sábado, fevereiro 23, 2013

Na fila do Caixa

Ela saiu para caminhar e na volta passou no supermercado. Despretensiosamente, garimpou dois pacotes de coxas e sobrecoxas entre coxinhas da asa e peitos.Comprou, ainda, quatro laranjas, dois pãezinhos integrais, três sovados e uma garrafinha de água mineral sem gás, Versant, a sua marca preferida.Passou direto pelos bolos e foi para a fila do caixa.Observou os vários caixas e optou por entrar na fila em que havia três pessoas. Colocou a cestinha no chão e foi empurrando com o pé, tal qual o homem que estava à sua frente. Pensando na lei de Murphy ela ficou imaginando se sua fila demoraria mais do que as outras para andar. Esfregando o ombro esquerdo com a mão espalmada,fez uma careta de dor. Foi neste momento que o homem que estava na fila comentou que estava quente ali. Ela comentou que sim, realmente estava quente. Ele disse que achava que não havia ar condicionado no supermercado, ela disse que sim, que deveria haver. Olharam para os lados, para o teto e ele comentou que próximo às câmeras frias era mais fresquinho, por isso a certeza que não havia ventilação nos outros espaços. Ela comentou sobre a insegurança desses lugares públicos, considerando a tragédia de Santa Maria. Comentaram sobre o material usado nas placas do teto. Ele confessou que estará de aniversário na semana que vem, que não bebe, mas os amigos prometeram visitá-lo, por isso o fardinho de cerveja. O preço, noventa centavos a unidade. Hmmm, barato, ela disse. Observou a marca, Skin. Ele disse que gostaria de ter pego um pote de sorvete, falou que o Kibon estava em promoçao, mas o tempo que teria ficado no caixa derreteria,mudaria a consistência. Ela disse que também pensou no sorvete, mas também desistira.Silêncio. Ele, talvez pensando no que ainda poderiam falar. Ela observando as compras dele. Um fardinho com doze latinhas de cerveja e três pacotes de sabão de glicerina, em barra. Ela pensou no motivo para se comprar tantos pacotes de sabão de uma só vez.Ao dar um passo a frente e pegar a cestinha com as compras no chão, o braço dele roçou muito brevemente no dela. Um contato morno, gostoso. Enquanto ele pagava a conta de dezenove reais com um cartão azul do Banrisul, ela observou que ele tinha olhos verdes claros e um sorriso bonito. Cabelos muito curtos, alguns fios brancos, uns quarenta e oito anos, talvez cinqüenta. Ele disse para a caixa que queria trinta dias no cartão. Pediu para colocar as compras em duas sacolinhas reforçadas porque estava de bicicleta. Pegou as sacolas, deu tchau. Olhos que sorriem, ela pensou. Quando chegou a sua vez, também pagou com o cartão azul do Banrisul e pensou que eles têm algo em comum, afinal de contas, ambos tem o mesmo empregador.Ela saiu, passou pelo estacionamento de bicicletas e foi embora. Naquele instante, estava apaixonada. Sentia o prazer de saber que jamais o encontraria novamente, condição imprescindível para a permanência do encanto.

sexta-feira, fevereiro 15, 2013

Tudo bem com você?

Um conhecido pergunta se está tudo bem e eu sou, mais uma vez, levada a pensar em como estou e o que vou responder a ele. Eu aprendi que essa pergunta fatídica que fazemos aos outros e que nos fazem mecanicamente é um pequeno gesto de civilidade, que na verdade não significa que quem pergunta.E nós, quando perguntamos como o outro está, dificilmente queremos saber a verdade. Se dissermos que estamos maravilhosamente bem, muito felizes, poderemos causar um certo desconforto, até uma decepção. Existem aqueles raros amigos que te olham nos olhos, te abraçam e perguntam como estamos.Esses querem mesmo saber, mas são tão raros que pouco os encontramos. Eu pensei em dizer ao meu conhecido que estou sobrevivendo a uma grande tempestade e a tudo o que deriva dela; enxurradas, postes caídos, queda de energia, árvores derrubadas, casa destelhada. Poderia dizer que algumas coisas serão recuperadas, reconstruídas, outras nunca mais, só fazendo uma casa nova. Também poderia explicar ao meu perplexo e assustado possível amigo, que esse casa é a que abriga a minha alma, mas a essa altura provavelmente ele estaria arrependido de perguntar como estou. Então, eu direi que estou bem, que está tudo bem, é menos desgaste para ambos. Sobre isso, lembrei de um filme antigo que assisti há tempos; Estamos todos bem, com o Robert de Niro e quejandos. De qualquer forma, dizem por aí que depois da tempestade vem a bonança. Quem sabe.

terça-feira, fevereiro 12, 2013

Receitas

Seria tão simples se tivéssemos receitas para tudo em nossa vida.

sexta-feira, fevereiro 08, 2013

Um amigo para conversar, pessoas desconhecidas no celular

É impactante, no mínimo, quando passamos a lista de contatos de nosso celular a procura de um amigo e não encontramos nenhum. Não quer dizer que não existam pessoas significativas, ou não estariam na lista do telefone celular. Hoje eu queria um amigo ou uma amiga para conversar, contar do que me agonia, das minhas dores, dificuldades, necessidades, dúvidas. Queria alguém que me dissesse uma palavra de conforto; sim, não; que estou certa, que estou errada ou que dissesse simplesmente que me compreende, embora não tenha respostas para os meus questionamentos. Não encontrei ninguém. Iniciando pela LETRA A. Adela, minha colega de aula na UFRGS. Uma vez nos desentendemos porque eu disse a ela que o que ela queria mostrar (não lembro exatamente o quê) era uma alegoria. Ela ficou ofendidíssima,mas depois, quando eu a ajudei a lidar com o computador, ela me perdoou e até disse que eu era legal. Água- telefone para pedir água. Alaés- meu dentista.Aline, professora de artes e graduanda de história, amiga da Lisi. Ponto. Ana Mana, minha irmã com quem fiquei anos sem conversar. Voltamos a falar uma com a outra,mas não temos afinidade nenhuma,é o dia e a noite,que pra piorar, não se encontram. Andre B., médico, clínico geral,preso há pouco tempo por suspeita de tráfico de drogas.Solto em seguida, desfila seu sorriso de aparelho ortodôntico.Não confio mais nele nem como médico, o que direi para amigo. Andrea,professora de inglês, colega de escola. Bacana, querida, parceira.Faz tempo que não a vejo. Andressa, manicure que, aliás, devo procurar no final de fevereiro.André, todos os anos envia mensagens no meu aniversário, no dia do amigo e no Natal.Acho que ele sabe como fazer isso pela internet e para grupos, porque parece fácil pra ele. Andrielli....não sei quem é. Anelise, professora de música e Yoga, minha amiga,mas.....Angela, vizinha da mãe e uma filha pra ela. Angela Curso, minha colega de aula na Ufrgs, parceira, amiga, confidente. Mas mora em Guaíba e não nos falamos mais depois que terminaram as aulas. Angelita,minha colega de trabalho.Ariel, filho do Ant
onio. Asta, minha colega de trabalho.Solidária, mas ficou lá atrás,em Teutônia. Astha,conhecida.

LETRA B: Bea, amiga querida que casou há pouco e foi morar em Rio Grande.Eu poderia conversar com ela,creio que entenderia e saberia o que me dizer. Beatriz P. minha colega de trabalho,agora chefe do RH. Bebel, minha colega de trabalho, superficial. Não me compreenderia. Belkis, conhecida,meio doida.

LETRA C., não sei quem é. CRE, meu local de trabalho.Cá,minha amiga querida, ex nora,está em Porto Alegre. Cabelo Cris, cabeleireira que devo procurar no final de fevereiro.Carlos B. pai da Fernanda, minha nora. Carmen B., tia da Fernanda. Casa, telefone de casa,Cássia, minha colega de trabalho. Catia P. (Pereira?) colega da escola onde trabalhei,superficial. Cdilor, ex cacique da aldeia Foxá,morador da aldeia da Linha Glória. Ele certamente teria uma opinião muito particular porque é indígena, tem outra maneira de ver o mundo. Chaiani,minha massagista maravilhosa. Charles mudança, empresa de transportes; fez minha mudança. Charline....hmmmm....quem é? Cia do Peixe, restaurante que já fechou. Cida,minha ex colega de aula na UFRGS. Cilene, ,minha ex colega de trabalho. Ela não compreenderia meus problemas,nasceu na burguesia, vive na burguesia. Clau, meu amigo sempre querido, embora distante, muito distante, mas sempre presente, pelo menos aqui no blog (meu único leitor).´Longe dos olhos mas perto do coração. Clarice Dal Prá, colega de trabalho, aposentada. Peguei o número dela numa ocasião em que fiquei doente, logo que vim morar em Estrela, para o caso de precisar ligar para alguém. Muito "reparadeira", como diria minha vó, a cada dia que eu chegava no trabalho ela tinha um comentário sobre minha roupa ou sobre meu cabelo, ou sapatos, enfim. Nem sempre eu tive paciência. Claudia; conheço várias, não sei qual é essa. Claudia Imperat; o que significa isso? Ah, lembrei, a secretária do Lucas para assuntos domésticos. Claudia Peter, ex colega do curso de pós na Univates.Claudia Jornalista, obviamente jornalista da UFRGS;mandei umas fotos dos colegas que sairam numa revista. Claudinha; será minha colega de trabalho? Não, ex colega de trabalho Claudinha CRE é minha colega de trabalho agora. Claudio Z, amigo fotógrafo, parceiro do clube de fotografia. Cledi, amiga do Seu Lauro,massagista e médium, que me deu carona algumas vezes até a casa do Seu Lauro, quando eu não dirigia. Costureira Gelci, costureira, mas não sei quem é.

LETRA D: Damiana, namorado do meu sobrinho e colega da Lisi. Daniel Mudanças, empresa de transsportes. Decio psico; psicólogo sugerido pela minha amiga Mari, para procurar se eu me decidir. Não vou, ele é marido de uma outra conhecida minha. Denise, ex colega de trabalho na CRE, Denise Natal, amiga que conheci pelo facebook e depois pessoalmente, em Natal. Amiga de outro amigo, o João Maria, fotógrafo. Denise PoA, amiga que conheci em São Chico, faz tempo que não conversamos. Dep. Nani, depiladora. Dep Nessa, outra depiladora. Deti, faxineira. Dieter, amigo sensível, artista, em uma outra fase da vida. Dra. Eliane, médica geriatra, consulto com ela há tempos. Médica direta, certeira, sem rodeios. Gosto dela. Seguem na letra D uma série de nomes e números significativos apenas para coisas específicas, ou seja, números técnicos, médicos em sua maioria. Além do Dudu, que é muito especial para mim; é meu filho do coração.

LETRA F: Foto Silva, em Teutônia. Fran, conhecida.
LETRA H: Henrique cabeleireiro, na segunda e última vez que marquei hora ele me deixou mais de meia hora esperando e não apareceu. Mandou a secretária me atender. Agradeci, virei as costas e never more. Hugo CRE; colega de trabalho e motorista da casa.
LETRA I: Ieda Comadre, madrinha do Lucas, mora em Porto Alegre.
LETRA J: Jaime Cepi; tem uma função pública relativa às questões indígenas, naõ sei exatamente o quê.
LETRA L: Lu casa, minha filha, difícil conversar com ela assuntos que dizem respeito a ela mesma. Lucas meu amor, Lisi meu amor, Lu meu amor. Meus três filhos. Nem digo a eles quando tenho dor de cabeça para que não se alarmem, porque sempre se assustam quando digo que tenho algo. Compreendo, o inverso também é verdadeiro.
LETRA M: Vários Ms...iniciando por Mãe, Mãe Celular (ela nunca atende), Major Maia, Manu, Manuel Bandeira (escola), Maraaio ( o que será?), MaraMoacir, Maranubi (amo), Marcio auto-escola, Mari, Maria A Soar , ex cacique da Linha Glória, presa por tráfico de drogas, guerreira indígena Kaingang. Continua presa, foi condenada a 38 anos de prisão!!!! Marilu, Marina, Marisa, Marlei, Marlene, Marli, Marlice, Massagem, Mauro móveis, Meli, Milena, Miriam antropóloga, Morgana e, finalmente, Mozart, que certamente não é aquele músico famoso. Imagino que seja um amigo do Lucas mas não sei porquê tenho o telefone dele. Aí vem uma fileira de Rs, S, T, táxis, U, Vs, nenhum X, e dois Zs, um Z que não sei quem é e Zeti, minha colega de trabalho.

Não encontrei ninguém com quem possa conversar de verdade, alguém que realmente me ouça e me diga a palavra exata, aquilo que preciso ouvir. Talvez não exista essa pessoa, talvez eu deva conversar comigo, olhar para dentro de mim e me perguntar quem eu sou, o que ainda quero da vida e talvez eu possa dar respostas que preciso. Porém, vi que tenho uma enorme lista de números inúteis no meu celular, pessoas que quase não conheço, pessoas que nem sei quem são. Está na  hora de deletar números inúteis.

segunda-feira, fevereiro 04, 2013

Dor

Em alguns momentos, quando a dor é muito grande é melhor nos calarmos e ficarmos imóveis, tão quietos como se fôssemos uma pedra, sem sentir, sem perceber, sem elaborar questionamentos ou procurar respostas. Mas também chega um momento que precisamos falar, expulsar de dentro do peito o que nos machuca. Espanto e incredulidade foram os sentimentos que tomaram conta de mim quando tive conhecimento das primeiras informações sobre a tragédia em Santa Maria e que aos poucos foi tomando a forma de um enorme monstro devorador de corpos e de vidas na noite do dia 26 de janeiro de 2013, na boate Kiss. Vivemos em um tempo de incredulidades, ainda. Apesar de todos os dias vermos entrar em nossa casa, seja pela televisão, seja pela internet e jornais, o horror das guerras pelo mundo a fora, despertamos com grande espanto diante do horror logo ali, no coração do Rio Grande do Sul, a cidade que marca o centro do Estado. Meninas e meninos, jovens estudantes, cheios de sonhos, de projetos. Os pais e mães em casa imaginando onde estarão seus filhos na madrugada desse início de ano, com quem estarão, se estarão bem. Essa é uma prática comum para pais e mães que tem filhos adolescentes, que estudam fora de casa, que namoram, que estão aí para a vida, para o mundo. Já ouvi mais de uma mãe dizer que não dormia enquanto o filho não chegava em casa. Que tem combinados com os filhos; de ligar, de mandar mensagem. Com meu filho e filhas eu combinei que quando chegassem na madrugada, depois da balada, que fossem até a porta do quarto e se mostrassem, dissessem “mãe, cheguei”. Aí, eu relaxava e realmente dormia. Isso aconteceu inúmeras vezes, incontáveis vezes. Depois que eles saíram de casa para morar fora definitivamente eu entreguei a Deus. Rezava e rezo para que estejam bem, para que sejam protegidos e guardados de todos os males. Amém. E sempre pensava que conhecia meus filhos, sabia como os tinha educado, mas não sabia quem estava no mundo e onde morava o perigo. As mães não são diferentes por morar aqui no Rio Grande do Sul, no Nordeste ou na Patagônia. Mãe é mãe. Mãe segura o coração nas mãos quando pensa nos filhos que estão longe ou que estão fora de casa, nas madrugadas das festas. É o trânsito terrível, são os bêbados na direção, as drogas, a violência desmedida dos tempos em que vivemos. Mas, por mais que nossa imaginação temerosa de mãe possa prever tragédias, nenhuma mãe, nenhum pai imaginou tal tragédia para seus filhos e filhas. Santa Maria não fica no meio do nada. Não está rodeada de água, nem fica à beira de um precipício. Não sofreu chuva de granizo, não foi assolada por um vendaval, não foi um tsunami. Não há falhas geológicas onde a cidade está assentada. Ao contrário, é uma cidade com baixo índice de violência, uma cidade que abriga milhares de jovens de todas as partes, onde o conhecimento é valorizado e é construído. No entanto, todos os meninos e meninas que estavam na boate Kiss nesse fatídico 26 de janeiro e que anteriormente passaram por lá, não olharam para aquele espaço como um lugar de perigos, não pensaram sobre isso, não questionaram, não disseram não. Pagaram para estar lá. E muito caro. Músicos que fazem show pirotécnico, material inflamável e tóxico, sem portas de emergência, superlotação, extintores de incêndio que não funcionaram. Uma ratoeira. Um matadouro. Iguais a esse existem muitos outros ambientes. Lojas superlotadas de produtos inflamáveis, com janelas gradeadas, sem indicação de saída, cheias de gente. Cansei de entrar em lugares assim. Governador, prefeito, poder público, bombeiros, fiscais, donos da boate, músicos....quem mais pode ser responsável? Alguém disse que somos proativos no sofrimento, manifestamos, choramos, gritamos, mas não somos proativos na prevenção; nos calamos diante das barbaridades que presenciamos em nosso dia a dia. Um motorista que dirige falando ao telefone, que está acima da velocidade permitida. Um produto com a data vencida no supermercado, alimentos com agrotóxicos, um médico que não levanta nem nos olha quando nos atende e receita remédios controlados. Realmente, somos gado rumo ao matadouro. E ele, o matadouro, nos espera em cada esquina que iremos passar. Não sei como será o futuro de meus filhos e netos, da humanidade, mas espero, de coração, que essa tragédia não seja em vão, que outras possam ser evitadas.

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