sábado, julho 21, 2012

Ainda diferenças

Comentei o ocorrido com uma  colega que me relatou a história do marido que, em viagem à Brasília, hospedou-se em um hotel, deixou sua documentação na mala lacrada, no armário fechado e foi para suas reuniões. Meses depois alguém ligou para perguntar onde ele queria que fosse entregue a moto importada que havia comprado. Para encurtar: alguém havia retirado meticulosamente seus documentos da mala lacrada, clonado, sem que ele percebesse. Essa pessoa alugou casa, mandou ligar água, luz, aí tinha comprovante de endereço. Abriu conta em banco, comprou carro, casa e, pasmemos nós: entrou no rhe do estado, do qual o marido da minha amiga é funcionário, e fez empréstimo para descontar em conta. 
Isso ratifica o que eu já havia pensado ao sair do banco; qualquer estelionatário esperto consegue abrir conta em banco, comprovar endereço e retirar talão de cheque, quiçá um mísero cartão magnético. 
Uma jovem indígena que não faz parte do sistema capitalista não consegue, tem que ir e vir várias vezes, pedir, solicitar, quase implorar.


Karina e Karine

 Banrisul, 11h 45. Karina foi ao banco porque não consegue receber um cartão magnético para retirar seu salário mensalmente. Como ela disse, poderia retirar aos poucos, também no final de semana, nem sempre no banco. Assim não, precisa retirar todo o salário no início do mês e   guardar em casa. Também poderia comprar com o cartão e parcelar.  Hoje, dia 20, ela recebe o vale-refeição, algo em torno de 120 reais. Nós, funcionários do estado do Rio Grande do Sul, chamamos de vale-boia. Outro motivo é que Karina mora longe, na área rural da cidade de Estrela. Seu endereço é BR 386, Km 34. Sua casa não tem numeração, sua aldeia não tem ruas. Ela é indígena Kaingang, filha de mãe índia e pai branco desconhecido. Ela também tem uma filhinha de três anos, sem pai. Karina tem 20 anos, morena, olhos verdes, cabelos pretos compridos e estudou até a oitava série. Sua mãe morreu atropelada na BR há uns sete anos. Uns dizem que estava embriagada e adentrou no asfalto na frente de um caminhão. Outros dizem que foi empurrada para dentro da rodovia por seus desafetos. Uma tragédia imensa na vida da pequena Karina, que poderia terminar por aí se as coisas fossem mais fáceis para ela.

Hoje eu a acompanho ao banco e explico ao rapaz que nos atende que ela é indígena Kaingang, que não tem conta de luz para comprovar endereço, que trabalha para o Estado, recebe seu salário todos os meses pelo banco e precisa do cartão. Ele me olha e ouve com atenção e sugere que eu dê o meu endereço como se fosse o dela, já que ele precisa mesmo é de um endereço,não importa se ela mora nesse lugar ou não. Peço para conversar com o gerente. Ele olha em volta e diz que ele deu uma saidinha. Pondero rapidamente com meus botões que não posso dar meu endereço, que não é correto e que isso poderia numa série de visitas à minha casa de madrugada e no final de semana, e isso eu não gostaria. Também olho ao redor e vejo uma moça olhando compenetradamente algo no computador. Ela é a Karine, sub-gerente do banco.

Karine é jovem, loira, olhos azuis. Filha de pai e mãe conhecidos, estudou em escolas particulares e é graduada e pós-graduada em administração. Ela é casada com um marido conhecido. Não tem filhos. Karina tem residência em Estrela e comprova esse endereço. Ela tem conta da água, luz, telefone, internet, telefone celular, tv a cabo. Karine tem carro e carteira de motorista. Peço ao rapaz para conversar com a Karine. Peço à Karina que aguarde onde está porque quero conversar com a Karine em particular.

Sento a sua frente, a conheço de outras transações bancárias e também através de uma amiga em comum. Explico a ela calmamente e em voz baixa a situação da Karina. Que é indígena, não tem conta de luz porque eles não tem conta de luz, quem paga a conta é a FUNAI. Que ela só quer um cartão magnético, que isso facilitaria sua vida, que é funcionária do Estado, merendeira na escola, se precisar daremos um atestado dizendo que ela realmente mora lá, mas que meu endereço particular não posso dar. Karine sente a minha angústia, percebo que seu olhar é sensibilizado. Ela pensa, pondera, liga para o rapaz que está do outro lado do corredor com a Karina à sua frente. Ele responde o que Karine pergunta. Ela volta a olhar a tela do computador, procura no sistema outras formas de comprovação de endereço e me mostra. Está lá a lista: conta de água, conta de luz, conta de tv a cabo, contracheque. Se tivesse endereço da pessoa no contracheque poderia ser, mas nós no Estado recebemos nosso comprovante do que receberemos no mês em nosso local de trabalho, sem endereço pessoal. Isso era antes. Agora nem recebemos mais, podemos olhar no sistema RHE do Estado. Se quisermos ou precisarmos, podemos imprimir. Tudo online, tudo para facilitar a vida do usuário e preservar o planeta do excesso de gasto de papel.

Olhei junto com ela no sistema e nada. Nada que a Karina tivesse para comprovar que realmente mora numa daquelas casinhas de madeira, sem água encanada, sem banheiro, com frestas que podemos enxergar o chão debaixo da casa. Então, Karine perguntou se lá ninguém tem tv a cabo. Sim, lembrou Karina, uma tia tem. Uma luz. Ela trará, na semana que vem, uma conta em nome da tia, a identidade dessa tia, um formulário preenchido com seus dados e assinados por ela. Assim, Karina poderá retirar o cartão, que por sinal, já estava no banco.

Agradeci à Karine que me deu um abraço e lembrou que era o "dia do amigo". A Karina me agradeceu as tentativas de ajudá-la. Saí do banco pensando no quanto duas vidas de pessoas com um nome quase igual podem ser tão diferentes. Existências diferentes, caminhadas diferentes, mundos diferentes. As duas são jovens mulheres. Poderíamos dizer que param por aí as coincidências. Até na grafia do nome está explícita a diferença: Karina e Karine.


sábado, julho 07, 2012

Letícia e Marina

Como posso confundir a Letícia com a Marina? A Letícia tem, no facebook, o nick "Lê Zanon". Marina, é Invernizzi. Letícia tem cabelo curtinho, já teve longo, e usa óculos. Letícia dirige o carro da Univates e tem projetos de trabalhar com a história guarani. Ela gosta de fotografia e do Marcelo. Letícia escreveu e.mail e perguntou se podia levar um amigo que também trabalha com indígenas. Claro, Lê! Foi o que respondi. Letícia tem um sorriso aberto e fica  coradinha, às vezes. Marina é Marina. Mais quieta, mas dona de um bom humor aguçado. Foi ela que replicou quando o Carlos Eduardo disse que vai para casa uma vez por mês: " Pedir dinheiro pros pais!". Marina comprou o vinho, ajudou a servir o café e pediu para experimentar o vinho branco que eu já estava tomando. Elogiou a sobremesa. Marina estava branquinha,com sono. Quem não comia carne e agora come, é a Letícia. Marina usa aparelho nos dentes, Letícia, não. Marina é a "bebê" do grupo de arqueologia da Univates. Letícia mora em Encantado, Marina, em Muçum.

Como posso confundir as duas? Chamar Letícia de Marina e Marina de Letícia? Não posso. Não mais, porque elas são inconfundíveis! Letícia é Lê. E Marina, é Marina.

  • A Igualdade é Branca
  • A Fraternidade é Vermelha
  • A Liberdade é Azul
  • Blade Runner