulheres não cortam a unha com cortadores, elas lixam, tiram a cutícula e pintam, embora isso seja regra, há exceções. A menos que essa mulher seja uma enfermeira, o que faz com que tenha sempre as unhas bem cortadas e sem esmalte, o que explicaria um cortador de unha. Mas dois? Um talvez já não corte tão bem, então tem junto um novo cortador de unha, ambos da mesma marca; Unhex.
Observei as pessoas ao redor, uma mãe brincando com o filho na pracinha, um morador de rua deitado junto a um monumento, um casal sentado mais adiante, outro casal passando com um cachorrinho, um skatista, dois rapazes com camisa do Inter conversando. Nenhum guarda, nenhum ponto de táxi próximo. A moça que me passou a responsabilidade de guardiã das chaves já ia longe, certamente aliviada por se livrar do compromisso auto imposto. Pensei em levar as chaves comigo e deixar o número de telefone sobre o banco. Nisso aproximou-se um senhor e sentou-se no banco em frente ao meu. Eu perguntei se ele ficaria ali por muito tempo ao que ele respondeu com outra pergunta; por que? Expliquei o caso da chave e disse que iria deixar pra ele a função de cuidar das chaves, eu teria que ir embora. Ele disse que se fosse uma mulher, cuidaria, mas das chaves não. Pedi uma caneta emprestada e escrevi num pedaço de papel de propaganda que estava por ali, a seguinte mensagem: "Estou com as tuas chaves" e o número do meu telefone. Deixei em cima do banco com uma pedra em cima, guardei as chaves na bolsa e fui embora. O "senhor" queria guardar mais do que as chaves, então não dei muita bola pra ele.
Fui embora pensando se teria feito a coisa certa. Quantas pessoas ligariam para o meu celular passando trotes? Será que a pessoa que perdeu a chave retornaria àquele banco? Dobrei a esquina, andei uma quadra e senti que minha bolsa estava pesando muito. Senti que aquele peso todo era das chaves de alguém, da vida de alguém, das portas que só deveriam se abrir para essa pessoa, a enfermeira ou enfermeiro, ou estudante de enfermagem, ou quem quer que fosse. Não era da minha história, da minha vida, não era a minha carga.

Voltei ao banco, peguei o bilhete que, provavelmente ainda não havia sido visto por ninguém, coloquei no lixo, devolvi a pedra ao chão. Do outro lado da rua (sempre do outro lado da rua) tem a sede de um partido político e mesmo sendo domingo, um pintor varria pacientemente a calçada onde havia vestígios de tinta e reboco descascado. A porta estava aberta, entrei e bem próximo havia uma mesa, vários blocos e papeis para rascunho e uma canetinha hidrocor vermelha. Peguei um pedaço de papel e escrevi "Estas chaves foram encontradas no banco em frente, na praça". Saí como entrei, quieta e sem ser vista. Aliviada, não deixei a chave na rua, não trouxe comigo. Alguém que a encontrasse, certamente se sentiria responsável por ela.
E o dono ou a dona das chaves, a essa altura da noite, já deve ter encontrado um chaveiro para, pelo menos, poder entrar em casa.
Lamento, é um mistério que não desvendarei, mas o que seria dos mistérios se todos fossem desvendados? Não existiriam. E a vida, sem mistério, não tem graça.

quarta-feira, novembro 02, 2011

A beleza e a solidão



As areias das praias de Natal parecem infindáveis.Na solidão do espaço, de repente passa uma charrete carregando um pescador, ou é um pescador carregando uma charrete? Passa tão lentamente e, paradoxalmente, tão rápido que quase não conseguimos registrar. Ela estava lá e de repente não estava mais.

  • A Igualdade é Branca
  • A Fraternidade é Vermelha
  • A Liberdade é Azul
  • Blade Runner