domingo, setembro 30, 2012

As pedras

Tenho uma relação de amor com as pedras, desde que era criança. Em Bom Jesus, minha mãe fazia uma trouxa com a roupa suja e ia lavar no rio .A água transparente deixava ver as pedras e pedrinhas no fundo e isso me fascinava. Eu sempre encontrava um lugarzinho onde me encaixava entre as pedras, dentro d'água. O barulho do rio quedando nas pedras, os diferentes caminhos percorridos pela água, penetrando nas fendas, nos buracos, nas entradas do barranco. O rio era raso ou eu não entraria na água, certamente. Minha memória de menina ainda me deixa "ver" o rio onde eu brincava enquanto minha mãe lavava a roupa. Não lembro se era frio e deveria ser, porque em Bom Jesus as temperaturas sempre são baixas. Mas não lembro disso, lembro das pedrinhas no fundo do rio, das diferentes colorações, dos seus formatos. Sempre pensava que elas pareciam abandonadas lá no fundo do rio, solitárias. Às vezes os raios de sol se infiltravam pela vegetação que margeava as águas e deixava ver detalhes das pedras. Hoje penso que cada uma delas ocupava um espaço que era exatamente o seu, em comunhão com todas as outras, sendo solidárias e cúmplices ao mesmo tempo. Elas são mais do que apenas seres inanimados, como aprendi na escola, sem importância nenhuma, sem nenhuma finalidade. Ao contrário, as pedrinhas são seres especiais, imemoriais, eternas. Elas carregam em si toda a história do planeta. Talvez por amar as pedras desde sempre eu gosto de juntá-las, de colocá-las no bolso quando vou caminhar e de encontrar em cada lugar que vou, uma pedrinha especial. Na Ilha Redonda, dias atrás, às margens do rio Uruguai, eu me deparei novamente com as pedrinhas de rio. Todos os dias eu ia para a beira do rio "namorar" as pedras. Olhar seus diferentes formatos, suas colorações, a maneira como se apoiam umas nas outras, sem pedir demais, sem dar o que não podem. E pensei em como são generosas, mais do que muitos seres humanos. E há ainda a beleza estética de cada uma. Diferentes entre si, são únicas. Gosto de pegar cada uma na mão, olhar para elas, pensar em como foram formadas, porque estão comigo agora.

quarta-feira, setembro 26, 2012

Felicidade

Viajar  com meu filho é um exercício de revisão de vida. Ele puxa lá de baixo, do fundo do bau, acontecimentos, perdas, faltas, coisas que deveriam acontecer e não aconteceram, que deveriam ter sido e não foram. Em meio a isso vai falando do tanto que tem de trabalho, do tanto que anda ocupado, de como dormiu pouco e comeu mal. E questiona, por que isso, por que aquilo. Por que não faço isso ou aquilo, que deveria ter mudado de profissão, que eu poderia ter sido qualquer coisa que quisesse, que poderia ter ganho muito dinheiro, ufa! Fala e critica ao mesmo tempo. E eu, sem conseguir processar tudo o que ele diz, todas as ideias que tem, todas as queixas e colocações, fico meio embasbacada, respondendo com monossílabos tipo "sim, mano" ou "é verdade", "tem razão". Um dia desses, quando fomos para Porto Alegre para comprar um gps (localização; uma grande dificuldade minha e dele)e assistir uma peça de teatro, ele foi me bombardeando. De repente disse que eu estava muito quieta, que não falava (e ele deixa?) e lascou a pergunta: "mãe, tu é feliz assim com a tua vida?" Eu creio que respondi que sim, sou feliz. Mas não disse porque sou feliz. E depois do resto daquele dia e daquela noite, que aconteceram muitas outras coisas, entre elas que ele não conseguiu comprar o gps e nos perdemos em Porto Alegre e não conseguimos assistir o teatro porque não reservamos ingresso e não tinha mais, eu parei pra pensar na sua pergunta: sou feliz? e, mais, o que é felicidade?
Pensei sobre isso e descobri (eu sempre soube) que a felicidade para mim não é um pacote fechado que vem prontinho, colocado na nossa porta por um remetente desconhecido e do qual tiramos uma coisa somente. Quando meus filhos eram pequenos e estavam todos em casa, era felicidade para mim quando eu deitava na cama e sabia, tinha certeza, que todos estavam em suas caminhas,com seus pijaminhos limpinhos e cheirosos. Que no outro dia de manhã eles acordariam e estariam todos ali. Quando, no sábado, depois de uma semana de trabalho fora de casa e essa casa fosse ficando bem bagunçada, eu levantasse cedo, arrumasse, varresse, lavasse, limpasse, deixasse tudo limpinho e organizado, flores no vaso, janelas abertas, sol entrando. Aí, eu fazia um chimarrão, pegava um livro ou uma revista, colocava música clássica a rodar no som e sentava na área, pensando na vida, em como tudo estava bom assim, cada coisa no seu lugar. Felicidade para mim era quando tinha uma apresentação na escola, no dia das mães e até mesmo no dias pais, porque era eu quem ia. Quando recebia bilhetinhos de amor deles. Quando aprendiam uma palavra nova, quando olhava nos olhos deles cheios de esperança e expectativas para o futuro. Quando me abraçavam forte e diziam eu te amo. Isso era felicidade para mim e eu era feliz. Hoje, depois de todos adultos e fora de casa, sou feliz quando os encontro, os abraço, beijo. Quando dizem que me amam. Quando admiram meu trabalho,minhas fotos. Sou feliz quando conversamos, trocamos ideias, falamos do passado, contamos e rimos sempre das mesmas histórias.
Felicidade, para mim, é ter meus filhos, saber que eles existem, que são seres humanos. É isso.

quarta-feira, setembro 05, 2012

Dia 1
O dia anterior ao dia da prisão. Eu ainda não sabia. Nem ela.

Quinta-feira, 9 horas, o Ronaldo Machado, do DNIT,  me pega na Coordenadoria às 9 horas para irmos à aldeia olhar a escola provisória, ver se está tudo de acordo para receber as crianças. é Vamos eu e minha colega Verani. Olhamos a escola, fotografamos, está tudo certo. Aproveito a ida até a aldeia para conversar com a cacique Maria Antonia sobre a contratação do professor Ramilton Kafej Manoel Antonio, indígena Kaingang que será contratado pelo Estado para trabalhar na escola indígena.
Maria Antonia estava fechada dentro de casa. Chamamos e ela abriu a porta com o rosto inchado. Tossia muito, não conseguia respirar, mas sorria. Expliquei a ela que o professor estava vindo e que no dia seguinte o levaria até a aldeia para apresentá-lo a ela. Ela concordou em recebê-lo, falou do meu colarzinho que comprei em Ribeirão Preto, uma lagartixa feita com sementes, e pediu que eu levasse algumas roupas pra ela. Nos despedimos porque ela tossia muito e ia usar a bombinha de ar.
Retornei para a CRE, já pensando na vinda do professor, em como iria arrumar um lugar para ele dormir.
Fiquei em casa à tarde. Liguei para a escola de magistério aqui em Estrela, um semi internato para alunos que fazem estudam na escola. A diretora ficou de retornar, não retornou.  O professor chegaria as 17h40. Fui esperá-lo na rodoviária. O expresso Planalto trouxe o professor Ramilton de Cacique Doble, ao norte do Estado. Fui até o ônibus, o único homem grande,moreno, parecido com um índio, era ele mesmo.
Enquanto o aguardava lembrei que conhecia o Major Maia, do corpo de bombeiros de Estrela. Eu
sabia que ele não está mais em Estrela, mas como ainda tenho o número do celular dele, liguei.


Continua.....

  • A Igualdade é Branca
  • A Fraternidade é Vermelha
  • A Liberdade é Azul
  • Blade Runner