quarta-feira, agosto 21, 2013

As Marias que nós somos

Todas  nós somos Marias. Maria que nasce no sertão, que desde cedo ajuda a mãe nas lidas domésticas, vai buscar água longe de casa, come pouco, brinca quase nada. Maria que faz sua própria boneca de pano e que cresce espiando pela janela quando, por acaso, surge um ou outro estranho na frente da casa. Maria que varre o terreiro, que arruma a casa, cozinha e que tem uma boa quantidade de filhos, uma mão cheia, duas até. Maria que nasce nos pampas, que levanta de madrugada para tirar leite, que cuida da horta, que cozinha. Maria que não vai à escola porque é muito longe. Maria que anda à cavalo, lava roupa no rio. Maria que tem vários filhos, que visita e recebe visita da comadre que mora no sítio mais próximo. Maria que saiu de casa cedo, que foi à escola, fez mestrado, doutorado. Maria que ama, que não teve filhos, não quer ter. Maria da cidade, que teve filhos cedo, que trabalha, estuda, trabalha, estuda. Que vê os filhos saírem de casa e fica só.
Conheço Marias e Marias. Duas delas em especial. Uma, do sertão, o marido não quer mais, e ela chora. Conta que ele se afasta dela na cama, não conversa, não olha pra ela. Essa Maria tem quarenta anos, o rosto vincado pelo sol, parecendo sessenta, as lágrimas escorrendo pela face. Essa Maria sofre a dor do desamor e do abandono. Ela não estudou mas tem a sensibilidade e a oralidade das mulheres sábias do sertão.
A outra Maria é bem cuidada, estudou, é doutora pensando em pós-doutorado. Seus olhos denotam a tristeza do abandono e do desamor. Descobriu que o marido, a quem ela amava, a traiu, não com uma, mas com várias mulheres. Qual a diferença entre essas Marias? Nenhuma. Todos nós somos Marias em algum momento e de alguma forma. Todas amamos, criamos filhos,somos traídas,abandonadas, amamos os filhos dos outros, trabalhamos, deixamos sonhos para trás, outros enterramos, outros nem ousamos sonhar. Essas são as Marias que nós somos.

quarta-feira, agosto 14, 2013

Uma resposta para meu filho

Filho, outro dia fizeste um comentário-pergunta, que pedia uma resposta, no entanto, não dei, embora tenha ficado matutando. Teu comentário foi: "mãe, deve ser bom ter filhos grandes...". Sempre que nos encontramos o tempo é tão curto e os assuntos tantos, que não conseguimos falar tudo o  que queremos ou precisamos. Então, filho, agora vou tentar te responder. Sim, é muito bom ter os filhos "grandes". Mas para isso acontecer eu tive filhos muito cedo. Na época, com 21 anos, 24 e 30 anos, não achava cedo, não era cedo, era natural que se tivesse filhos com essas idades. Trinta anos já era "um pouco tarde". Sei que fiz o que pude quanto à educação de vocês, dadas as circunstâncias de nossa vida. Mas, se fosse hoje, eu faria algumas coisas diferentes. Não lhes daria tanto açúcar, não lhes daria Nescau. De que é feito o tal de Nescau? Não daria tanta batata frita....mas pensando bem, acho que não foi demais. Eu fazia bolos em casa, fazia bolinhos fritos também; bolinhos de chuva.  Tricotava, fazia emendas nas calças para durar mais porque vocês espichavam sem parar e o dinheiro era curtíssimo. Parei de fumar quando engravidei. Nunca fui atleta, consequentemente, nenhum de vocês é, não os incentivei a nadarem, eu mesma não sei nadar. Mas ouvimos muitas músicas, cantei para vocês, cantamos juntos nas noites frias de inverno, ao lado fogão à lenha. Lembra? Eu os levei à praia, fizemos doidices. Eu fiz e vocês, os três, acompanharam. Como aquela vez que fomos a Torres passar uns dias na casa da tia Walkiria. A Lu tinha meses e no apartamento mal tinha lugar para a família dela. Andávamos em torno de dez quadras até chegar à beira da praia. Foi lá que a Lisi se perdeu e o salva vidas veio trazê-la para mim e me perguntou "a senhora sabe quantas crianças desaparecem todos os dias?". Eu não sabia. Hoje eu não faria mais isso, mas queria que vocês tivessem férias, que fossem à praia, vocês gostavam tanto! E contei muitas historinhas pra vocês, li outras tantas até que vocês também começaram a ler. E os brinquedos, eu comprava e pagava em prestações. Playmobil, bonecas, homenzinhos, carrinhos, ursinhos. Talvez, na memória de infância de vocês, lembrem mais do que eu. Esses momentos tinham um gosto de alegria, de prazer, de felicidade. Se eu pudesse voltar atrás e se algo fosse diferente, penso que gostaria de ter trabalhado menos e ter ficado mais tempo com vocês, mas na época era o que eu precisava fazer. Então, filho....é muito bom, sim, ter filhos grandes, ser uma mulher ainda jovem, com muitos sonhos, muitos desafios pela frente e com filhos  artistas, sensíveis, seres do bem. Pessoas iluminadas. Sempre pensei que minha vida valeu a pena por ter, também, servido de meio para dar à luz, três seres humanos maravilhosos. Sou grata por isso. Sou feliz e abençoada por isso. Vocês são a melhor parte de mim e me salvaram de mim mesma, muitas vezes.

Da solidão

Vivemos como se tivéssemos tempo para tudo, como se tudo ainda pudesse acontecer em nossa vida. Quando somos crianças não pensamos sobre isso, ou sobre outra coisa, apenas vivemos dias longos que parecem não acabar. E vivemos de descobertas e crescimentos,  dia a dia. Crescimento físico, intelectual, emocional. Crescemos, envelhecemos, nosso corpo não faz  jus ao nosso cérebro ainda produtivo, à nossa alegria, nossa vontade de viver. Intelectualmente somos cada vez mais ativos, aprendemos sempre, todos os dias. Emocionalmente continuamos meio adolescentes, ao menos nós, mulheres, sofrendo a influência hormonal cotidianamente. 
 E nossa existência será um laboratório de experiências, de experimentações, de erros e acertos, afirmativas e negações. As conquistas vem com o trabalho, a dedicação, o levantar cedo durante mais da metade do tempo que temos neste planeta. Trabalhamos para comer, para vestir, para morar, para usufruir dos benefícios de uma civilização capitalista e consumista. Não viemos ao mundo com uma cartilha que nos informa como usar a vida, como evitarmos os perigos ou como, milagrosamente, evitarmos experiências que pensamos inúteis, perda de tempo. Mas não há perda de tempo, tudo é aprendizagem. Nossa existência está articulada em tramas de forma que tudo e todos estão encadeados. Nada acontece por acaso. Não podemos fugir de nossas verdades mais íntimas, embora muitas vezes não as admitamos nem para nós mesmos. Chega um momento em que temos que olhar para dentro de nós e questionar quem somos e o que ainda queremos da vida. Dentro da exatidão dos desejos, a felicidade é algo que está no mundo, para todos, mas para tê-la é preciso coragem, determinação, movimento. Sem isso, resta a solidão.

  • A Igualdade é Branca
  • A Fraternidade é Vermelha
  • A Liberdade é Azul
  • Blade Runner