quinta-feira, janeiro 26, 2012

Berço



O que é ter berço? A colocação de uma colega de trabalho me levou a refletir sobre o que é ter berço. Ela disse que quem tem berço não explicita o que vai fazer na depiladora, por exemplo. A pessoa, não necessariamente uma mulher, diz que vai depilar a virilha, não precisa dizer que são as adjacências também e inclusive, isso está implícito no pequeno pedaço de pele da virilha. Isso para ela, é ter berço. Isso me encafifou; será que tenho berço? Penso que, de repente, ter berço não é ter pai e mãe, irmãos, avós,  aquele modelo de família fechadinho num pacote ideal.

Ter berço não é ter educação nas “melhores” escolas, seguindo um modelo tradicional cristão. Ter berço não é ter nascido num de ouro, como se dizia antigamente. Penso que ter berço pode ser bem mais do que isso; pode ser não ter nada disso, não seguir nenhum modelo preestabelecido do que é ter berço. “Ser” uma pessoa de berço pode ser uma pessoa com ideias e pensamentos claros e definidos em relação ao que quer e o que não quer para a sua vida. Pode ser uma pessoa que não perde seu tempo diário falando dos outros, destilando veneno vagarosamente, criticando cada ponto fraco das pessoas com quem convive. Pode ser, também, uma pessoa que não se coloca no centro do universo, puxando para si todos os benefícios da natureza, tipo; meus filhos são os mais inteligentes, meu marido é o mais bonito, meu pai é o mais rico, sou a mais inteligente, etc,etc,etc.

Ter berço pode ser ajudar a quem necessita, sem fazer alarde disso. Pode ser não falar alto em público, não contar suas mazelas no ônibus, numa viagem noturna, e não deixar ninguém dormir. Não furar fila.  Ter berço pode ser não cantarolar “vem, delícia, eu te pego...”, ao contrário, pode ser cantarolar Garota de Ipanema, conhecer música clássica, recitar o poema Tabacaria, de Fernando Pessoa, de cor e salteado, como dizia minha avó. Aliás, ter berço pode ser tido somente uma avó e nunca esquecer seus ensinamentos,  apesar de tê-la perdido ainda na infância. Claro que estou particularizando, refletindo  a partir de vivências pessoais a respeito do que é ter berço ou não, por isso o texto é  colocado no nível das possibilidades; pode ser ou pode não ser.
Tenho ouvido seguidamente essa expressão “é de berço”, mas não consigo significar com precisão o que é ter ou não ter berço. Creio que essa expressão traz em si uma classificação hermética, revelando ser do senso comum que ser de berço é ser bem nascido (leia-se dinheiro), bem educado em torno do velho esquema familiar pai-mãe-filho. Porém, me recuso a classificar as pessoas em caixinhas, em esquemas arcaicos como esse. Então, penso que não sou de berço, sou sem berço, sou mal nascida, mas não mal vivida. E é isso que importa para mim.

terça-feira, janeiro 24, 2012

segunda-feira, janeiro 23, 2012

A figueira


De pernas e braços
trançados
a figueira se debruça
sobre os telhados.


ou


De pernas e braços
trançados
a figueira estrangula
os coitados.


ou


De pernas e braços
trançados
a figueira namora
um desavisado.


ou


......aceito sugestões!

domingo, janeiro 15, 2012

O guardião


Porto Alegre é uma cidade cheia de possibilidades e surpresas. Andando pelo parque da Redenção encontramos coisas que fazem valer a pena enfrentar a travessia das ruas,que nessa região são sempre congestionadas. Quando entramos no parque logo somos atraídos por muitas imagens; diferentes das imagens urbanas a que a cidade nos impõem. 

Numa praça composta por cercas vivas cuidadosamente planejadas está uma fonte. Sobre a fonte um menino que parece tocar um instrumento musical ou uma concha acústica, não consegui ter certeza do que é. Mas tive certeza de que o parque é bem guardado, pelo menos essa parte do parque, é. 

Eu fotografava de todos os ângulos quando percebi um homem montado numa moto, parado, me observando. Senti um certo constrangimento por estar ali, tão cedo da manhã, fotografando algo tão óbvio e, possivelmente pouco observado. Gosto de fotografar à luz da manhã e por isso saí cedo de casa.

Retornando ao homem. Guardei a câmera e ia me afastando quando ele informou que era o guarda do parque e que queria me avisar que naquele local é muito comum as pessoas serem assaltadas e perderem as câmeras. Respondi a ele que estranhei não encontrar pessoas dormindo nos bancos, naquele horário; nenhuma pessoa. Ele disse que os acorda assim que amanhece o dia. E completou: quando eu quiser fotografar é para procurá-lo "ali naquela casinha, que é onde moro" que ele me acompanhará. Eu olhei para a casinha no meio do mato e pensei que parecia a casinha onde João e Maria se esconderam e foram recebidos pela bruxa. E pensei que ele poderia bem ser o Lobo Mau.

Então, agradeci e sai rapidamente em direção ao centro do parque, onde fotografei uma instalação composta por várias "Noivas de Branco" compostas por pias brancas. Porto Alegre tem isso também. O projeto se chama Artemosfera e há várias intervenções de arte espalhadas pela cidade. 


Caminhei prazerosamente pelo parque e cruzei por várias pesoas também caminhando, algumas já tomando chimarrão e conversando. Ao quase sair do parque encontrei uma figueira com uma espécie de cesto acoplado a ela, bem redondinho, trançadinho, parece feito por humanos; como essas árvores cujos ramos são conduzidos por alguém e acabam desenvolvendo formas específicas. Um amigo entendido de plantas me explicou que dentro do "cesto" havia uma pequena árvore que foi estrangulada pela figueira. Quando a árvore morreu ficou a forma da sua estranguladora. Não achei mais tão engraçadinha a árvore com o cesto debaixo do braço. 


Enfim, estar em Porto Alegre é todos os dias descobrir algo novo, é todos os dias estar na mesma cidade, mas com pequenas surpresas cotidianas. 

sábado, janeiro 14, 2012

Tatuagem



Sempre resisti a tatuar imagens em meu corpo. Resisti, não, resistir dá a ideia de uma força contrária à outra; a resistência. Sempre tive convicção do que não queria, nunca pensei em algo que fosse para sempre, irremediavelmente colado à minha pele.

Mas....essa semana minha colega indígena, a Josiléia Daniza tatuou em minha perna um desenho que representa uma das "marcas" que fazem parte da mitologia indígena Kaingang, kamé e kairú. Kamé é sol, Kairué é lua.O sol é força, vigor, energia, impetuosidade,marca comprida. Kairú é redondo, introspectivo, reflexivo, criativo.Sou eu.


A tatuagem com tinta nanquim sairá em alguns dias, não preciso me preocupar com o "para sempre", mas confesso que gostei de ver o desenho cuidadosamente feito por minha amiga. Achei belo. Isso serviu para eu rever meus conceitos a respeito das marcas no corpo. Estou pensando no corpo como um enorme pedaço de pele onde estou escrevendo a minha história. Manchas de queimados, arranhões, pequenas varizes, fios, cabelos, bronzeado ou não, gorduras acumuladas, linhas de expressão, rugas mesmo. E os sentimentos, que também escrevem na pele. Dores, alegrias, tristezas, felicidades.

Todo o meu corpo está tatuado.

terça-feira, janeiro 10, 2012

Flores descabeladas



Voltando pra casa passei no supermercado, vaguei pelos corredores, parei por alguns minutos diante das flores, inúmeras, lindas como quando saímos de um salão de cabeleireiro, cabelo recém cortado, escova feita. No dia seguinte já não estamos tão lindas, nosso cabelo já não balança como antes e começa a arrepiar. As flores de floricultura são assim, belas, o colorido é mais colorido, ela sempre é mais florida do que a que cuidamos em casa com todo amor e carinho.


O que será que colocam nas flores? Algo bem sintético, bem artificial, provavelmente, como o cabeleireiro faz com nossos cabelos.Ficamos, no dia seguinte, todas flores descabeladas.

No escurinho do cinema

Postei as flores do jardim da Dona Terezinha e fui ao cinema. Essa frase soa quase como "Matou o marido e foi ao cinema". Coisas de filmes. 
Quando estou em Porto Alegre gosto de ir ao cinema sozinha, é um momento só meu. A sala geladinha, a poltrona confortável, tudo bem escurinho. Levo uma manta dobradinha, água ou um chocolate, conforme a vontade. Coloco o celular no silencioso, me cubro e fico aguardando. Hoje dei uma bela cochilada antes de iniciar o filme.

Por uma hora e pouco fico lá dentro, o mundo esquecido. Ontem assisti O amor não tem fim, com a Isabella Rosselini e o Whiliam Hurt. O filme é sobre o amor que continua apesar das mudanças da idade. As dificuldades, alegrias, tristezas, frustrações e o reencontro consigo, uma outra pessoa, o corpo modificado embora o espírito seja o mesmo. "Nos sentimos uns dez a doze anos menos do que realmente temos", diz um dos filhos do casal tentando encontrar uma forma de ajudar na reconciliação dos pais. Pensei com meus botões, então me sinto como se tivesse 42, 40 anos, no máximo. Pode ser.Olhando no espelho me sinto com 45. Mas como me vejo não é como o mundo me vê. 


Hoje assisti Inquietos. Eu esperava mais. Inquietos quer dizer tanta coisa; pode revelar um inconformismo eterno, uma rebeldia inata, uma irreverência incontestável. Inquietos pode significar esperar sempre o inesperado. E inquietos,no plural, pode significar parceria, cumplicidade. Estar inquieto junto deve ser melhor do que estar inquieto só. 


O filme é delicado, trata de questões como o amor e a morte de forma extremamente delicada. Poderia ser um filme piegas, tipo déjà vu, tipo Doce Novembro, um daqueles filmes que choramos até encharcar a camiseta. Mas não, saímos do cinema descansados, tranquilos, com um sorriso, tal e qual a última cena que vemos, a do mocinho no velório da amada; com um belo sorriso no rosto.


Gostei, mas nenhum deles me faria voltar ao cinema para assistir de novo. Já não posso dizer o mesmo de A Chave de Sarah, extremamente denso, pesado, que nos deixa "ligados" do inicio ao fim. Mais um filme sobre o holocausto, dessa vez na França. Gostei porque sou quase ignorante em história do mundo. Gostei porque gosto da Kristin Scott Thomas. Gostei porque gosto de possibilidades e gosto de descobrir as possibilidades que eu não havia sonhado.                            






A natureza da Dona Terezinha








domingo, janeiro 08, 2012

Sorte

Percebo que tenho tido sorte, ao longo da minha vida, de encontrar belas pessoas.

sábado, janeiro 07, 2012

Dona Terezinha: uma bela pessoa

A Dona Terezinha merece palavras escritas só para exaltá-la porque é quase um ser único e extinção na face da terra.


 A Dona Terezinha tem 71 anos e muita disposição. Ela administra, junto com o marido e a filha, um hotelzinho simpático em Marcelino Ramos. A última que deita e a primeira que levanta. No café da manhã lá está ela conversando com os hóspedes sobre qualquer assunto, de receita de bolo à situação da educação no Rio Grande do Sul. De vez em quando baixa o tom de voz e quase cochicha histórias da prefeitura da cidade. Dona Teresinha é dessas pessoas que acredita no não desperdício de alimentos, para isso ela sabe aproveitar cada sobrinha. Compotas, geleias e conservas, de sua produção com o rótulo "Conservas da Terezinha", são vendidos no hotel. No café da manhã temos bolos, cucas e pasteizinhos, tudo feito por ela.


 Fizemos uma incursão pelo jardim, eu e ela, para fotografar suas plantas. E ela foi me explicando o que era cada uma e para que servia cada chá. Uma delas, em especial, chama-se "saco de boi" e é uma flor de orquídea. Fiz a foto do saco fechado, recém inchando. No dia em vim embora ele ainda estava fechado, provavelmente de dentro é que sai a flor. Ela me mostrou hortensias, bromélias, flor de alho, rosas, brincos de princesa e uma folhagem que a folha parece flor de tão bela. 


Dona Teresinha crê no trabalho e no trabalho bem feito. Contou que morou vinte anos com a sogra e que aprendeu muito com ela. Que aprendeu a ler e escrever em uma das casas em que trabalhou e por isso foi professora. Nenhum aluno seu deixou de aprender a ler e escrever ela conta, orgulhosa. Ela se encarrega da lavagem da roupa porque ela sabe como deixar a roupa mais limpa, mais cheirosa, aprendeu a bater a roupa e deixá-la no amaciante até a tarde. No último dia de meu passeio a Marcelino Ramos acordei com os olhos vermelhos pela conjuntivite que, provavelmente adquiri na piscina de água quente no dia anterior, que estava um caldo, cheinha de gente. Dona Terezinha preparou um chazinho de camomila e colocou num pote para que eu colocasse no olho, durante a viagem de volta. Além do trabalho no  hotel ela ainda cuida do seu jardim e do jardim da vizinha, onde todos os dias vai molhar as plantas com um regador. 


No pequeno hotel onde o assoalho e as escadas são de madeira nos sentimos em casa. Creio que é isso que falta em todos os hoteis porque passamos, nos sentir não um hóspede a mais, mas uma pessoa querida. Dona Terezinha é uma pessoa muito especial, rara, que tem muito a ensinar. Ela vive num tempo que se modificou, em que  os valores não são mais os mesmos de seu tempo de menina. Ela sabe disso, mas insiste em lembrá-los e preservá-los. Nem todos a compreendem mas, certamente, ela é essencial para a alma e a beleza do hotel que, paradoxalmente, leva o nome de seu marido: Pállis. 


Às vezes encontramos belas pessoas nos momentos e lugares mais inesperados; Dona Terezinha é uma bela pessoa e foi muito bom saber que ela existe. 



quarta-feira, janeiro 04, 2012

Sonhos lúcidos

Era no mar e eu estava dentro d'água.
A água era quente, azul, transparente.
Eu me apoiava na casa, que era a minha casa.
O bebê de uns dois anos, um guri, o Lucas, estava por ali e também brincava na água.
Vi, de cima da água, um aviãozinho de corda, azul, vermelho e branco. 
Mais além, um tip-top azul e branco. 
Ambos estavam imersos na água, mas totalmente visíveis pela limpidez da água.

Reconheci os objetos e o menino.

Então, comecei a subir e o espaço de visão da água começou a se ampliar, eu estava sobre, acima das águas. Em seguida deslizei para a esquerda e vi as ovelhas e suas sombras. Ainda era na água.

Acordei. 
E as águas azuis e transparentes, lá.

Um belo e mágico lugar

Esse ano comemorou-se 100 anos de existência da estrada de ferro que corta Marcelino Ramos. Vi placas e folders comemorativos, mas também vi a Estação Férrea em petição de miséria. Portas e vidros quebrados, parquê arrancado do chão, fezes espalhadas pelas salas mais escondidas. O local está abandonado, embora haja lixeiras novas do lado de fora. Ao longo dos trilhos de trem e da estação, o rio desliza tranquilo, alheio a tudo. Os trilhos do trem sobre a ponte, reformados, alguns, outros com pregos espetando pra fora, ameaçando furar os pneus dos carros que ousam passar por eles. Os dormentes largos, grossos, alguns rachados, alguns faltando pedaços. A ponte,sobrevive, intacta, compacta, como que dizendo; estou aqui. O trem que apita de vez em quando carrega apenas grupos de turistas assombrados, sonhadores, imaginado quem passou por ali em tempos de outrora.
Um belo e mágico lugar.

A ponte


  • A Igualdade é Branca
  • A Fraternidade é Vermelha
  • A Liberdade é Azul
  • Blade Runner