sexta-feira, setembro 19, 2014

O retorno de Maria


Maria voltou! Foi isso que Pedro me falou num misto de alegria e surpresa. Vasculhei a imagem da rua recortada pela porta envidraçada do hotel, mas não a vi.  Durou exatamente dois dias o exílio de Maria. Eu e Pedro ainda estávamos impactados pela repentino afastamento dela pela polícia local, quando ela retornou.
A literatura permite-se divagar e imaginar o destino de suas personagens. Quando não sabemos o que aconteceu com elas, o que foi o caso de Maria, queremos crer que reencontrou a família, que ficou lá no sertão acolhida por sua mãe e recebida aos pulos de alegria pelos filhos. Ou que foi internada em um hospital psiquiátrico, e a essa altura eu já estava colocando Maria no primeiro mundo. Eu já via Maria de roupa branca, cabelos soltos, o olhar perdido, submetido a doses de analgésicos e psicotrópicos, vagando pelos corredores limpos de um hospital, cheirando a éter. Pensei em Maria surrada, abandonada à beira do caminho para o sertão, faminta, desgrenhada.
E eis que Maria ressurge, mais altiva, o olhar mais duro, mais atrevida. Nesse mesmo dia pensei em oferecer a ela uma maçã e um pacote de doces de goiaba, que era o que eu tinha. Ela disse com voz áspera "vá envenenar o cão!". Não pude deixar de me sentir a legítima bruxa dos contos de fadas que oferece a maçã envenenada à Branca de Neve. É provável que ela nem conheça a história da Branca de Neve.  Confesso que fiquei assustada por sua reação, mas já sabia que ela não aceitava alimentos, a menos que deixassem no chão próximo e ela pegava quando quisesse. Parece que funciona mais ou menos como um controle da situação. Não há uma pessoa que precisa e outra que dá. Não há reciprocidade entre o dar e receber. Lembrei da história do rasgar dinheiro.
Passei a observá-la de longe e evitava olhar pra ela quando sabia que estava me olhando. Eu sentia seu olhar me acompanhando quando eu passava.
Um dia vi que conversava com garis, homens e mulheres que descansavam à noitinha, sentados na calçada. Ela continuou dormindo no batente da janela de um prédio próximo, enrolada num lençol, com a cabeça voltada pra parede, os chinelos também adormecidos ao lado, protegendo sua dignidade da curiosidade alheia.

Numa manhã de sol, depois de vários dias chuvosos, ela sentou quase na porta de hotel e tomou banho. Encheu um galão de água numa torneira próxima e esfregou os pés. Depois jogou água nos cabelos e no corpo todo, assim como estava, vestida.
As vezes eu saia do hotel e ela estava exatamente na porta, mas o olhar está lá adiante, depois da rua, depois do largo à beira mar, depois do mar.
Maria escolheu este lugar para esperar, para viver. Não há mais mãe, não há pai, não há filhos, não há companheiro. Não sei o que será de Maria, talvez ela fique ali até que a polícia venha é a leve de novo e ela retorne. Ou não.




quinta-feira, setembro 04, 2014

O professor de frescobol

Dois caras altos, fortões, malhados, jogando frescobol na beira da praia. Um deles grita o tempo todo, xingando o outro. Porra é apenas a entrada para um cardápio digno de um filme de quinta. O som da raquete batendo na bolinha com violência encontra eco na voz gritante e estrondosa,
Não poderíamos deixar de ouvir, mesmo que quiséssemos, eu e os veranistas dos guarda-sóis à esquerda e à direita nos próximos cem metros. Eu estava tentando ler o Borralheiro, do Carpinejar, e tapei o ouvido direito com uma mão e segurei o livro com a outra, mas tive que me render aos berros que vinham da beira do mar, a poucos metros.
O som das ondas quebrando suavemente na praia, no mês de setembro, deveria ser o único som a ser ouvido. Conjecturei que deveriam ser namorados, o que explicaria, ou não, a passividade de um e a agressividade do outro. Mas não, dentre os berros que chegaram pela brisa, ouvi a palavra professor, porque além de se esmerar nos palavrões, o cara fez questão de dizer que ELE era o professor...!

Penso que o prazer de jogar frescobol está em interagir, comungar, batendo na (coitada) da bolinha de maneira que ela vá ao ou de encontro ao outro, mas que chegue até ele sem um sofrimento demasiado. Ali acontecia o contrário. O xingador enviava as bolas o mais alto possível, ou mais baixo, extremamente à direita, esquerda e com velocidade de um supersônico. E sons como "Ahh", "Huumm" são bem-vindos. Quem não assistiu as irmãs Willians e não se deliciou com seus gemidos que pareciam sair das profundezas do seu ser? Mas, o que não se espera é ouvir numa manhã clara, ensolarada, em que carneirinhos pastam num céu de brigadeiro e criancinhas constroem castelos na areia com seus baldinhos coloridos, dois marmanjos jogando frescobol e um deles esbravejando o tempo todos palavras como: porra, caralho, bosta, merda, burro....e por aí vai.
Uma senhora que estava no guarda-sol ao lado argumentou que essa forma de tratar o aluno poderia ser uma estratégia de marketing, assim todos ficaram sabendo que ele dava aulas de frescobol.
Pensei no susto de meus alunos se eu usasse essa estratégia motivacional em sala de aula:

*Leu o texto, seu bosta?
*Caralho, vocês fazem tudo errado!
*Gostei da tua redação, porra!
*Cara, tu és um burro!

Como dizia minha avó...no meu tempo não era assim.

quarta-feira, setembro 03, 2014

Maria



           Vou chamá-la de Maria. Nos primeiros dias em que a vi pareceu-me estar simplesmente à espera de alguém. Roupas limpas, arrumadas, bolsa a tiracolo, cabelos presos em um coque. Quando nossos olhares se cruzavam, ela me olhava com olhar desinteressado, sempre altivo. Uma mulher jovem, rosto liso, quieto, olhos tristes. Com o passar dos dias parecia continuar esperando alguém que ela sabia que não viria. Perambulava pelas vitrines, olhava alguma coisa com curiosidade, ficava espiando através da vidraça, o noticiário na televisão no saguão do hotel. Cruzei com ela em vários momentos, sentada na calçada, sobre o ar condicionado que fica pendurado no rés da calçada de manha muito cedo ou deitada à beira de uma janela, já no escuro da noite. Algumas vezes a ouvi cantando, uma voz suave, quase inaudível. Outra vez a vi sentada com as pernas cruzadas, como se estivesse meditando. De vez em quando tinha nas mãos uma bíblia surrada.  Um dia, aproximei-me como quem não quer nada e perguntei seu nome. Como ela parecera não ter ouvido, repeti e repeti. Ela não se virou para me olhar, entendi que não queria responder, não queria conversar. Não havia confiança entre nós, não havia motivos para ela dizer-me seu nome.

Outras pessoas vivem e dormem no entorno do hotel onde eu estive. Crianças, poucas. Alguns adolescentes e vários adultos. Conversando com um moço que trabalha no hotel e que, de vez em quando alcançava café para Maria,  ele disse que em João Pessoa há atendimento às crianças e para tirá-las das ruas, mas não há nenhum olhar para os adultos.

E penso em Machado e naquela frase que é a minha carta na manga no jogo existência:

"O menino é o pai do homem". Deve-se cuidar das crianças, porque elas são pequenas, pais e mães dos adultos que virão, mas se isso não acontecer, quem cuida dos adultos abandonados afetivamente? Que cuida dos adultos que fugiram de casa, que saíram pra comprar cigarros na esquina e nunca mais voltaram? Quem olha para os mendigos, os abandonados, os desvalidos, moradores de rua, os mentalmente perturbados? Os adultos autistas, esquizofrênicos ou simplesmente os infelizes?

Uma manhã, quando saí do hotel , a polícia estava lá, com celular na mão, com aparelho de dar choque, com cassetetes. Algumas pessoas conversavam e me aproximei porque vi que ela estava lá,  a Maria, sentada, alheia a tudo, um sorriso enigmático com que contemplava os espectadores curiosos.  Enquanto ela aguardava silenciosa, uma mulher comentava com voz esganiçada que “ela era doida mesmo porque picara dois reais”. Outra segredou que ela ficara assim depois que fora abandonada pelo marido, mas sua tristeza aumentara muito quando o conselho tutelar arrebatou seus filhos. Refleti que os dois reais não eram importantes pra ela. Talvez ela quisesse atenção, carinho, seu marido, seus filhos de volta. Talvez quisesse a sua casa, seu pedaço de chão, seu lugar no mundo, o retorno de sua dignidade.

Por mais que minha imaginação divague e especule, jamais saberei quem era ela e o que a levou a ficar assim, à deriva. O que me leva a outra questão: o que realmente fazemos pelas pessoas que estão próximas a nós, as que cruzam o nosso caminho. Para que realmente existimos? Qual é a diferença que fazemos na vida das pessoas? 
Soube dias depois que a levaram para o interior, para o sertão, para o local provável onde ela vivia.
A ausência deixada por ela me entristeceu. Por ela, e por todos nós, enclausurados em nossas mazelas, com nossos fantasmas a nos atormentar, num mundo de solidão.

segunda-feira, agosto 25, 2014

Talento

Penso. e penso muito. uma nova amiga fala sobre seus talentos, que são múltiplos. ela pinta, mas só quando quer dar um presente. ela tem talento para cuidar das plantas, e cultiva orquídeas. conhece suas plantas  pelo apelido,pelo nome científico, e sabe quando e de onde veio cada uma. se precisar, sabe fazer uma escultura, um vaso, um passarinho. faz bolos recheados e cobertos de chocolate num instante. fez odontologia e, enjoada, fez direito. tudo isso, além de fazer direito tudo o que faz. é alegre, extrovertida, sincera, amável. ela aprecia arte, mas não sente o apelo visceral da arte. e aí, fiquei pensando. e eu? qual é o meu talento? amo música, adoro cantar e canto, mas anonimamente, escondida atrás das vozes do grupo vocal. solo dá medo, a voz não sai. eu danço, quando não tem ninguém olhando. já pintei alguns quadros, mas nada digno de admiração. gosto de desenhar, já desenhei muito. agora, mal consigo desenhar as letras. fotografo muito mas sinto a imagem tão banal, que não me satisfaz mais. leio, mas leio pouco. escrevo,mas escrevo menos do que gostaria ou poderia. penso, penso muito. minha cabeça está sempre fervilhada de palavras, lembranças, sensações, projeções. o passado vem e volta. penso no futuro, menos hoje do que ontem. as pessoas que passam por mim na rua e me olham nos olhos deixam em mim uma impressão de ideias, de sentimentos, de vidas. e eu sigo com a cabeça repleta de coisas.dessas gentes.
tenho um amigo que diz que não pensa em nada, por isso dorme bem. simplesmente não pensa em nada. eu queria não pensar em nada. mas penso nisso agora. em meu talento. para que eu sirvo mesmo? para  que nasci?qual é o apelo visceral que sinto? o que não posso viver sem? o que eu sei fazer muito bem? o que me move? não sei. talvez pensar seja o meu talento. ou não.

quarta-feira, julho 23, 2014

Noite de Gala no Céu


Hoje à noite haverá um encontro especialissimo no Céu. Cecília Meireles, entoará Cânticos, compondo um trio com Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Millôr, usando de sua habilidosa ironia, dirá que os imortais da ABL que se cuidem. Drummond e Manuel Bandeira, que chegaram ao céu há muito tempo, aproveitam para dizer que o planeta Terra está bem mais pobre, órfã dos três convidados que chegaram repentinamente: João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves e Ariano Suassuna, que entram em fila indiana, por ordem de chegada. No rosto, o sorriso de quem viveu e deixou um legado de palavras, belas, histórias, poemas à mão cheia, parafraseando Castro Alves. Quintana, sempre simpático, dá as boas vindas aos recentes chegados à festa e diz que não se preocupem, os outros todos passarão, eles, passarinho. Junta-se ao grupo, serenamente, a Zélia, o Jorge Amado, o Fernando Pessoa, a Florbela...
Fico imaginando que delicia de encontro de tão queridos escritores e poetas e torço para que fiquem aqui mais um pouco, o Chico, o Zuenir Ventura, o Daniel Galera...

O melhor pai do mundo


O filme O melhor pai do mundo, com o admirável Robin Williams, nos faz refletir sobre como nos colocamos diante das pessoas e desses seres que são tão queridos para nós, que são os nossos filhos.
A história conta o relacionamento de pai e filho, inserida numa comunidade escolar, onde o pai é professor de poesia e sua aula, a menos procurada, o que faz dele um derrotado em tudo, na vida familiar e profissional.O filho, um babaca. Mau filho, mau aluno, mau amigo. Aliás, ele só tem um amigo, a quem usa como capacho. É o estereótipo do adolescente complicado em uma família desestruturada. Isso pode ser premissa para um relacionamento frágil e difícil, mas não é regra. Já vi casos de órfãos que comeram o pão que o diabo amassou e são ótimas pessoas. Também já vi casos de filhos de famílias "normais" que são problemáticos. A verdade é que o ser humano é uma incógnita.
Voltando ao filme, o menino, só pensa em sexo e em técnicas diferentes de masturbação. E uma dessas técnicas é que irá matá-lo, para desespero do pai que, ao ver-se diante da morte trágica do filho escreve uma carta de despedida no lugar dele e refaz a cena da morte para transformar o olhar das pessoas sobre esse filho, tão desprezado.
Em uma das cenas mais fortes o amigo diz que gostava do guri que morreu. O pai diz que ele não gostava, ele amava. O amor incondicional do pai poderia dar conta de recuperar o relacionamento pai e filho? Sim, ou não. Pai e mãe não são super herois que dão conta de tudo, que salvam os filhos, e tudo fica bem ao final. Amor de pai e mãe pode ser incondicional, mesmo quando não são tão correspondidos no seu amor,não são respeitados, são maltratados ou ignorados, o que também é uma forma de agressão. Amar os filhos é bom, mas recuperar o amor próprio também é necessário. 
O filme fala da solidão, do que é realmente importante, da hipocrisia social, do amor e da perda. Ao final, ao escolher assistir filmes com uma vizinha reclusa e o amigo do filho, ele diz uma frase que sintetiza o que é o relacionamento humano na maioria das vezes: 
"Não precisamos estar com pessoas que nos fazem sentir sozinhos. Nesse caso é melhor mesmo ficar sozinho"

quinta-feira, junho 26, 2014

Peru, uma civilização surpreendente.

Lima



A primeira coisa que nos falaram quando contamos que viajaríamos ao Peru é sobre o "mal da altitude", mesmo antes de citar Machu Pichu, a cereja do bolo. Tudo o que pesquisei sobre esse assunto não é o que encontramos, isto é, não é tão ruim assim, talvez porque os sintomas atinjam as pessoas em níveis diferentes, dependendo da capacidade respiratória ou física de cada um. Não sentimos dor de cabeça, enjoo, nada, apenas dificuldade em respirar, o que aumentou à medida em que subimos e a altitude ficava maior. Esse era nosso único medo, mas em todos os hoteis e restaurantes há chá de coca que pudemos tomar sempre que sentimos necessidade e também folhas de coca para mascar.O sabor é meio parecido com a nossa erva-mate. Nos hoteis também há tubos de oxigênios e máscaras à disposição dos hóspedes que quiserem ou necessitarem. No Peru as pessoas andam com uma bolsinha de pano à tiracolo cheia de...folhas de coca! Quando se encontram, em vez de se cumprimentarem com um aperto de mão ou com um abraço e beijinhos na face, trocam as folhas de coca. Em locais de subidas mais íngremes cheiramos folha de munha, uma plantinha que se assemelha ao hortelã e que desobstrui as vias respiratórias, ajudando muito na subida. As folhas de munha foram apanhadas logo ali, ao alcance das mãos do nosso guia. E haja folha de coca e folha de munha!
O Peru, mais do que outro país, é outro mundo. A proximidade que temos com o Uruguai e a Argentina, nos dá a capacidade de desenvolver e apresentar aos peruanos o nosso melhor portunhol. E logo percebemos que a recíproca não é verdadeira. Nós compreendemos o que eles dizem, mas eles não nos compreendem. Mas somos sempre acompanhados por guias que falam o português e inglês fluentemente. Explicam tudo com calma, demonstram grande conhecimento dos aspectos geográficos e históricos e nos acompanham em todos os momentos da viagem, facilitando a nossa vida ao chegar e sair dos hoteis.
Isso é outra questão a ser esclarecida. Existem viagens sem guia, com mochila nas costas ou que o planejamento, roteiro, reservas, são feitos todos pelo viajante ou assim como viajamos ao Peru, contratando uma agência de viagens que toma conta de tudo. Há os prós e os contras. Não temos o sabor da aventura e do desconhecido de viajantes independentes, mas temos a segurança e a certeza de saber que somos esperados e que não há muito com o que nos preocuparmos. Questão de escolha.
Então, nossa viagem foi organizada por uma agência de Estrela, a Dreams Viagens, e desde nossa saída da porta de casa até o retorno a ela, foi planejado e organizado por outras pessoas. Moramos no interior e optamos por deixar o carro em casa e ir até o aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, com o serviço oferecido por  uma pessoa daqui, contato feito através da agência. A mesma pessoa estava nos esperando quando chegamos de volta da viagem, no aeroporto. Isso evita deixar o carro no aeroporto por tantos dias.
Como nossa viagem foi planejada sem nossa interferência, ficamos um pouco reféns disso, não podemos optar por horários ou roteiros, mas acabamos conhecendo muitos lugares em um tempo limitado. Nossa viagem foi de dezessete dias e conhecemos Lima, capital do Peru, onde chegamos no primeiro dia. Depois fomos para Arequipa, Cusco, voltamos a Lima, fomos à Machu Pichu, Puno e novamente a Lima. No Peru são duas horas a menos que no Brasil, então brincamos que "ganhamos" duas horas, mas quando retornamos "perdemos".
No aeroporto internacional de Lima há um rígido controle quanto a entrada e saída de alimentos no país. Logo percebemos grandes cães correndo e farejando entre os passageiros que transitavam por ali. Fomos recebidos por um simpático guia que falava pausadamente o espanhol e também o português. Ele nos explicou como seria nosso dia em Lima e nos deixou no hotel Casa Andina. Nosso quarto tinha apenas uma janela para o corredor, mas como não permanecemos nele, não fez diferença.
Não é possível fazer o checking antes das 13 horas e até antes das 14 horas em alguns hoteis,  então aproveitamos para almoçar num dos restaurantes próximos ao  hotel, o San Antonio, que oferece uma vasto cardápio de sanduiches e pratos quentes. Meus companheiros de viagem pediram uma espécie de sanduiche com carne, mas eu preferi uma salada reforçada,  com queijo de búfala, azeitonas pretas, tomate cereja, alface, croutons e algo que identifiquei como sendo inhame. Tudo acompanhado de cerveja (Cusquenha) a cerveja típica e amada do Peru.
Nosso deslocamento ao passeio foi feito por um microonibus com poucas pessoas em nosso grupo, o que facilitou o entrosamento e até a conversa com pessoas de outros lugares do planeta.
A primeira impressão do Peru nos foi dada em Lima. E também em Lima, como nas outras cidades que conhecemos, lembrei da música "a praça Castro Alves é do povo, como o céu é do avião". No Peru, a praça é do povo, em qualquer lugar , como veríamos posteriormente. Muita gente nas ruas,muita gente nas praças, conversando, namorando, protestando, trabalhando. Aliás, sobre isso, as mulheres que varrem a praça ou as ruas, usam uniforme, luvas e máscaras. Isso em todos os lugares do Peru, diferentemente dos nossos trabalhadores de rua aqui do Brasil. Conhecemos duas Lima, uma para os turistas, limpa, organizada, cosmopolita e outra do povo, não tão limpa, um tanto caótica. Mas isso acontece em todo lugar.
 A moeda no Peru é o Soles, sendo que um sole equivale aproximadamente a um real. Nas ruas vende-se e compra-se de tudo a preços acessíveis e variáveis, dependendo do que se quer comprar. À tarde, depois de uma paradinha rápida no quarto, fomos visitar alguns lugares históricos de Lima, como a orla marítima de Miraflores, que está sendo redesenhada para prevenir eventuais tsnunamis. As barreiras erguidas estão sendo cobertas gradativamente por vegetação. No subterrâneo dessas vias por onde passamos, estão áreas de lazer e restaurantes. O oceano Pacífico,nessa região, é bastante adequado à prática de surf, como pudemos observar inúmeros "pontinhos" na água.

Na zona urbana da cidade de Lima foram descobertos (e estão sempre sendo descobertos) sítios arqueológicos que o governo busca explorar e conservar. Esses sítios estão entre as casas. Ou as casas estão nos sítios? Enfim, pudemos observá-los, embora não tenhamos tido tempo para percorrê-los. Em seguida fomos conhecer o centro histórico de Lima, a Praça Maior, o palácio do Governo, Prefeitura, Catedral e a Praça San Martín de Porres. O convento e a igreja de São Francisco foi o que vimos de mais surpreendente, visto que é o maior conjunto de arte colonial na América e Patrimônio Cultural da Humanidade. De todos os aspectos históricos e religiosos, o que nos chamou mais a atenção foram as catacumbas subterrâneas, que são ao mesmo tempo alicerce da igreja e um grande cemitério. Quem era enterrado vivo nessas catacumbas (cujos esqueletos estão à mostra) deixaremos que os viajantes descubram pessoalmente.

Próximo lugar: Arequipa, para onde voamos as 2h30 da manhã.

Preço e valor

Preço e valor

Um dia desses entrei nessas lojas que a gente tem a sensação de ter que pagar só pra olhar, e perguntei para a gentil vendedora qual era o preço de um casaco, lindo, aliás. Ela repetiu minha pergunta. O valor? Ah, sim, o valor dele é 640.
Namorei o casaco mais uns segundos, agradeci e sai. Fiquei pensando na diferença entre preço e valor. Certamente há. Preço é o que se atribui monetariamente a um produto, considerando a sua valia e nessa atribuição entra custo da matéria prima, fabricação, transporte, venda, revenda, etc,etc,etc. Aliás, é por todos esses etcéteras que as coisas são caras para o consumidor. . Valor é algo muito maior, subjetivo, pode ser sentimental. Posso pagar 600 por um casaco, esse é o preço. O valor que ele terá para mim pode ser muito maior do esse preço ou menor. Um anel de bala pode ter um valor sentimental imenso se eu ganhei de minha filha, por exemplo. Embora o preço seja mínimo.
Mas, compreendo, que a vendedora deve ser orientada para enfatizar a palavra valor, em vez de preço, porque se o casaco passar a ter valor para mim, certamente eu não pensaria que o preço seria alto demais. Esse comércio cada vez mais esperto....!

sexta-feira, março 28, 2014

Theo e Catarina

Catarina já nasceu, mas seus pais só souberam que era uma menina quando ela veio à luz. Contrariando a ansiedade dos tios e avós, os pais de Catarina não queriam saber de que sexo o bebê seria. E nem descobrir ainda na barriga da mãe, com que se parecia. Sua mãe me disse que não queria saber porque esse era, ainda, um dos grandes prazeres da maternidade; a espera, o não saber, a expectativa, o sonho, o desejo. Catarina nasceu no hospital, em parto normal.
Theo ainda não nasceu, mas seus pais já sabem que será um menino. No entanto, seus pais querem que ele nasça em casa, no chamado parto humanizado. Sua mãe está com dificuldades junto ao plano de saúde, que não prevê parto em casa.
Tive três filhos de parto normal, amamentei os três. Mas foram partos traumáticos porque no hospital fiquei em uma "baia" separada de outras por meia parede, sozinha, ouvindo os gemidos, choros, gritos e sussurros de outras mães em trabalho de parto. Horas. Ninguém da minha família podia entrar. Não podia me comunicar com ninguém. Hoje isso me parece totalmente desumano.
Theo e Catarina são filhos de pais que estão na contramão da história. Que bom que eles tem coragem de lutar pelo que acreditam, seja pelo direito de não saber o sexo do filho antes dele nascer ou pelo direito de ter o seu filho em casa, com a família, com tranquilidade, com amor, como querem.

sábado, março 22, 2014

Salmo 16

Minha mãe tem uma vizinha que está com dificuldades financeiras, mas que não esteve um dia? Bateu à casa de minha mãe, entrou, sentou, perguntou se ela estava bem de saúde, algo normal a se perguntar a um vizinho, mesmo que não se queira saber de seu histórico médico. Minha mãe respondeu que estava bem, apenas com uma dorzinha no ombro. A vizinha prontificou-se a fazer uma massagem. E de lambuja, foi orando, porque na religião dela nao se reza ou se pede, se ora. Perguntou se minha mãe não sentia sua mão esquentando, ela disse que sim, estava, mais para agradar a vizinha. Ao terminar, ela disse a minha mãe que era dezesseis reais porque ela havia orado o salmo 16. Minha mãe ficou pasma e disse que não tinha nada de dinheiro em casa, ao que ela respondeu que não tinha importância, passaria na semana seguinte para cobrá-la. E passou, com recibo  e tudo, onde estava escrito "serviços prestados". Minha mãe pagou e agora tem medo de encontrar a vizinha e ela queira rezar o salmo 99.

Eu fiquei indignada e fui procurar o salmo 16, ora ver se havia alguma referência a fazer o bem, rezar por um vizinho e cobrar. Não há nada além de termos e expressões que devem ser interpretadas como : sorte, formosa herança, meus prazeres, alma no inferno, corrupção, etc,etc,etc.

Concluímos que a criatividade do ser humano é infindável. E a cara de pau, também.

segunda-feira, março 17, 2014

Vou de táxi (?)


Quando vou a Porto Alegre gosto de andar a pé,  caminhar pelas ruas, desbravar os labirintos do centro em direção à Cidade Baixa. Prefiro os domingos em que posso observar as fachadas dos prédios, as portas, janelas, sacadinhas, algo impossível em dias ensolarados em que a rua da Praia está repleta, parecendo um mar de gente.
Mas, quando não conhecemos o caminho,e a distância a percorrermos a pé é inviável ou se vamos a uma festa e queremos beber algo além de água mineral, uma alternativa é ir de táxi.  Tem até uma máxima que prega "se beber não dirija". Ou seja, vá (também) de táxi. Não precisamos nos preocupar em garimpar estacionamento nem em fazer um tratado de paz com o flanelinha. Simples, pegamos um táxi.
 Bem, minhas experiências com táxis em Porto Alegre tem sido um tanto bizarras. Mais de uma vez aconteceu de o taxista não conhecer o local onde eu queria ir e mesmo eu dando o endereço ele não sabia como chegar lá. Aí, ele me pergunta...vamos pela rua tal ou pela tal? E eu sei? Mas não digo que não sei, tento ser evasiva pra ele não saber que eu não sei. Mas pergunto aos meus botões, ele não deveria saber chegar lá, com gps e tudo? Tem os que voam, costurando pelo trânsito. Aí, tento colocar o cinto de segurança e não acho o engate...e procuro, enfio os dedos pra dentro do banco e nada. Aí, pergunto...moço, e o cinto? Ah, ninguém usa moça...(ainda bem que não me chama de tia)...e completa, eu também não gosto de usar, mas tenho que usar. Se ele errar a agulha, quero dizer o carro, bate! Ele está de cinto, e eu? Vou voar, com certeza.
 Também tem aquele que peguei na Casa de Cultura Mário Quintana pra ir até o restaurante Oriental. Eu poderia ter ido a pé, é perto, bem perto, mas eu não sabia. O taxista encontrou várias barreiras pelo caminho, várias tranqueiras. Lembrei até do poema do Drummond "tinha uma pedra no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma pedra". Passeatas, manifestações, encanamento de água estourado. Depois dos dezessete reais eu disse pra ele...quem sabe o senhor me deixa por aqui, vou indo a pé. E ele, a senhora que sabe, mas é muiiiito longe, vai demorar quase uma hora pra chegar lá...vamos por ali que é mais rápido. E assim foi, demorei  uns quarenta minutos pra chegar e vinte e cinco reais a corrida. Dava pra vir até Estrela!
Tem os conversadores, os que contam a vida, tem aquele que disse que é o mais velho taxista de Porto Alegre, que já tem 81 anos. Isso pode? Esse me contou que nunca bateu, mas uma mulher bateu na traseira do seu carro porque ficou olhando uma vitrine (dirigindo) e não parou. Não sei se foi piada machista dele ou se foi verdade. Tem o taxista com gps, tv, revistas e até água mineral para os clientes. E fala inglês. Desse eu peguei o cartão, mas como tem o ponto no aeroporto é difícil vir até a Cidade Baixa pra me levar para a rodoviária....hehehe
Tem os que contam a vida, a separação, os filhos rebeldes...tem os que são eruditos, tocam piano. Tem os limpos,perfumados, os arrumadinhos, os desarrumados, meio sujos, com cara de bandido. O último que peguei, pra ir do Praia de Belas até a Cidade Baixa estava com a mão direita quebrada, engessada. Ou seja, estava dirigindo só com a mão esquerda, mas conseguia fazer as mudanças de marcha com o polegar direito e até me mostrou como fazia a terceira. Ele logo foi se explicando, que havia quebrado a mão mas precisava trabalhar, pagar as faturas dos cartões. Que no dia anterior havia pago o cartão da C&A, da Renner. Que pagou 100 na Paquetá, um sapato que a mulher comprou. E foi falando, relatando as suas dívidas e suas dores. Que sabia que não podia dirigir com  uma mão só,mas que precisava pagar suas contas e  que de dia escondia a mão para baixo e à noite, mostrava, ninguém o proibiria de dirigir. Que o táxi era dele, que ia trabalhar até a meia noite, etc, etc,etc. A essa altura eu estava torcendo pra ele dirigir com a esquerda e quando tivesse que fazer mudança que seu polegar direito funcionasse.  
 Pegar táxi em Porto Alegre, no inverno, numa sexta feira, depois das 18 horas, é uma verdadeira aventura. E não for nada disso, ainda é uma aventura, não se sabe quem está atrás do volante. Uma coisa é certa, o melhor é sempre concordarmos com eles ou poderemos ter o mesmo fim que o taxista dava aos passageiros naquele filme com o Denzel Washington e a bela Angelina Jolie: o Colecionador de Ossos.


terça-feira, março 04, 2014

Se pedir sonhos, terá sonhos.

O namorado de uma amiga pediu que ela fizesse sonhos pra ele. E ela fez. Colocou a farinha sobre a mesa, abriu um buraco como se fosse construir um vulcão. Colocou àgua morna, pouco açúcar, fermento para pão. Amassou tudo muito bem até a massa ficar lisa. Enquanto amassava pensava no moço, certamente os bons pensamentos passariam boa energia à massa e dali surgiriam bons sonhos. Colocou um pano por cima e deixou descansando por uns quarenta minutos. Ele, de vez em quando, espiava na porta da cozinha e perguntava se ia demorar. Ela disse que não. Enquanto a massa crescia ela foi para a sala, sentou, assistiu tv com ele. Voltou pra cozinha, e ele perguntando se ia demorar. Ela separou a massa em pequenas bolinhas, cortou com um pires pequeno, colocou um pedacinho de goiabada, cobriu com outra rodela de massa. Quando estavam todos prontos, mais ou menos uns vinte sonhos, ela cobriu com um pano para que a massa crescesse novamente. Foi pra sala e viu que ele estava ansioso. Não, ainda não estão prontos, ela se antecipou. Voltou para a cozinha, viu que estavam todos gordinhos, aqueceu o azeite, fritou um a um, enquanto já ia passando no açúcar com canela. Coou um café e levou para a sala com uma pratada de doces sonhos. Ele, espantado, perguntou por que demorou tanto. Ela explicou, então, o processo todo de se fazer um sonho. Enquanto mordia um, distraidamente, ele disse ah, eu queria bolinho de chuva.

Moral da história: se pedir sonhos a uma mulher terá sonhos, se quiser menos do que isso peça bolinhos de chuva

Meus dias de Cinema Paradiso

Nos anos setenta tive meus dias de Cinema Paradiso. Eu tinha quatorze anos em 1974 e minha amiga Isabel Santa Catharina e eu íamos ao Cine Guarany,  em Caxias do Sul, onde o tio dela trabalhava como operador de máquinas. O seu Alcides nos deixava entrar sem pagar, para isso precisávamos estar bem ates do início da primeira sessão. Nesses momentos eu experimentava a magia de estar do outro lado, atrás daquele quadradinho por onde passava luz e a imagem era projetada na tela. Ali, eu via os rolos de filmes e grandes círculos de ferro que seu Alcides girava. E quando o filme arrebentava, e isso era comum, ele cortava, emendava e seguia adiante. Nunca imaginei que anos depois eu relembraria essas situações no filme Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore, 1988, mas que assisti somente por volta de 2004, já em casa, em fita vhs, porque cinemas já não existiam mais. Não me recordo em que ano o Guarany fechou, mas ali eu assisti a série de filmes-catástrofes, característicos nos anos 70: Inferno na Torre, Terremoto, Aeroporto, Tubarão, e também o aterrorizante O Exorcista. Lembro que na época o que mais se falava era no vômito verde da guria, o que nos lembrava abacate esmagado com açúcar, o que comíamos com frequência. Foi ali no Guarany que assisti A Estrela Sobe e tive contato pela primeira vez com Esses Moços, de Lupicínio Rodrigues. E foi ali, também, que assisti a ópera rock
 Tommy, com a banda The Who.  Eu gostei tanto que assisti mais de uma vez e comprei o álbum duplo de discos de vinil. Lembro que O Último Tango em Paris não foi exibido no Brasil, só no Uruguai que, aliás, continua sendo "ponta" nas liberações, tanto de filmes, quanto do divórcio e agora da maconha.

O cinema foi fechado, hoje poucos sabem que ali havia um cinema construído pelos moldes internacionais de cinema, em 1939. No seu lugar há um grande supermercado.

Seu Alcides foi passar filmes no céu há muitos anos, minha amiga Isabel não a vejo há um tempão. Lembrei de tudo isso hoje porque reencontrei no facebook dois filhos do seu Alcides, que não me reconheceram. 

Nostalgia, mas alegria por lembrar de uma história que certamente não foi só minha, mas de todos os frequentadores do Cine Guarany naqueles anos de calça boca de sino, reunião dançante na garagem de casa e filmes no escurinho do cinema.

domingo, março 02, 2014

Assassinato do português


Assassinato do português

Não, não é o assassinato do nosso amigo Magalhães, aquele das pizzas maravilhosas da André da Rocha, nem qualquer um de meus amigos que moram em Setúbal ou minha amiga de Guimarães. Todos são portugueses, nascidos em Portugal. Deus os livre de qualquer morte. 
O assassinato a que me refiro é o da língua portuguesa, que acontece cotidianamente por dois tipos de pessoas. Há aqueles que não tiveram a oportunidade de ir a escola ou que saíram muito cedo dela, não raro para trabalhar. Há os que moram no interior do interior onde a escola ainda não abunda, como diria meu querido e inesgotável Millôr. Esses escrevem nas placas de bares, de pequenas lojas, de barracas de praia "vende-ce rroupas uzadas...concertamos biscicletas,trocamos pesças velias por nova....proibida a entrada de bugres (bugs)....tapioca fazida na ora, queim não pediu, pida.....lanxes,  pasteu  de ciri, não estacione,sugeito a multa e guinxo...e por aí vai".
Não critico, não julgo, não condeno. 

E, nem, mas, porém, todavia, contudo, entretanto...o outro tipo de assassino da língua portuguesa, o letrado, o que até se esforça para sofisticar o uso da fala e da escrita, esse eu considero o criminoso de  colarinho branco. Esse foi à escola e muitas vezes faz escola. Esse é letrado, graduado e pós-graduado. E diz: "quero comprimentar a todos....seje bem vindo.....fulano devia ter trago um pedaço de bolo pra mim....(trago?!?).....a tua ideia vem DE encontro a minha.....concorda comigo.....! Houveram muitas pessoas.....

Pessoas que por uma ou outra razão não puderam estudar e não tem o domínio da língua materna é uma coisa, mas pessoas que deveriam dar o exemplo pois estão na ponta do dito "conhecimento" é outra. Situações diferentes.

Uma sugestão ao segundo grupo: desligar a tv e ler um livro. É um bom começo. Com cedilha.

Na praia

Praia lotadinha no feriado de carnaval. A água "chocolate" invade a areia cada vez mais, empurrando os banhistas com seus guarda-sóis, cadeiras e cuias de chimarrão para perto do calçadão. O sol ardente contrasta com o vento frio que sopra do sul. Minha concentração na leitura de "Todo homem é minha caça", do Millôr, é constantemente diminuída pelas conversas que giram ao redor, pelos outros grupos que disputam um pedaço de areia seca. Mesmo sem querer fico sabendo do caso da amiga com um " bonitão" de Osório, casado e que tem uma revenda de automóveis. Da colega invejosa que fica fazendo piadinhas toda segunda-feira. Do outro lado uma mulher jovem fala estridentemente sobre as propriedades bronzeadoras do vento. Tento me concentrar novamente na leitura e minha atenção vai para um homem que, em caminhada, para, volta-se para a imagem de Iemanjá, faz o sinal da Cruz, fica imóvel por alguns instantes e segue adiante. Vendedores de chapéus desafiam o vento carregando na cabeça uma pilha deles, como se a cada instante fossem levantar voo. Catracas barulhentas passam vendendo casquinhas, picolés, puxa-puxaaaa.....volta e meia passam moças vestidas de pirata fazendo propaganda de um novo condomínio na praia. Lago privativo, mar privativo, sol privativo? Deitada na areia vejo pés indo e vindo, muitos pés descalços, de havaianas. Do alto do oitavo andar vejo uma grande plantação de guarda-sóis de todas as cores. 
Na areia uma menininha  insiste em ficar "só mais cinco minutinhos, pai...e insiste, diante do chamado do pai, só mais cinco minutinhos".
Penso o que significa mais cinco minutinhos para uma criança. E lembro quando eu era menina ia até à praia me "despedir do mar" ao final das ferias de verão. Cinco minutinhos faziam diferença pra mim. 

domingo, janeiro 12, 2014

Mudança

Eu mudei, o blog mudou.

  • A Igualdade é Branca
  • A Fraternidade é Vermelha
  • A Liberdade é Azul
  • Blade Runner