sexta-feira, março 28, 2014

Theo e Catarina

Catarina já nasceu, mas seus pais só souberam que era uma menina quando ela veio à luz. Contrariando a ansiedade dos tios e avós, os pais de Catarina não queriam saber de que sexo o bebê seria. E nem descobrir ainda na barriga da mãe, com que se parecia. Sua mãe me disse que não queria saber porque esse era, ainda, um dos grandes prazeres da maternidade; a espera, o não saber, a expectativa, o sonho, o desejo. Catarina nasceu no hospital, em parto normal.
Theo ainda não nasceu, mas seus pais já sabem que será um menino. No entanto, seus pais querem que ele nasça em casa, no chamado parto humanizado. Sua mãe está com dificuldades junto ao plano de saúde, que não prevê parto em casa.
Tive três filhos de parto normal, amamentei os três. Mas foram partos traumáticos porque no hospital fiquei em uma "baia" separada de outras por meia parede, sozinha, ouvindo os gemidos, choros, gritos e sussurros de outras mães em trabalho de parto. Horas. Ninguém da minha família podia entrar. Não podia me comunicar com ninguém. Hoje isso me parece totalmente desumano.
Theo e Catarina são filhos de pais que estão na contramão da história. Que bom que eles tem coragem de lutar pelo que acreditam, seja pelo direito de não saber o sexo do filho antes dele nascer ou pelo direito de ter o seu filho em casa, com a família, com tranquilidade, com amor, como querem.

sábado, março 22, 2014

Salmo 16

Minha mãe tem uma vizinha que está com dificuldades financeiras, mas que não esteve um dia? Bateu à casa de minha mãe, entrou, sentou, perguntou se ela estava bem de saúde, algo normal a se perguntar a um vizinho, mesmo que não se queira saber de seu histórico médico. Minha mãe respondeu que estava bem, apenas com uma dorzinha no ombro. A vizinha prontificou-se a fazer uma massagem. E de lambuja, foi orando, porque na religião dela nao se reza ou se pede, se ora. Perguntou se minha mãe não sentia sua mão esquentando, ela disse que sim, estava, mais para agradar a vizinha. Ao terminar, ela disse a minha mãe que era dezesseis reais porque ela havia orado o salmo 16. Minha mãe ficou pasma e disse que não tinha nada de dinheiro em casa, ao que ela respondeu que não tinha importância, passaria na semana seguinte para cobrá-la. E passou, com recibo  e tudo, onde estava escrito "serviços prestados". Minha mãe pagou e agora tem medo de encontrar a vizinha e ela queira rezar o salmo 99.

Eu fiquei indignada e fui procurar o salmo 16, ora ver se havia alguma referência a fazer o bem, rezar por um vizinho e cobrar. Não há nada além de termos e expressões que devem ser interpretadas como : sorte, formosa herança, meus prazeres, alma no inferno, corrupção, etc,etc,etc.

Concluímos que a criatividade do ser humano é infindável. E a cara de pau, também.

segunda-feira, março 17, 2014

Vou de táxi (?)


Quando vou a Porto Alegre gosto de andar a pé,  caminhar pelas ruas, desbravar os labirintos do centro em direção à Cidade Baixa. Prefiro os domingos em que posso observar as fachadas dos prédios, as portas, janelas, sacadinhas, algo impossível em dias ensolarados em que a rua da Praia está repleta, parecendo um mar de gente.
Mas, quando não conhecemos o caminho,e a distância a percorrermos a pé é inviável ou se vamos a uma festa e queremos beber algo além de água mineral, uma alternativa é ir de táxi.  Tem até uma máxima que prega "se beber não dirija". Ou seja, vá (também) de táxi. Não precisamos nos preocupar em garimpar estacionamento nem em fazer um tratado de paz com o flanelinha. Simples, pegamos um táxi.
 Bem, minhas experiências com táxis em Porto Alegre tem sido um tanto bizarras. Mais de uma vez aconteceu de o taxista não conhecer o local onde eu queria ir e mesmo eu dando o endereço ele não sabia como chegar lá. Aí, ele me pergunta...vamos pela rua tal ou pela tal? E eu sei? Mas não digo que não sei, tento ser evasiva pra ele não saber que eu não sei. Mas pergunto aos meus botões, ele não deveria saber chegar lá, com gps e tudo? Tem os que voam, costurando pelo trânsito. Aí, tento colocar o cinto de segurança e não acho o engate...e procuro, enfio os dedos pra dentro do banco e nada. Aí, pergunto...moço, e o cinto? Ah, ninguém usa moça...(ainda bem que não me chama de tia)...e completa, eu também não gosto de usar, mas tenho que usar. Se ele errar a agulha, quero dizer o carro, bate! Ele está de cinto, e eu? Vou voar, com certeza.
 Também tem aquele que peguei na Casa de Cultura Mário Quintana pra ir até o restaurante Oriental. Eu poderia ter ido a pé, é perto, bem perto, mas eu não sabia. O taxista encontrou várias barreiras pelo caminho, várias tranqueiras. Lembrei até do poema do Drummond "tinha uma pedra no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma pedra". Passeatas, manifestações, encanamento de água estourado. Depois dos dezessete reais eu disse pra ele...quem sabe o senhor me deixa por aqui, vou indo a pé. E ele, a senhora que sabe, mas é muiiiito longe, vai demorar quase uma hora pra chegar lá...vamos por ali que é mais rápido. E assim foi, demorei  uns quarenta minutos pra chegar e vinte e cinco reais a corrida. Dava pra vir até Estrela!
Tem os conversadores, os que contam a vida, tem aquele que disse que é o mais velho taxista de Porto Alegre, que já tem 81 anos. Isso pode? Esse me contou que nunca bateu, mas uma mulher bateu na traseira do seu carro porque ficou olhando uma vitrine (dirigindo) e não parou. Não sei se foi piada machista dele ou se foi verdade. Tem o taxista com gps, tv, revistas e até água mineral para os clientes. E fala inglês. Desse eu peguei o cartão, mas como tem o ponto no aeroporto é difícil vir até a Cidade Baixa pra me levar para a rodoviária....hehehe
Tem os que contam a vida, a separação, os filhos rebeldes...tem os que são eruditos, tocam piano. Tem os limpos,perfumados, os arrumadinhos, os desarrumados, meio sujos, com cara de bandido. O último que peguei, pra ir do Praia de Belas até a Cidade Baixa estava com a mão direita quebrada, engessada. Ou seja, estava dirigindo só com a mão esquerda, mas conseguia fazer as mudanças de marcha com o polegar direito e até me mostrou como fazia a terceira. Ele logo foi se explicando, que havia quebrado a mão mas precisava trabalhar, pagar as faturas dos cartões. Que no dia anterior havia pago o cartão da C&A, da Renner. Que pagou 100 na Paquetá, um sapato que a mulher comprou. E foi falando, relatando as suas dívidas e suas dores. Que sabia que não podia dirigir com  uma mão só,mas que precisava pagar suas contas e  que de dia escondia a mão para baixo e à noite, mostrava, ninguém o proibiria de dirigir. Que o táxi era dele, que ia trabalhar até a meia noite, etc, etc,etc. A essa altura eu estava torcendo pra ele dirigir com a esquerda e quando tivesse que fazer mudança que seu polegar direito funcionasse.  
 Pegar táxi em Porto Alegre, no inverno, numa sexta feira, depois das 18 horas, é uma verdadeira aventura. E não for nada disso, ainda é uma aventura, não se sabe quem está atrás do volante. Uma coisa é certa, o melhor é sempre concordarmos com eles ou poderemos ter o mesmo fim que o taxista dava aos passageiros naquele filme com o Denzel Washington e a bela Angelina Jolie: o Colecionador de Ossos.


terça-feira, março 04, 2014

Se pedir sonhos, terá sonhos.

O namorado de uma amiga pediu que ela fizesse sonhos pra ele. E ela fez. Colocou a farinha sobre a mesa, abriu um buraco como se fosse construir um vulcão. Colocou àgua morna, pouco açúcar, fermento para pão. Amassou tudo muito bem até a massa ficar lisa. Enquanto amassava pensava no moço, certamente os bons pensamentos passariam boa energia à massa e dali surgiriam bons sonhos. Colocou um pano por cima e deixou descansando por uns quarenta minutos. Ele, de vez em quando, espiava na porta da cozinha e perguntava se ia demorar. Ela disse que não. Enquanto a massa crescia ela foi para a sala, sentou, assistiu tv com ele. Voltou pra cozinha, e ele perguntando se ia demorar. Ela separou a massa em pequenas bolinhas, cortou com um pires pequeno, colocou um pedacinho de goiabada, cobriu com outra rodela de massa. Quando estavam todos prontos, mais ou menos uns vinte sonhos, ela cobriu com um pano para que a massa crescesse novamente. Foi pra sala e viu que ele estava ansioso. Não, ainda não estão prontos, ela se antecipou. Voltou para a cozinha, viu que estavam todos gordinhos, aqueceu o azeite, fritou um a um, enquanto já ia passando no açúcar com canela. Coou um café e levou para a sala com uma pratada de doces sonhos. Ele, espantado, perguntou por que demorou tanto. Ela explicou, então, o processo todo de se fazer um sonho. Enquanto mordia um, distraidamente, ele disse ah, eu queria bolinho de chuva.

Moral da história: se pedir sonhos a uma mulher terá sonhos, se quiser menos do que isso peça bolinhos de chuva

Meus dias de Cinema Paradiso

Nos anos setenta tive meus dias de Cinema Paradiso. Eu tinha quatorze anos em 1974 e minha amiga Isabel Santa Catharina e eu íamos ao Cine Guarany,  em Caxias do Sul, onde o tio dela trabalhava como operador de máquinas. O seu Alcides nos deixava entrar sem pagar, para isso precisávamos estar bem ates do início da primeira sessão. Nesses momentos eu experimentava a magia de estar do outro lado, atrás daquele quadradinho por onde passava luz e a imagem era projetada na tela. Ali, eu via os rolos de filmes e grandes círculos de ferro que seu Alcides girava. E quando o filme arrebentava, e isso era comum, ele cortava, emendava e seguia adiante. Nunca imaginei que anos depois eu relembraria essas situações no filme Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore, 1988, mas que assisti somente por volta de 2004, já em casa, em fita vhs, porque cinemas já não existiam mais. Não me recordo em que ano o Guarany fechou, mas ali eu assisti a série de filmes-catástrofes, característicos nos anos 70: Inferno na Torre, Terremoto, Aeroporto, Tubarão, e também o aterrorizante O Exorcista. Lembro que na época o que mais se falava era no vômito verde da guria, o que nos lembrava abacate esmagado com açúcar, o que comíamos com frequência. Foi ali no Guarany que assisti A Estrela Sobe e tive contato pela primeira vez com Esses Moços, de Lupicínio Rodrigues. E foi ali, também, que assisti a ópera rock
 Tommy, com a banda The Who.  Eu gostei tanto que assisti mais de uma vez e comprei o álbum duplo de discos de vinil. Lembro que O Último Tango em Paris não foi exibido no Brasil, só no Uruguai que, aliás, continua sendo "ponta" nas liberações, tanto de filmes, quanto do divórcio e agora da maconha.

O cinema foi fechado, hoje poucos sabem que ali havia um cinema construído pelos moldes internacionais de cinema, em 1939. No seu lugar há um grande supermercado.

Seu Alcides foi passar filmes no céu há muitos anos, minha amiga Isabel não a vejo há um tempão. Lembrei de tudo isso hoje porque reencontrei no facebook dois filhos do seu Alcides, que não me reconheceram. 

Nostalgia, mas alegria por lembrar de uma história que certamente não foi só minha, mas de todos os frequentadores do Cine Guarany naqueles anos de calça boca de sino, reunião dançante na garagem de casa e filmes no escurinho do cinema.

domingo, março 02, 2014

Assassinato do português


Assassinato do português

Não, não é o assassinato do nosso amigo Magalhães, aquele das pizzas maravilhosas da André da Rocha, nem qualquer um de meus amigos que moram em Setúbal ou minha amiga de Guimarães. Todos são portugueses, nascidos em Portugal. Deus os livre de qualquer morte. 
O assassinato a que me refiro é o da língua portuguesa, que acontece cotidianamente por dois tipos de pessoas. Há aqueles que não tiveram a oportunidade de ir a escola ou que saíram muito cedo dela, não raro para trabalhar. Há os que moram no interior do interior onde a escola ainda não abunda, como diria meu querido e inesgotável Millôr. Esses escrevem nas placas de bares, de pequenas lojas, de barracas de praia "vende-ce rroupas uzadas...concertamos biscicletas,trocamos pesças velias por nova....proibida a entrada de bugres (bugs)....tapioca fazida na ora, queim não pediu, pida.....lanxes,  pasteu  de ciri, não estacione,sugeito a multa e guinxo...e por aí vai".
Não critico, não julgo, não condeno. 

E, nem, mas, porém, todavia, contudo, entretanto...o outro tipo de assassino da língua portuguesa, o letrado, o que até se esforça para sofisticar o uso da fala e da escrita, esse eu considero o criminoso de  colarinho branco. Esse foi à escola e muitas vezes faz escola. Esse é letrado, graduado e pós-graduado. E diz: "quero comprimentar a todos....seje bem vindo.....fulano devia ter trago um pedaço de bolo pra mim....(trago?!?).....a tua ideia vem DE encontro a minha.....concorda comigo.....! Houveram muitas pessoas.....

Pessoas que por uma ou outra razão não puderam estudar e não tem o domínio da língua materna é uma coisa, mas pessoas que deveriam dar o exemplo pois estão na ponta do dito "conhecimento" é outra. Situações diferentes.

Uma sugestão ao segundo grupo: desligar a tv e ler um livro. É um bom começo. Com cedilha.

Na praia

Praia lotadinha no feriado de carnaval. A água "chocolate" invade a areia cada vez mais, empurrando os banhistas com seus guarda-sóis, cadeiras e cuias de chimarrão para perto do calçadão. O sol ardente contrasta com o vento frio que sopra do sul. Minha concentração na leitura de "Todo homem é minha caça", do Millôr, é constantemente diminuída pelas conversas que giram ao redor, pelos outros grupos que disputam um pedaço de areia seca. Mesmo sem querer fico sabendo do caso da amiga com um " bonitão" de Osório, casado e que tem uma revenda de automóveis. Da colega invejosa que fica fazendo piadinhas toda segunda-feira. Do outro lado uma mulher jovem fala estridentemente sobre as propriedades bronzeadoras do vento. Tento me concentrar novamente na leitura e minha atenção vai para um homem que, em caminhada, para, volta-se para a imagem de Iemanjá, faz o sinal da Cruz, fica imóvel por alguns instantes e segue adiante. Vendedores de chapéus desafiam o vento carregando na cabeça uma pilha deles, como se a cada instante fossem levantar voo. Catracas barulhentas passam vendendo casquinhas, picolés, puxa-puxaaaa.....volta e meia passam moças vestidas de pirata fazendo propaganda de um novo condomínio na praia. Lago privativo, mar privativo, sol privativo? Deitada na areia vejo pés indo e vindo, muitos pés descalços, de havaianas. Do alto do oitavo andar vejo uma grande plantação de guarda-sóis de todas as cores. 
Na areia uma menininha  insiste em ficar "só mais cinco minutinhos, pai...e insiste, diante do chamado do pai, só mais cinco minutinhos".
Penso o que significa mais cinco minutinhos para uma criança. E lembro quando eu era menina ia até à praia me "despedir do mar" ao final das ferias de verão. Cinco minutinhos faziam diferença pra mim. 

  • A Igualdade é Branca
  • A Fraternidade é Vermelha
  • A Liberdade é Azul
  • Blade Runner