quinta-feira, janeiro 22, 2015

O Tempo

O Tempo

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.


.............o tempo perguntou ao tempo qual é o tempo que o tempo tem...o tempo respondeu ao tempo que o tempo não tem tempo....para ninguém.

Tenho pensado muitas vezes nesse belo poema do Mario Quintana. Talvez porque cheguei naquela fase da vida, depois de trabalhar ininterruptamente por mais de trinta e anos, e ter o tal tempo para mim, para desfrutar e fazer muito do que realmente gosto, talvez por isso, eu tenha pensado muito no tempo. Nesse tempo de hoje e no tempo que passou. Mas talvez, também, porque olho meu rosto no espelho e veja que nele ficaram as marcas do caminho, do que vivi, do tempo.
Alguns acontecimentos ou ficção, como a cena do beijo no filme Anahy de Las Misiones (Araci Esteves) e a personagem de Paulo José (não lembro o nome). Eles se reencontram depois de muito
tempo e sentem vontade de trocar um beijo, agora na maturidade. Ela diz a ele que o beijo tem um
gosto amargo, não é mais como o beijo de amor que trocavam na juventude. A cena é inesquecível. O beijo estava amargo ou eles estavam mudados?
Cenas, textos, pessoas, lembranças, fazem com que o tempo venha e vá na minha cabeça. Ultimamente senti desejo de rever pessoas que não via há muitos anos. Procurei uma amiga de infância. Ela ficou surpresa e feliz em me rever. Como sempre, pareceu que nossa conversa fora interrompida no dia anterior. Nos abraçamos, conversamos, falamos dos filhos, das pessoas em comum e nos despedimos.mela,medindo que eu entrasse em contato de novo quando viesse a Caxias; eu, pedindo que ela escrevesse, mandasse fotos dos filhos, respondesse emails, o que ela não fez, explicou que é avessa à internet. Não tem face, instauram, face time, messenger....criaram email pra ela, mas não usa. Celular usa muito pouco. Não a procurei mais. E não vou procurar.
Passeando por Caxias, onde vivi minha adolescência, percebo que muitas casas não existem mais, prédios foram erguidos, outros modificados. Uma loja tradicional em que eu gostava de comprar perdeu a característica e o charme e está sendo vendida aos pedaços. Uma riachinho onde um moço apareceu morto certa manha, há trinta anos, foi canalizado. Quem lembra disso?
A cidade é feita de retalhos, de histórias. Retalhos que se juntam, se costuram, se misturam e vão deixando marcas que vão sendo substituídas por outras, como se fossem as várias camadas de cascas de feridas.
Aí, lembro do Ushuaia, dos nativos canoeiros, dos bárbaros, dos gaúchos, dos nossos habitantes aqui do sul, os kaingangs, os charruas, os guaranis....lembro das pontas de flechas, das pedras....e penso em quão insignificante sou eu. E, basicamente, estou aqui de passagem, sou apenas mais um ser no universo.

Duas e onze (cadê o sono)?

segunda-feira, janeiro 05, 2015

Os três momentos (meus) e de Saramago.


Amo Saramago. Não é paixão, porque essa é passageira, amor é manso, é calmo, é para sempre. Amo de um calmo amor prestante, como amigo e como amante...ops, esse é Vinícius. Enfim amo a literatura dele, o que escreve, o que descreve. Ainda e sempre, lembro do cão Achado, de A Caverna. Agora estou lendo A bagagem do viajante, impressões do dia a dia. E ele fala em três momentos em que poderia pensar e escrever. O primeiro, um momento em que estará vivo. O segundo, um momento em que provavelmente ainda estará vivo. E o terceiro momento é um em que dificilmente estará vivo. Ele não está mais vivo, então, hoje escrevo sobre ele e sobre o que ele escreveu. Quem sabe um dia alguém lê o que escrevo agora e também não estarei mais aqui e essa pessoa também pensará sobre isso. Fiquei refletindo sobre essa ideia, a dos momentos prováveis e improváveis de estarmos ainda nesse planeta.
Um momento em que ainda estarei viva: Daqui a dez anos. Estarei com sessenta e cinco anos, rosto envelhecido, eterna barrigudinha, cabelos mais brancos e ralos. Talvez já tenha feito cirurgia na pálpebra, porque estará difícil enxergar com ela caída sobre o olho. Talvez minhas dores nas costas tenham aumentado muito e eu não faça mais academia. Ou talvez faça, mas caminhando devagar e fazendo exercícios conforme minha condição física. Meu filho terá 44 e certamente terá alcançado todo o sucesso que merece, talvez eu já tenha um neto. Provavelmente estará morando em outro lugar, longe daqui, com a Juliana. Minha filha do meio terá 40 e talvez esteja estabilizada em um emprego, talvez dirigindo seu carro, talvez tenha terminado doutorado e esteja trabalhando numa universidade. Minha filha menor terá 35, certamente terminou a faculdade e está trabalhando em algo que goste e que dê retorno a ela. Provavelmente não estarão morando no mesmo lugar onde moram hoje. Minha mãe terá 81.
Um momento em que provavelmente ainda estarei viva: daqui a vinte anos. Terei setenta e cinco anos, andarei bem mais devagar, tudo será mais difícil, me abaixar, dirigir. Não terei mais os mesmos reflexos. Subir escadas estará difícil para mim. Estarei muito enrugadinha e quem sabe será momento de não pintar mais os cabelos, deixá-los branquinhos de vez. Mas curtos. Provavelmente tomarei muitos remédios, o que agora não acontece. Será que ainda farei fotos? Talvez, mas em menor quantidade e com mais qualidade. E meus filhos, minha mãe? Não quero pensar sobre isso.
E o último momento, em que provavelmente não estarei mais por aqui, é daqui a trinta e cinco anos. Noventa. Creio que não chegarei aos noventa e se chegar será uma façanha. Não lembrarei mais de muitas coisas, não enxergarei quase nada, não conseguirei fazer quase nada. Não usarei mais saltos, não conseguirei mais ler...e banho, como vou tomar? Onde estarei, quem cuidará de mim?
Meu filho terá 69 anos, minha filha do meio terá 66 e minha filha mais nova terá 60, será uma guria. E o Dudu terá 52. Mas se é improvável que eu esteja viva com 90 anos, ninguém precisará cuidar de mim. O mundo terá mudado (muito) mais. Meus filhos estarão aposentados! Terão sido felizes? Terão tido filhos, sucesso na profissão, no amor?

 No entanto, tudo é relativo e transitório. Tudo é mutável e mesmo minhas ponderações e possíveis previsões são apenas especulações. Nada se sabe do amanhã. Por isso, é urgente que se viva (bem) hoje.

Sem a minha presença ou, mesmo na minha ausência


Percebo que a vida anda sem minha presença.  Meus desejos, os mais profundos, de ver minha família unida, acontecem e percebo que pode ser assim, é possível e bom que seja assim. Posso desejar, mas não preciso estar junto para acontecer. Não preciso ver, literalmente, desde que saiba que gestos em direção a isso acontecem e devo, preciso, deixar que a vida siga seu fluxo natural.


Olhos de Capitu ou O cinismo


O olhar oblíquo de Capitu rendeu e rende muito na literatura, senão na imaginação de quem a conheceu. Machado é Machado, não é Silva. Enfim, olhos de Capitu. Tenho visto muitos olhares oblíquos, que dizem sem dizer, dissimulados. Uma amiga dando um olhar assim, sorrindo, com intimidades, para outra, não querendo que eu visse, mas olhei no exato instante. Um olhar de cumplicidade, uma dose de cinismo, outra de ironia. Eu havia dito algo que motivou esse olhar ambíguo, mas exato na medida da minha desconfiança. O olhar do verdureiro que me empurrou tempero verde “passado”, amarelo, desgalhado. Flagrei o olhar dele para outro verdureiro, um riso contido, um cinismo, enquanto dizia a mim que não, que o tempero não estava passado, havia recém sido colhido, embora a cor e a aparência desmentissem isso. E minha desconfiança alastrou-se pela minha própria aparência. Fiquei pensando se era para minha roupa aquele olhar risonho, se era por pensar estar me enganando. Olhei bem pra ele, os dentes podres, cacos na boca. Mesmo assim, não tive pena. O que sei é que o olhar oblíquo de Capitu me persegue, tanto quanto perseguia Bentinho.


A idade



Tenho meia meia, ele disse com um suspiro, olhar perdido no nada. Um rim que não funciona desde o nascimento, intolerância à lactose, audição deficiente; usa aparelho. Advogado bem sucedido, no entanto. Em alguns minutos de chimarrão conosco, queixou-se da mulher várias vezes. A fulana é uma chata, ele disse. Quando tem dor, fica insuportável, culpa a todos por sua dor. E ela tem tido muitas. Eu não, quando tenho dor me recolho. Ela não gosta de vinho e também não bebe cerveja. Uma chata. Quando viajamos para a Europa prefere comer no MacDonalds em vez de pratos elaborados. É, pensei com meus botões gastronômicos, uma chata. Mas pensei também, no que nos transformamos, com a idade. Para meia meia faltam onze, para mim. Será que estarei assim? Uma chata falando mal dos seus queridos para estranhos?

Ano Novo: fim de uma época.


Para muitas pessoas o Natal é uma data difícil, de saudades dos que se foram, de Natais com ausências, de um escancaramento da solidão. Para mim, não. Para mim o nascimento de Cristo é um motivo para celebrar sempre, não para entristecer. É um  momento em que não olho para o meu umbigo mas para todas as pessoas sobre a terra, em uma extensão mais humana, mais abrangente. Desejo intimamente que o Natal seja esperança para a humanidade. Me sinto mais humana no Natal, mesmo que tenha se tornado quase só consumismo. Presentes, presentes vazios, por obrigação, sem o abraço, sem o olhar do outro sequer para agradecer. Porém, no tal do Ano Novo eu me sinto deprimida. É como se no início de cada ano as pessoas que se amam, as pessoas da família deveriam estar juntas. Assim eu aprendi desde que nasci. Assim era. Até alguns anos era necessário que passássemos juntos. Eu me nutria desse amor e isso era alegria, isso era felicidade. Quando éramos pequenos havia um jantar na virada de ano e pra completar íamos à missa do Galo.  Carne de porco porque o porco fuça pra frente, então comíamos carne de porco, para que tivéssemos progresso, fôssemos “pra frente”. Jamais galinha, dizia minha mãe, cisca pra trás. Lentilha, porque dá dinheiro. Comer vários grãos de lentilha corresponderiam mais ou menos a comer muitas moedinhas. Assim eu pensava e assim foi desde sempre. Uvas também trazem boa sorte. Uma folha de louro na carteira, assim como comer peru no Natal. A ceia de final de ano era à meia noite, ou quase. Ficávamos contando os minutos que antecediam o ano novo. Nos últimos dez segundos do ano velho, fazíamos a contagem regressiva. Dez, nove, oito, sete, seis, cinco...quatro...três...dois...um...zero! O bom mesmo era o abraço nas pessoas queridas, desejando do fundo do coração  que tivessem um ano novo melhor do que o anterior. E o melhor ainda, de tudo, era ter pertinho as pessoas amadas. Assim foi quando eu era pequena, quando era adolescente, quando tinha meus filhos pequenos. Lembro ainda hoje quando passei o primeiro ano novo com meu primeiro filho nos braços. Ele tinha dois meses. Eu ainda sentia, não as dores do parto especificamente, mas algumas lembranças do parto. Morávamos em duas peças, quarto e cozinha com banheiro. Lembro que o abracei, beijei e desejei secretamente que ele fosse muito feliz. Depois dessa noite vieram muitas outras, com ele, com minhas filhas, com o pai deles. Mas nunca nenhuma deixou uma lembrança tão vívida quanto aquela primeira vez de virada de ano com um filho pequeno nos braços. Eu tinha vinte e um anos. Muito depois, quando já eram grandes, passamos a negociar, para que eu não perdesse tudo. Natal sempre comigo, fina lde ano com quem quisessem. Nesse ano eu fui ao encontro das gurias, elas não vieram mais passar o Natal comigo. Meu filho, há anos passa o Natal e final de ano trabalhando. Todos os anos ele diz que no ano seguinte não vai trabalhar nessas datas, mas quando elas chegam, ele esquece e vai novamente. Enfim, chegou o final de ano, o último dia de 2014. Liguei para uma, não atendeu. Liguei para outro número, não atendeu. Liguei para outra, não atendeu. E não retornaram. Meu filho, sim, liguei,  retornou, desejamos feliz ano novo um ao outro. Liguei para minha mãe, estava só em casa, não veio passar o final de ano comigo porque tem que cuidar da casa dela e das vizinhas. A mesma história de sempre, a mesma coisa que me irrita e me leva a pensar que se eu não ligasse, ela não ligaria. Que não vem porque não quer, é uma escolha dela, tem esse direito.
Pego minhas carências, boto todas num enorme saco e escondo debaixo da cama. Meses de terapia para não dramatizar, para dramatizar menos, para sofrer menos. Penso, não posso deixar de pensar, que o tempo passa, as pessoas se vão, não estarão sempre aqui, ao alcance do celular, ao alcance de nossa mão. O tempo que deixamos de passar com quem amamos, perdemos.
Natal não é festa de alegria, é festa de intimidade, de reflexão, de fraternidade. Ano novo é festa de alegria, de festa, de riso, de otimismo, de esperança num ano melhor, de estar com amigos. Tento não ficar triste hoje. Mas não tenho vontade de descer as escadas, sair do prédio e compartilhar com estranhos uma falsa alegria que não sinto. Prefiro olhar de longe e pensar que nem todos, afinal, podem estar realmente felizes como estão demonstrando. E que muitos, muitos, passam a virada de ano sozinhos e que este será meu futuro, finalmente.




  • A Igualdade é Branca
  • A Fraternidade é Vermelha
  • A Liberdade é Azul
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