sexta-feira, março 29, 2013

Estou triste.

O rumo do coração

A música Canto Alegretense diz " nao me perguntes onde fica o Alegrete, segue o rumo do teu próprio coração ...."
Sempre segui o norte ditado por meu coração e esse norte me levou a encruzilhadas, penhascos e ruas sem saída.

Personagens

Lendo Cordilheira, de Daniel Galera, e pensando que é possível que sejamos personagens de uma história feita por um autor muito criativo, cujo enredo vai além de nossa capacidade imaginativa.

terça-feira, março 26, 2013

Você que é azul, me deixa morar nesse azul......


Azul (Só tinha que ser com você)
É,
Só eu sei
Quanto amor
Eu guardei
Sem saber
Que era só
Pra você.

É, só tinha de ser com você,
Havia de ser pra você,
Senão era mais uma dor,
Senão não seria o amor,
Aquele que a gente não vê,
O amor que chegou para dar
O que ninguém deu pra você.
O amor que chegou para dar
O que ninguém deu pra você.

É, você que é feito de azul,
Me deixa morar nesse azul,
Me deixa encontrar minha paz,
Você que é bonito demais,
Se ao menos pudesse saber
Que eu sempre fui só de você,
Você sempre foi só de mim.

É, você que é feito de azul,
Me deixa morar nesse azul,
Me deixa encontrar minha paz,
Você que é bonito demais,
Se ao menos pudesse saber
Que eu sempre fui só de você,
Você sempre foi só de mim.
Eu sempre fui só de você,
Você sempre foi só de mim.
Eu sempre fui só de você,
Você sempre foi só de mim.
Eu sempre fui só de você,
Você sempre foi só de mim

Dorian Gray ou reflexões na madrugada

Quando Dorian Gray se confrontou com a imagem de sua alma ficou aterrorizado. Isso pode acontecer conosco, enxergando nossa alma em outra pessoa. E nos aterrorizamos e entristecemos quando encontramos alguém tão semelhante a nós, com nossas qualidades e nossos mais terríveis defeitos. E se enxergamos é porque superamos, em muito, esses defeitos. Enxergar-se no outro é uma catarse, é como Dorian Gray. Ao mesmo tempo que nos apaixonamos por nossa imagem e semelhança , ou seja, nosso Eu revisitado, temos medo e pena. Medo por nao conseguirmos resistir a nós mesmos, a tudo o que somos, a quem somos. Uma catedral de auto contemplação construída pedra por pedra. Pena por saber que existe outro ser que ainda está nas paredes da sua catedral.

segunda-feira, março 25, 2013

Em Ribeirão

E as pequenas formigas atravessavam rápida e intermitentemente o quarto miserável onde ela se hospedara. Vinham não se sabe de onde e desapareciam debaixo de uma porta sem fechadura.Ela lembrou do conto As Formigas, da Lygia Fagundes Teles.As formigas do conto estavam montando o esqueleto de um anão. E essas formigas ribeirenses?

Tabacaria


      TABACARIA
    Não sou nada.
    Nunca serei nada.
    Não posso querer ser nada.
    À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
    Janelas do meu quarto,
    Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
    (E se soubessem quem é, o que saberiam?),
    Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
    Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
    Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
    Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
    Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
    Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
    Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
    Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
    E não tivesse mais irmandade com as coisas
    Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
    A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
    De dentro da minha cabeça,

      E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
      Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
      Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
      À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
      E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
      Falhei em tudo.
      Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
      A aprendizagem que me deram,
      Desci dela pela janela das traseiras da casa.
      Fui até ao campo com grandes propósitos.
      Mas lá encontrei só ervas e árvores,
      E quando havia gente era igual à outra.
      Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
      Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
      Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
      E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
      Gênio? Neste momento
      Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
      E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
      Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
      Não, não creio em mim.
      Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
      Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
      Não, nem em mim...
      Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
      Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
      Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
      Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
      E quem sabe se realizáveis,
      Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
      O mundo é para quem nasce para o conquistar
      E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
      Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
      Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
      Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
      Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
      Ainda que não more nela;
      Serei sempre o que não nasceu para isso;
      Serei sempre só o que tinha qualidades;
      Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
      E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
      E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
      Crer em mim? Não, nem em nada.
      Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
      O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
      E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
      Escravos cardíacos das estrelas,
      Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
      Mas acordamos e ele é opaco,
      Levantamo-nos e ele é alheio,
      Saímos de casa e ele é a terra inteira,
      Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
      (Come chocolates, pequena;
      Come chocolates!
      Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
      Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
      Come, pequena suja, come!
      Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
      Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
      Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
      Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
      A caligrafia rápida destes versos,
      Pórtico partido para o Impossível.
      Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
      Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
      A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
      E fico em casa sem camisa.
      (Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
      Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
      Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
      Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
      Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
      Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
      Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
      Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
      Meu coração é um balde despejado.
      Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
      A mim mesmo e não encontro nada.
      Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
      Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
      Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
      Vejo os cães que também existem,
      E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
      E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
      Vivi, estudei, amei e até cri,
      E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
      Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
      E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
      (Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
      Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
      E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
      Fiz de mim o que não soube
      E o que podia fazer de mim não o fiz.
      O dominó que vesti era errado.
      Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
      Quando quis tirar a máscara,
      Estava pegada à cara.
      Quando a tirei e me vi ao espelho,
      Já tinha envelhecido.
      Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
      Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
      Como um cão tolerado pela gerência
      Por ser inofensivo
      E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
      Essência musical dos meus versos inúteis,
      Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
      E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
      Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
      Como um tapete em que um bêbado tropeça
      Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
      Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
      Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
      E com o desconforto da alma mal-entendendo.
      Ele morrerá e eu morrerei.
      Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
      A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
      Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
      E a língua em que foram escritos os versos.
      Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
      Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
      Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
      Sempre uma coisa defronte da outra,
      Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
      Sempre o impossível tão estúpido como o real,
      Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
      Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
      Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
      E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
      Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
      E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
      Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
      E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
      Sigo o fumo como uma rota própria,
      E gozo, num momento sensitivo e competente,
      A libertação de todas as especulações
      E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
      Depois deito-me para trás na cadeira
      E continuo fumando.
      Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
      (Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
      Talvez fosse feliz.)
      Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
      O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
      Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
      (O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
      Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
      Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
      Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

      Álvaro de Campos, 15-1-1928

sábado, março 23, 2013

Em outro lugar


Casada há três décadas com um homem vinte anos mais velho, ela era feliz, de uma felicidade morna, tranqüila. Nao havia mais questionamentos  e descobertas entre os dois, eram amigos.  Passaram por  momentos difíceis quando se conheceram em plena ditadura argentina, no final dos anos setenta.  Não tiveram filhos e ela sentia-se uma espécie de filha mais nova de seu marido, que era viúvo.

Ele, um militar conservador, oriundo de uma família tradicional da região de Mendoza, viera para Buenos Aires ainda na infância.  Ela cursara Arquitetura na UBA e trabalhara para um escritório  que prestava assessoria às grandes empresas da área. Não se considerava empreendedora, por isso preferia ser dirigida por um chefe. Uma única vez projetara um loft de forma independente. Lembra que sentira uma alegria quase infantil ao se dar conta de que podia fazê-lo. Seu marido lembrou-lhe que ela não precisava disso, aliás, nao precisava trabalhar se não quisesse, o que era motivo de discussão entre os dois. Ela gostava, mais do que de trabalhar, de estar perto das pessoas. Saia de casa, conversava e dava longos passeios sozinha pelas ruas de Buenos Aires. Tinha predileção pelo Puerto Madero por sua atmosfera londrina em plena capital portenha.  Abandonado durante muito tempo, o Porto tornou-se ponto de encontro da boemia argentina. Ela fazia longas caminhadas às margens do rio e comprazia-se com o ar gelado das manhãs de outono. Retornava à tardinha e sentia uma inquietação interna ao sentir a luz do final de tarde  entrar pelos vãos das venezianas. Entao, olhava-se no espelho pesquisando vestígios da moça que fora um dia e sentia-se culpada ao ver o tom rosado nas faces provocado pelo vento gelado. Um paradoxo pensava ela.

Agora, aos cinqüenta e três anos, ela trabalhava meio período na Galeria de Arte Marier, no bairro Belgrano, com vários artistas associados, a que ela se dedicava com prazer. Estar entre as obras de arte  e poder compartilhar das  ideias  desses jovens artistas lhe dava uma sensação de saciedade.


Rodrigo entrou pela primeira vez na galeria quase por acaso.Procurava uma livraria próxima dali e entrou pra pedir uma informação. No momento havia uma exposição de Mário Moralli, pintor figurativo. Suas telas, em que homens e mulheres cor de cuia e com grandes sombreros brancos faziam atividades cotidianas, chamou a sua atenção. Conversaram sobre essa e muitas outras exposições futuras. Ele trabalhava na Aerolineas Argentinas como gerente de operacionalizaçao e sempre que estava na cidade ia até a galeria para ver as exposições e conversarem. Trocaram telefones, endereço de email. Ficaram amigos. Um dia ele a elogiou, disse que tinha uma boca linda. Ela sentia a sua ausência.  Combinaram de se encontrar fora dali para um café.  Ela foi ao encontro, ele não apareceu, tivera um imprevisto na última hora. Depois, ele a esperou e ela não teve coragem de ir. No seu íntimo sabia que seria como um voo proibido, uma porta secreta que ela estaria abrindo. Embora tivessem muitas afinidades e parecesse que sempre se conheceram, ele era mais jovem que ela e isso a incomodava.
Mas ela sabia que teria que ir. As paredes e o ambiente da galeria formavam uma teia ao redor deles. Ao mesmo tempo em que se sentiam protegidos pela conveniência e suas conversas transitassem por intimidades,   sentiam-se estranhamente formais.

Encontraram-se num  lugar delicioso para arquitetos e amantes da arte; no cemitério da Recoleta, muito freqüentado por turistas do mundo inteiro. Abraçaram-se num misto de entusiasmo e constrangimento. Saíram a caminhar entre os pequenos prédios e monumentos que revelam-se também em obras de arte do cemitério da Recoleta.  Entre o túmulo de Evita Peron e Liliana Crociati de Szaszack, dois dos túmulos mais visitados, ele pegou sua mão, ao que ela correspondeu, entrelaçando os dedos com ele. Depois , encostou-a na parede  fria, sem deixar espaço para esquivos e olhou-a nos olhos, beijou-a no pescoço, enquanto acariciava seu rosto. Ela sorria e pensava há quanto tempo não sentia isso. Ele acariciava suas costas com firmeza e ela se arrepiava como um dos gatos que montam guarda junto ao túmulo de Liliana.  Ela olhou para o lado e viu um casal de namorados se beijando. Algumas pessoas passavam e ninguém parecia notá - los. Ela pensava no que aconteceria se seu marido soubesse e pensava em como era bom estar ali com aquele homem menino a beijar-lhe a boca com paixão, o desejo aflorando em ambos.
Ela pediu-lhe trégua, contou-lhe que sempre quisera casar com um homem mais velho que a protegesse das dores do mundo, que era feliz assim. Ele disse que não, que ela nao queria se esconder do mundo, que ela queria mais, que ele via isso nela, nos seus olhos, no seu desassossego.

Na saída do cemitério sentaram num banco. Ele deitou a cabeça no colo dela e fechou os olhos. Ela ficou acariciando seus lábios com o dedo indicador e pensando o quanto queria fazer amor com ele. Ele precisava estar no aeroporto as 9 e deixou-a próximo de casa. No jantar, o marido comentou com ela que a carne não estava tão macia. Ela respondeu distraída  que reclamaria com o açougueiro. Tinha na retina a figura   de um homem e uma mulher, em outro lugar.

segunda-feira, março 04, 2013

Na rodoviária

Ele estava esperando chegar o horário de seu ônibus para o interior, de onde viera para visitar a filha e o neto. A mulher ficara, afinal, alguém tinha que cuidar da casa e inibir possíveis visitantes inesperados no final de semana. O interior não oferece mais a segurança de anos atrás. Aos setenta e um anos ele se sente um pouco perdido, como se não houvesse mais nada a descobrir, nada a acontecer, a não ser esperar a morte chegar. A velhice chegara de mansinho, sem fazer alarde e fora se instalando inexoravelmente.A dificuldade em enxergar, a lentidão dos movimentos impedindo até o prazer do banho. O sexo flácido, encolhido, parecendo tímido, cada vez menor. A falta de desejo pela mulher, ela também sentindo o peso dos anos. Na adolescência faziam amor pelos cantos,numa urgência desesperada. Agora isso. Na rodoviária, ele estava alheio ao movimento das pessoas que passavam com pressa em direção aos terminais de ônibus no final de domingo. Sentara de forma a ficar de frente para uma lanchonete onde havia uma televisão ligada no programa do Faustão. Só conseguia ver as imagens e imaginava os previsíveis diálogos, afinal esse era o programa de domingo em sua casa. Foi quando ela passou à sua frente e sentou-se ao seu lado. Estimulado pelo sentido olfativo ele olhou-a. Calculou que tivesse uns 45 anos, talvez mais. Cabelos escuros, presos num coque. Alguns fios rebeldes soltando-se na nuca, despretensiosamente. Blusa verde, saia cinza, acima dos joelhos. Sandálias de duas cores, dourado e marrom, destoando da sisudez do traje bem cortado. Distraidamente ela esfregou o tornozelo. Hipnotizado ele olhou aquele gesto, imaginando se estaria com dor. A mão dela subia e descia pela panturrilha em direção ao pé. A pele morena, brilhante, lembrou-lhe os potros que corriam ao sol num sítio onde passara as férias quando guri. Ela voltou medianamente o rosto para o lado dele, que percebeu os olhos verdes, da cor da blusa. Os lábios bem desenhados, carnudos, pintados com um batom num tom mais rosado que a boca. Uma cor que as mulheres chamam de "cor de boca". Estavam em silêncio, embora lado a lado. Ela também esperava um ônibus, ele conjeturou. Com a passagem na mão, virava de um lado e outro,num gesto de impaciência. Ele observou as unhas pintadas de vermelho, uma pulseira de ouro no pulso esquerdo e um anel com pequenas pedrinhas brilhante no dedo anelar da mão direita. Ela evitava olhar para a televisão e na posição em que estava ficava quase na frente dele, obrigando-o a olhar para ela se quisesse ver o que se passava na telinha. Ele passou a mão nos cabelos ralos, num gesto de desalento. Pensou em puxar assunto, falar do tempo de espera, do clima, da chuva que assolara a cidade mais cedo da tarde, do calorão. Quem sabe ela olharia nos olhos dele, o enxergaria, sorriria e ele se sentiria jovem outra vez, teria desejos e isso seria bom. Pensava nisso ainda quando ela levantou-se e caminhou rapidamente em direção a algum ônibus, sem olhar para trás.

sexta-feira, março 01, 2013

Duas tábuas e o morto no jardim

Reli Nas profundezas do Jardim e lembrei de Duas tábuas e uma Paixão, do Millôr. E lembrei que ele disse para mim, no meu ouvido (pelo telefone) que escreveu essa obra para a Fernanda Montenegro, mas jamais foi dramatizada por alguém. Que coisa. Nas profundezas do Jardim e Duas Tábuas e uma Paixão tem algo em comum. O morto desconhecido, enterrado no jardim e o livro do Millôr. Lido, mas não levado ao teatro. Morto também. Triste isso!

  • A Igualdade é Branca
  • A Fraternidade é Vermelha
  • A Liberdade é Azul
  • Blade Runner