quarta-feira, dezembro 16, 2015

Eli Hugo Russin Virgulino

Eli  Hugo Russin Virgulino, menino,
nasceu no interior do Pará, numa das regiões mais pobres, desabastecimento de quase tudo. Falta energia elétrica e consequentemente não há água encanada. Isso não é nada se houver água limpa na igarapé, mas em época de estio, também a água fica minguada. A estrada de chão se estende e se encomprida como uma serpente empoeirada e cheia de calombos. Do que era a mata só se veem árvores queimadas, retorcidas, fumegantes. A fumaça densa esconde o sol, as nuvens, o céu. Ao meio dia, ele surge alaranjado, filtrado por camadas e camadas de fumaça. A terra se ressente e não dá mais do que alguns pés de mandioca, suficiente para fazer a farinha que será misturado ao caldo ralo do feijão. Quando tem. Mas as árvores, as mesmas que estão sendo queimadas parecendo um genocídio em massa, dão as mangas suculentas que caem em ramos quase até o chão, ao alcance da mão. Mangas, açaí, pupunha, jambolão, banana.  Apesar disso, muitas crianças, os ossos apontando sob a pele encarquilhada pela terra amarelenta.
Quando passa um carro na estrada, nem se incomodam com a nuvem de terra que se levanta como que para protestar pelo desassossego. Espicham a cabeça e os olhos indagam curiosos.
Sem brinquedos, uma lata vira um carrinho que amarrada a uma corda é puxado de lá para cá. Andam quilômetros até a escolinha da vila, tão acanhada quanto eles. Se forem picados por cobra ou escorpião, tão comum no lugar, ou se tiverem uma dor de barriga, febre, dependem da generosidade dos poucos que tem carro para levá-los à cidade em busca de assistência. As famílias que tem uma moto ou bicicleta, e são muitos, levam toda a família engarupados. Criança na frente,pai, mãe com bebê no colo e um maiorzinho atrás. E vão felizes porque a distância se encurta assim. Nessa terra de ninguém e de todo mundo, às vezes a felicidade está simplesmente no orgulho de ter um filho varão e colocar nele um nome especial: Eli Hugo Russin Virgulino.


sábado, dezembro 12, 2015

Angélica

Angélica me contou que foi chamada ao hospital pra ver seu irmão, hospitalizado. Lá chegando, ele disse "Angélica, vou precisar de um empréstimo." já se desculpando com o olhar. Quinhentos, talvez setecentos. A mulher dele falou, ele precisará de fraldas também, Angélica, já que não poderá sair da cama. Angélica voltou pra casa pensando nos setecentos e mais as fraldas que teria que comprar para seu irmão.
No dia seguinte, recebeu o telefonema que não precisaria mais emprestar os setecentos e nem comprar as fraldas. Mas como, ela já havia comprado...e agora? Faria o que com as fraldas?
Angélica lamentou, além de ter que doar as fraldas teria que desembolsar mais do que setecentos para ajudar a comprar o caixão do seu único irmão

quinta-feira, dezembro 10, 2015

Dona Severina

Dona Severina escrevia poesias para o filho com uma letra desenhada à lápis. Falava de amor eterno, de anjos, de desejos de felicidade. Quando ele cresceu, saiu de casa e suas asas voaram por conta própria ela mudou o tom e o sentido das palavras. E quando o anjo acomodou-se em frente a uma televisão na companhia do  Faustão e começou a beber diariamente, a mãe não quis mais saber dele. Que fique na sarjeta, ela disse. Dona Severina morreu dois anos depois, de câncer no intestino e ele, agora, de cirrose.

sábado, outubro 24, 2015

Viagem à Portugal - Casamento em Évora

Ainda em Évora presenciamos um casamento diferente do que costumamos ver por aqui. A noiva arrumada de forma simples, a igreja mesclada de parentes e turistas. As fotografias confundiam-se. Depois (de muito tempo) foram para a praça tirar mais fotos. Ocorreu-me ser uma tradicional família portuguesa.



Série: Viagem a Portugal - Roda de Expostos em Évora


Fundo: Câmara Municipal de Évora Secção: Saúde e Assistência 1. Descrição ao nível da Série 1.1 - IDENTIFICAÇÃO - Código de Referência PT/AMEVR/CME/P - Título Saúde e Assistência - Data 1882-1970 - Nível da Descrição Série (SR) - Dimensão e suporte 103 u.i. (1 lv. + 102 cxs.); 10,5 m.l; papel 1.2 - CONTEXTO - Produtor Câmara Municipal de Évora - História Administrativa A Roda dos Expostos criada em Portugal desde a Idade Média e por toda a Europa devido ao grande número de crianças abandonadas, normalmente nas portas das igrejas e conventos, servia para que as mães deixassem os filhos, supostamente, em mãos seguras, sem serem identificadas. Numa época marcada pela carestia de vida, por uma forte religiosidade, por muitos casos de infanticídio e elevadas taxas de mortalidade infantil, a Roda dos Expostos pareceu ser a solução procurada por muitos cidadãos. A partir do século XVI, segundo Sá (1993), oficializou-se a competência das autoridades locais em matéria de assistência aos expostos, sendo a criação destes financiada pelas Câmaras Municipais, conforme estipulado nas Ordenações Manuelinas. De acordo com o anterior autor, nos séculos XVI e XVII, algumas câmaras transferiram a assistência aos expostos para as Misericórdias, continuando, no entanto, a subsidiá-las. A monarquia procurou ainda criar incentivos à criação de expostos, concedendo privilégios às amas de leite e suas famílias. No século XVIII, assiste-se a uma reorganização da assistência aos expostos, através do esforço da criação de casas de expostos. Por” Ordem emanada a 24 de Maio de 1783 pela Intendência Geral da Policia, dirigida por Pina Manique, ordenou que todas as vilas onde não existissem instituições destinadas ao acolhimento dos expostos, fosse instalada uma casa munida de roda” (Lopes, 2010). Por decreto de 19 de Setembro de 1836, “a despeza das rodas, e criação dos Expostos será feita por Districtos Administrativos á custa de todas as Municipalidades de que cada um delles se compõe” e cessa a “competência que em algumas terras do Reino estava incumbida ás Santas Casas de Misericórdias a respeito de Expostos”. Através de toda a nossa história regista-se um considerável esforço no sentido de dar satisfação aos anseios da sensibilidade humana, multiplicando-se as fundações, e instituições beneficientes. Para além das soluções encontradas para os expostos, outros grupos de carenciados foram alvo de atenção, pelo que, junto dos mosteiros, havia hospitais e albergarias para recolher pobres e peregrinos. Eram milhares os que viviam da sopa dos conventos e da esmola dos bispos. Paralelamente, desenvolvia-se na ordem legislativa a acção destinada a reprimir a mendicidade. A partir de D. Afonso IV sucedem-se as providências dessa natureza, em leis avulsas e nas ordenações. Assim, com o D.L.36448 de 1 de Agosto de 1947 constrói-se um sistema de medidas de assistência aplicáveis à mendicidade, em que, segundo o nº III, art.º19º, compete às comissões municipais e paroquiais de assistência “coordenar os serviços de assistência aos indigentes que tenham domicílio de socorro na respectiva área”, “promover o internamento em hospícios, asilos…” e “ organizar, conservar e rever anualmente o recenseamento dos indigentes na respectiva área.” Em relação à assistência hospitalar prestada pelos municípios aos doentes pobres e indigentes, segundo o art.º 21º do D. L. 39805 de 4 de Setembro de 1954, “os encargos com os transportes e internamento dos doentes pobres e indigentes, constituem despesa obrigatória dos municípios”. Assim, a responsabilidade que até aqui era dividida pelas Misericórdias, pelo Estado e pelas Câmaras Municipais, passa para os Municípios.



domingo, agosto 02, 2015

Para sempre Pedro


Para sempre Pedro

Recentemente vi o filme Para sempre Alice e entrei em conflito com minhas falhas e ausências de memória. Perco chaves, canetas, cartão do banco.Esqueço compromissos, nomes de pessoas. Rotina e agenda tem ajudado, mas enquanto ia assistindo o filme altamente impactante pensava que muitas coisas se aplicavam a mim, tipo acordar depois de  um cochilo e não saber onde estava, ir numa parte da casa e não saber o que estava buscando ou o que queria fazer.  No dia seguinte ao filme parecia que estava esquecendo mais as coisas do que antes e cheguei a perguntar a minha filha se ela notava algo diferente em mim porque estava me sentindo meio Alice. Ela logo perguntou se eu havia assistido o filme. Enfim, não, não estou tendo sintomas do "mal de alzheimer", mas que deu um medo, deu. Por isso, quando encontrei o Seu Pedro, às margens do Guaíba, em Barra do Ribeiro, logo lembrei de Alice. Seu Pedro estava andando calmamente com sua cachorrinha Belinha. Perguntei a ele sobre uma chaminé próxima e ele explicou que era de uma antigo engenho de arroz. Explicou também que as manchas amarelas na água eram óleo de cozinha e que queria pedir a alguém que ligasse para a CORSAN, porque havia estourado um cano de água perto dali, há vários dias. Depois que ele se foi, comentei com o pessoal que estávamos visitando e eles riram, disseram que Seu Pedro era um querido amigo e que tinha alzheimer, que provavelmente o cano a que ele se referia já havia sido consertado há muito e que ele esquecia. Perguntei se ele não estaria um tanto carente de atenção, talvez, algo comum em pessoas idosas. Não, disseram, ele não é muito bom da cabeça, mas um dia fora um pescador e vivia da pesca ali no lago Guaíba. Não pude deixar de imaginar Seu Pedro menino, jovem, corajoso enfrentando as águas em tempo de inverno gaúcho. Nesse momento, ao largo, passava  uma senhorinha calmamente num stand up. Pude observar e me disseram que era mãe de um amigo comum e que sim, era uma senhora de certa idade.

O pensamento de que a velhice pode se apresentar de maneira totalmente diversa para um e outro logo despertou minha curiosidade. Seu Pedro, de bengala, com alzheimer, sua memória se esvaindo como se fosse água na areia. A senhora de cabelos brancos, talvez da mesma idade que ele, exercitando equilíbrio e tranquilidade sob uma prancha. Provavelmente também navega na internet e brinca com os netos. O que diferencia um e outro? Tão perto e ao mesmo tempo tão distantes. 

domingo, julho 26, 2015

Desaprendi

Não sei mais escrever.

terça-feira, maio 05, 2015

Os sinais

Sinais. Ao longo do caminho ouvi falar nos sinais e que devemos estar de olhos e ouvidos abertos para percebê-los. Penso que a atribulação do dia a dia e o esforço pela sobrevivência talvez não deixe espaço para a observação e a consciência desses sinais. Pois ontem tive uma tomada de consciência que assemelhou-se a um clarão de luz. É como se de repente todas (ou quase todas) as questões existências clareassem para mim.
O local
Água quente e limpa. Eu estava numa piscina de água quente e limpa, transparente, quase só. Na piscina ao lado, meia centena de velhinhos entre sessenta e oitenta e cinco anos. Os homens conversavam entre si discretamente. As mulheres contavam piadas, gargalhavam e de repente começaram a entoar cantigas de roda da infância e a literalmente rodar dentro da água. Se fora da água eram sisudas, cabisbaixas, na água se transformaram, eram meninas de novo.

Ioga Nidra
Tenho sentido dificuldades em adormecer em função da menopausa, entre outras coisas. Minha filha Lu indicou a Ioga Nidra, que consiste basicamente em relaxar profundamente. Liguei o tablet e sintonizei no youtube. Fiquei ouvindo o voz suave do condutor do processo e uma das coisas que lembro é "entregue-se ao universo, faça parte dele". Adormeci, mas ao mesmo tempo despertei.

O efêmero
Assisti a pedaços de um programa sobre religiões em que um rabino falou sobre a natureza e as diferentes formas que podemos vê-la. A natureza como perfeita, não necessitando de intervenção. Natureza das coisas, dos seres. Nesse sentido, sinto que nós afastamos tanto da natureza que nem sabemos mais quem somos.
Aspirando o perfume de uma pequena rosa, observando a efemeridade das borboletas, pensando na amiga que está para deixar esse mundo a qualquer momento, de repente, com rapidez; penso na transitoriedade das coisas humanas. Pensei nas velhinhas cantando e dançando na água, na morte das minhas amigas por câncer, nas pequenas rosinhas e nas borboletas amarelas que vejo daqui, enquanto escrevo, e me deu conta que a vida flui, anda, é finita.

E, finalmente, aquilo que já ouvi muito é que soava como um chavão: o que passou passou e o futuro a Deus pertence.

O tempo
O melhor momento é o agora, mesmo.  O que passou não posso mudar. O futuro é uma incógnita....e nunca fui boa em matemática.

As pessoas
Filhos, mãe, irmãos, amigos, pessoas que conhecemos e que passam por nossa vida tem importância única. Cada um à sua maneira, para o bem ou para o mal, cumprem o seu papel e precisamos estar abertos e atentos ao seu significado.

Desapego
Esse é um exercício que preciso praticar mais e mais.

Gratidão
Percebi que sou grata ao momento,às pessoas que estão próximas de mim, que fazem parte da minha vida, mas que não sou dona do afeto delas é que elas não me pertencem. Descobri que não estou nesse planeta por acaso, que preciso aprender cada vez mais e evoluir.

Desejo para mim:
Alegria
Bom humor
Desapego
Leveza
...e saúde física para viver muito tempo por aqui.

Percebo os sinais e tenho consciência deles. Não li nenhum livro de auto-ajuda, apenas abri os olhos e os ouvidos  à vida.




domingo, fevereiro 01, 2015

O HOMEM SEM JANELA
Uns fecham portadas
e se encerram na paisagem.
Outros habitam quimeras,
extintos magmas interiores.
Eu vivo apenas fora de mim.
De longe
me chegam palavras
e nenhuma cabe
no oco da minha māo
Apenas de outros me faço eu.
Espreito a rua
e, através de mim,
nāo vejo senāo gente
que nasce sem sonhos e vive sem vida.
Sou o homem sem janela:
o mundo está sempre do lado de cá.
A meu lado nāo mora ninguém:
meus vizinhos
habitam todos dentro de mim.
Ao fim da tarde
porém, o céu se curva
para afagar o meu teto.
Em redondo dorso de cāo,
a meus pés se enrosca a solidāo.
É entāo que chegas,
e eu, enfim, regresso
para dentro de minhas paredes.
Só entāo tenho janela.
Mia Couto, em Tradutor de Chuvas.

quinta-feira, janeiro 22, 2015

O Tempo

O Tempo

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.


.............o tempo perguntou ao tempo qual é o tempo que o tempo tem...o tempo respondeu ao tempo que o tempo não tem tempo....para ninguém.

Tenho pensado muitas vezes nesse belo poema do Mario Quintana. Talvez porque cheguei naquela fase da vida, depois de trabalhar ininterruptamente por mais de trinta e anos, e ter o tal tempo para mim, para desfrutar e fazer muito do que realmente gosto, talvez por isso, eu tenha pensado muito no tempo. Nesse tempo de hoje e no tempo que passou. Mas talvez, também, porque olho meu rosto no espelho e veja que nele ficaram as marcas do caminho, do que vivi, do tempo.
Alguns acontecimentos ou ficção, como a cena do beijo no filme Anahy de Las Misiones (Araci Esteves) e a personagem de Paulo José (não lembro o nome). Eles se reencontram depois de muito
tempo e sentem vontade de trocar um beijo, agora na maturidade. Ela diz a ele que o beijo tem um
gosto amargo, não é mais como o beijo de amor que trocavam na juventude. A cena é inesquecível. O beijo estava amargo ou eles estavam mudados?
Cenas, textos, pessoas, lembranças, fazem com que o tempo venha e vá na minha cabeça. Ultimamente senti desejo de rever pessoas que não via há muitos anos. Procurei uma amiga de infância. Ela ficou surpresa e feliz em me rever. Como sempre, pareceu que nossa conversa fora interrompida no dia anterior. Nos abraçamos, conversamos, falamos dos filhos, das pessoas em comum e nos despedimos.mela,medindo que eu entrasse em contato de novo quando viesse a Caxias; eu, pedindo que ela escrevesse, mandasse fotos dos filhos, respondesse emails, o que ela não fez, explicou que é avessa à internet. Não tem face, instauram, face time, messenger....criaram email pra ela, mas não usa. Celular usa muito pouco. Não a procurei mais. E não vou procurar.
Passeando por Caxias, onde vivi minha adolescência, percebo que muitas casas não existem mais, prédios foram erguidos, outros modificados. Uma loja tradicional em que eu gostava de comprar perdeu a característica e o charme e está sendo vendida aos pedaços. Uma riachinho onde um moço apareceu morto certa manha, há trinta anos, foi canalizado. Quem lembra disso?
A cidade é feita de retalhos, de histórias. Retalhos que se juntam, se costuram, se misturam e vão deixando marcas que vão sendo substituídas por outras, como se fossem as várias camadas de cascas de feridas.
Aí, lembro do Ushuaia, dos nativos canoeiros, dos bárbaros, dos gaúchos, dos nossos habitantes aqui do sul, os kaingangs, os charruas, os guaranis....lembro das pontas de flechas, das pedras....e penso em quão insignificante sou eu. E, basicamente, estou aqui de passagem, sou apenas mais um ser no universo.

Duas e onze (cadê o sono)?

segunda-feira, janeiro 05, 2015

Os três momentos (meus) e de Saramago.


Amo Saramago. Não é paixão, porque essa é passageira, amor é manso, é calmo, é para sempre. Amo de um calmo amor prestante, como amigo e como amante...ops, esse é Vinícius. Enfim amo a literatura dele, o que escreve, o que descreve. Ainda e sempre, lembro do cão Achado, de A Caverna. Agora estou lendo A bagagem do viajante, impressões do dia a dia. E ele fala em três momentos em que poderia pensar e escrever. O primeiro, um momento em que estará vivo. O segundo, um momento em que provavelmente ainda estará vivo. E o terceiro momento é um em que dificilmente estará vivo. Ele não está mais vivo, então, hoje escrevo sobre ele e sobre o que ele escreveu. Quem sabe um dia alguém lê o que escrevo agora e também não estarei mais aqui e essa pessoa também pensará sobre isso. Fiquei refletindo sobre essa ideia, a dos momentos prováveis e improváveis de estarmos ainda nesse planeta.
Um momento em que ainda estarei viva: Daqui a dez anos. Estarei com sessenta e cinco anos, rosto envelhecido, eterna barrigudinha, cabelos mais brancos e ralos. Talvez já tenha feito cirurgia na pálpebra, porque estará difícil enxergar com ela caída sobre o olho. Talvez minhas dores nas costas tenham aumentado muito e eu não faça mais academia. Ou talvez faça, mas caminhando devagar e fazendo exercícios conforme minha condição física. Meu filho terá 44 e certamente terá alcançado todo o sucesso que merece, talvez eu já tenha um neto. Provavelmente estará morando em outro lugar, longe daqui, com a Juliana. Minha filha do meio terá 40 e talvez esteja estabilizada em um emprego, talvez dirigindo seu carro, talvez tenha terminado doutorado e esteja trabalhando numa universidade. Minha filha menor terá 35, certamente terminou a faculdade e está trabalhando em algo que goste e que dê retorno a ela. Provavelmente não estarão morando no mesmo lugar onde moram hoje. Minha mãe terá 81.
Um momento em que provavelmente ainda estarei viva: daqui a vinte anos. Terei setenta e cinco anos, andarei bem mais devagar, tudo será mais difícil, me abaixar, dirigir. Não terei mais os mesmos reflexos. Subir escadas estará difícil para mim. Estarei muito enrugadinha e quem sabe será momento de não pintar mais os cabelos, deixá-los branquinhos de vez. Mas curtos. Provavelmente tomarei muitos remédios, o que agora não acontece. Será que ainda farei fotos? Talvez, mas em menor quantidade e com mais qualidade. E meus filhos, minha mãe? Não quero pensar sobre isso.
E o último momento, em que provavelmente não estarei mais por aqui, é daqui a trinta e cinco anos. Noventa. Creio que não chegarei aos noventa e se chegar será uma façanha. Não lembrarei mais de muitas coisas, não enxergarei quase nada, não conseguirei fazer quase nada. Não usarei mais saltos, não conseguirei mais ler...e banho, como vou tomar? Onde estarei, quem cuidará de mim?
Meu filho terá 69 anos, minha filha do meio terá 66 e minha filha mais nova terá 60, será uma guria. E o Dudu terá 52. Mas se é improvável que eu esteja viva com 90 anos, ninguém precisará cuidar de mim. O mundo terá mudado (muito) mais. Meus filhos estarão aposentados! Terão sido felizes? Terão tido filhos, sucesso na profissão, no amor?

 No entanto, tudo é relativo e transitório. Tudo é mutável e mesmo minhas ponderações e possíveis previsões são apenas especulações. Nada se sabe do amanhã. Por isso, é urgente que se viva (bem) hoje.

Sem a minha presença ou, mesmo na minha ausência


Percebo que a vida anda sem minha presença.  Meus desejos, os mais profundos, de ver minha família unida, acontecem e percebo que pode ser assim, é possível e bom que seja assim. Posso desejar, mas não preciso estar junto para acontecer. Não preciso ver, literalmente, desde que saiba que gestos em direção a isso acontecem e devo, preciso, deixar que a vida siga seu fluxo natural.


Olhos de Capitu ou O cinismo


O olhar oblíquo de Capitu rendeu e rende muito na literatura, senão na imaginação de quem a conheceu. Machado é Machado, não é Silva. Enfim, olhos de Capitu. Tenho visto muitos olhares oblíquos, que dizem sem dizer, dissimulados. Uma amiga dando um olhar assim, sorrindo, com intimidades, para outra, não querendo que eu visse, mas olhei no exato instante. Um olhar de cumplicidade, uma dose de cinismo, outra de ironia. Eu havia dito algo que motivou esse olhar ambíguo, mas exato na medida da minha desconfiança. O olhar do verdureiro que me empurrou tempero verde “passado”, amarelo, desgalhado. Flagrei o olhar dele para outro verdureiro, um riso contido, um cinismo, enquanto dizia a mim que não, que o tempero não estava passado, havia recém sido colhido, embora a cor e a aparência desmentissem isso. E minha desconfiança alastrou-se pela minha própria aparência. Fiquei pensando se era para minha roupa aquele olhar risonho, se era por pensar estar me enganando. Olhei bem pra ele, os dentes podres, cacos na boca. Mesmo assim, não tive pena. O que sei é que o olhar oblíquo de Capitu me persegue, tanto quanto perseguia Bentinho.


A idade



Tenho meia meia, ele disse com um suspiro, olhar perdido no nada. Um rim que não funciona desde o nascimento, intolerância à lactose, audição deficiente; usa aparelho. Advogado bem sucedido, no entanto. Em alguns minutos de chimarrão conosco, queixou-se da mulher várias vezes. A fulana é uma chata, ele disse. Quando tem dor, fica insuportável, culpa a todos por sua dor. E ela tem tido muitas. Eu não, quando tenho dor me recolho. Ela não gosta de vinho e também não bebe cerveja. Uma chata. Quando viajamos para a Europa prefere comer no MacDonalds em vez de pratos elaborados. É, pensei com meus botões gastronômicos, uma chata. Mas pensei também, no que nos transformamos, com a idade. Para meia meia faltam onze, para mim. Será que estarei assim? Uma chata falando mal dos seus queridos para estranhos?

Ano Novo: fim de uma época.


Para muitas pessoas o Natal é uma data difícil, de saudades dos que se foram, de Natais com ausências, de um escancaramento da solidão. Para mim, não. Para mim o nascimento de Cristo é um motivo para celebrar sempre, não para entristecer. É um  momento em que não olho para o meu umbigo mas para todas as pessoas sobre a terra, em uma extensão mais humana, mais abrangente. Desejo intimamente que o Natal seja esperança para a humanidade. Me sinto mais humana no Natal, mesmo que tenha se tornado quase só consumismo. Presentes, presentes vazios, por obrigação, sem o abraço, sem o olhar do outro sequer para agradecer. Porém, no tal do Ano Novo eu me sinto deprimida. É como se no início de cada ano as pessoas que se amam, as pessoas da família deveriam estar juntas. Assim eu aprendi desde que nasci. Assim era. Até alguns anos era necessário que passássemos juntos. Eu me nutria desse amor e isso era alegria, isso era felicidade. Quando éramos pequenos havia um jantar na virada de ano e pra completar íamos à missa do Galo.  Carne de porco porque o porco fuça pra frente, então comíamos carne de porco, para que tivéssemos progresso, fôssemos “pra frente”. Jamais galinha, dizia minha mãe, cisca pra trás. Lentilha, porque dá dinheiro. Comer vários grãos de lentilha corresponderiam mais ou menos a comer muitas moedinhas. Assim eu pensava e assim foi desde sempre. Uvas também trazem boa sorte. Uma folha de louro na carteira, assim como comer peru no Natal. A ceia de final de ano era à meia noite, ou quase. Ficávamos contando os minutos que antecediam o ano novo. Nos últimos dez segundos do ano velho, fazíamos a contagem regressiva. Dez, nove, oito, sete, seis, cinco...quatro...três...dois...um...zero! O bom mesmo era o abraço nas pessoas queridas, desejando do fundo do coração  que tivessem um ano novo melhor do que o anterior. E o melhor ainda, de tudo, era ter pertinho as pessoas amadas. Assim foi quando eu era pequena, quando era adolescente, quando tinha meus filhos pequenos. Lembro ainda hoje quando passei o primeiro ano novo com meu primeiro filho nos braços. Ele tinha dois meses. Eu ainda sentia, não as dores do parto especificamente, mas algumas lembranças do parto. Morávamos em duas peças, quarto e cozinha com banheiro. Lembro que o abracei, beijei e desejei secretamente que ele fosse muito feliz. Depois dessa noite vieram muitas outras, com ele, com minhas filhas, com o pai deles. Mas nunca nenhuma deixou uma lembrança tão vívida quanto aquela primeira vez de virada de ano com um filho pequeno nos braços. Eu tinha vinte e um anos. Muito depois, quando já eram grandes, passamos a negociar, para que eu não perdesse tudo. Natal sempre comigo, fina lde ano com quem quisessem. Nesse ano eu fui ao encontro das gurias, elas não vieram mais passar o Natal comigo. Meu filho, há anos passa o Natal e final de ano trabalhando. Todos os anos ele diz que no ano seguinte não vai trabalhar nessas datas, mas quando elas chegam, ele esquece e vai novamente. Enfim, chegou o final de ano, o último dia de 2014. Liguei para uma, não atendeu. Liguei para outro número, não atendeu. Liguei para outra, não atendeu. E não retornaram. Meu filho, sim, liguei,  retornou, desejamos feliz ano novo um ao outro. Liguei para minha mãe, estava só em casa, não veio passar o final de ano comigo porque tem que cuidar da casa dela e das vizinhas. A mesma história de sempre, a mesma coisa que me irrita e me leva a pensar que se eu não ligasse, ela não ligaria. Que não vem porque não quer, é uma escolha dela, tem esse direito.
Pego minhas carências, boto todas num enorme saco e escondo debaixo da cama. Meses de terapia para não dramatizar, para dramatizar menos, para sofrer menos. Penso, não posso deixar de pensar, que o tempo passa, as pessoas se vão, não estarão sempre aqui, ao alcance do celular, ao alcance de nossa mão. O tempo que deixamos de passar com quem amamos, perdemos.
Natal não é festa de alegria, é festa de intimidade, de reflexão, de fraternidade. Ano novo é festa de alegria, de festa, de riso, de otimismo, de esperança num ano melhor, de estar com amigos. Tento não ficar triste hoje. Mas não tenho vontade de descer as escadas, sair do prédio e compartilhar com estranhos uma falsa alegria que não sinto. Prefiro olhar de longe e pensar que nem todos, afinal, podem estar realmente felizes como estão demonstrando. E que muitos, muitos, passam a virada de ano sozinhos e que este será meu futuro, finalmente.




  • A Igualdade é Branca
  • A Fraternidade é Vermelha
  • A Liberdade é Azul
  • Blade Runner