quinta-feira, dezembro 22, 2016

As borboletas dentro de mim

O dia amanheceu cinza. Dor nos ombros, vontade de ficar na cama dormindo, sem conseguir dormir. A Necessidade me empurra pra rua. Estaciono na frente do banco, tudo funciona no caixa eletrônico. Vou pra Lajeado, duas paradas de cinco minutos. Estaciono na frente de onde preciso ir. Os Azuizinhos não aparecem. Na primeira parada encontro um moço muito alto e me espanto. Do nono andar ao térreo trocamos informações: ele mede 2,10 e eu 1,50! Fiquei pensando que deve ser bom enxergar as coisas de outro patamar!
Na segunda parada o porteiro deseja ótimo final de semana e já estou lá na calçada, correndo e me concentrando, ao mesmo tempo, para não perder nada (óculos, chave do carro, agenda). As borboletas dentro de mim começam a bater asas querendo voar. Sinto a alegria voltando. Na rua um jardineiro podando plantas na calçada. Paro e pergunto se posso pegar as lindas plantas que estão espalhadas, espantado ele diz que sim, pois vão pro lixo. Na faixa de segurança uma moça fica indecisa, eu faço um gesto indicando que ela pode passar. Ela passa em frente ao carro lentamente e me devolve um baita sorriso. Fico olhando pra ela passar e ir adiante e seu sorriso me ilumina mais ainda e a essa altura preciso abrir a janela do carro para que as borboletas saiam voando. No rádio Nando Reis entoa Sebastião a vida é boa. Sim, a vida é boa e é bela. E é boa.

Tempos difíceis

Vivemos tempos feios, difíceis. Não bastasse o mundo estar em guerra, aqui pelo Rio Grande o caos se instalou. No dia de hoje seis fundações foram extintas: Zoobotânica (FZB), Cultural Piratini (TVE E FM Cultura), de Ciência e Tecnologia, de Economia e Estatística (FEE), Desenvolvimento de Recursos Humanos (FDRH) e de Planejamento Metropolitano e Regional (Metroplan). 
O salário do funcionalismo estadual vem sendo pago com atraso e parcelado. O décimo terceiro desapareceu nesse último mês do ano. Hoje, em Pelotas, uma professora aposentada tentou atear fogo ao corpo quando viu que não havia dinheiro na conta. Dentro do Banrisul. 
Corrupção, desvio de verbas, hospitais fechando, moradores de rua sendo despejados da rua, pobreza aumentando, miséria, violência. Millôr repetiria a frase que mais representa o ser humano: O homem é um animal inviável. 
Pois, andando pelas ruas de Capão eu vejo um carro estacionar e uma mulher sair com comida para dar aos gatos de rua. Ela coloca água num pote de sorvete e comida para os ariscos gatos de rua. Não tenho como não lembrar da turma do Manda-Chuva, aqueles gatos espertos e falantes, sempre aprontando e fugindo do Guarda Belo. Lembrei do Batatinha, Bacana...e sorri para dentro de mim, para que a bondosa mulher não se equivocasse com meu sorriso. 
Chego na padaria pra pegar o pãozinho nosso de cada dia e percebo um menino de bicicleta esperando do lado de fora. Lá de dentro surge a atendente com duas sacolas com pães, cucas e biscoitos dormidos, certamente, mas digeríveis. O olhar do menino é de agradecimento antes que a palavra obrigada saia baixinho de seus lábios. Ele se vai e fico imaginando quantas pessoas aqueles pães irão alimentar. 
Gestos que me comovem e me fazem pensar que o ser humano não é inviável. Não todos. 

quarta-feira, dezembro 21, 2016

Liga depois, estou na sinaleira

Caminhando nos corredores da livraria ouço a frase 'Me liga depois, estou na sinaleira'.
Cheguei ao final do corredor e espiei adiante. Um homem e uma menina olhavam um brinquedo e conversavam sobe ele. A sinaleira, inexistente, dava a ele a privacidade e o tempo que precisava com a menina. Estar na sinaleira requer atenção, cuidado. Logo ela abre e seguimos em frente,então não podemos conversar. Pensei em como o telefone celular ainda não mostra o que o usurário está fazendo em tempo real, embora já o localize no espaço e no tempo.

Estar na sinaleira agora tem um novo significado.

Dez anos

Entáo....esse ano o meu blog completa dez anos de idade. Isso significa 3.650 (três mil, seiscentos e cinquenta dias)  4.380 (quatro mil, trezentos e oitenta dias), 1 87.600 (oitenta e sete mil e seiscentos horas) ,  5.526.000 (cinco milhões, quinhentos e cinquenta e seis mil minutos),  315.360.000, (trezentos e quinze milhões, trezentos e sessenta mil, segundos) .


Nunca fui boa com números, sempre me dei melhor com as letras. Fico pensando em todo esse tempo, em como não escrevi.Como não falei das coisas que penso, das coisas que sei. Dez anos. É algo,é algum tempo.

E nesse entremeio de tempo, tenho ideias, pensamentos.

terça-feira, maio 10, 2016

Fragmentação

Fragmentação

Programada, inicio a desfragmentação.

De pedaço em pedaço, me desfaço. Primeiro os pés. Guardo-os lado a lado numa caixa de sapatos.  Olho para eles. Estão um pouco inchados e amassados por passarem o dia todo dentro de um par de botas. A meia deixou desenhos na pele.As veias azuis estão salientes .Passo o dedo por elas de leve. Sinto-as ainda quentes. Os dedos brancos, as unhas quadradas, delicadas. Cubro-os com um papel de seda. 

Depois, guardo o umbigo numa caixinha de metal, destas de pastilhas Valda. Não consigo deixar de pensar que meu umbigo ficará com cheiro de eucalipto. Gosto de eucalipto. Meu umbigo redondo, pequeno, parece um botão cor de pelo.  Umbigo inútil. Durante muito tempo olhei apenas para ele.

Os seios, guardo-os na gaveta da cômoda, entre lenços e cachecóis.

O sexo, debaixo do travesseiro, ao alcance da mão.

O coração, retiro-o com cuidado e sinto-o pulsar entre as mãos. Seguro firme.Temo abrir os dedos e que ele fuja, voe como um beija-flor. Não, meu coração bate fraquinho. Olho com cuidado e vejo que tem as bordas amassadas.Alguns pedaços estão faltando.Fico pensando como ainda pulsa.Como ainda vive.Ou não vive? Ou é apenas impressão minha? Ou será reflexo de um músculo involuntário?

 Guardo-o numa caixinha, no fundo de uma gaveta. Por cima, coloco cartas de amor não recebidas, poemas não escritos, fotografias esmaecidas.Ao lado, uma flor seca.


Minha memória guardo numa dessas caixinhas de separar coisas de costura.Um partezinha para as alegrias, duas para os sofrimentos.Outra para as esperanças.E uma última para a alegria de viver.

Os olhos, extraio um a um. Guardo-os na bolsa, irão onde eu for.

A voz, prendo numa gaiola.Ficará lá, à espera de um instante mágico em que precise de minha palavra, de meu grito.


As mãos, estas mãos que buscam, que ardem, que doem, guardo-as nos bolsos de um casaco.Um dia desses, despretensiosamente, alguém as achará, tal qual uma moeda perdida e tão festejada.

 Assim,deito e não sou mais. Desfragmentada, não existe Eu. Apenas partes do que fui.

domingo, abril 17, 2016

A tristeza se esconde atrás da alegria dos palhaços

Sempre senti um pouco de tristeza, mas foi depois dos cinqüenta que ela veio para ficar. De repente, me dei conta que jamais seria aquela pessoa que dá gargalhadas sonoras e que realmente aprecia uma boa piada. Percebi que continuaria a não achar muita graça do que a maioria das pessoas acha. E penso em várias músicas que falam de tristeza.

Tristeza não tem fim, felicidade sim. Mas tristeza não é o posto de felicidade, mas de alegria. E aí, me vem Alegria é a melhor coisa que existe, é melhor ser alegre que ser triste...E também lembro de 

Bom dia, tristeza 
Que tarde, tristeza 
Você veio hoje me ver 
Já estava ficando 
Até meio triste 
De estar tanto tempo 
Longe de você

Se chegue, tristeza
Se sente comigo
Aqui, nesta mesa de bar
Beba do meu copo
Me dê o seu ombro
Que é para eu chorar
Chorar de tristeza
Tristeza de amar

....e ainda...

Oh tristeza, me desculpe
Estou de malas prontas
Hoje a poesia veio ao meu encontro
Já raiou o dia, vamos viajar
Vamos indo de carona
Na garupa leve do vento macio
Que vem caminhando
Desde muito longe, lá do fi do mar
Vamos visitar a estrela da manhã raiada
Que pensei perdida pela madrugada
Mas que vai escondida
Querendo brincar
Senta nesta nuvem clara
Minha poesia, anda, se prepara
Traz uma cantiga 
Vamos espalhando música no ar

Olha quantas aves brancas
Minha poesia, dançam nossa valsa
Pelo céu que um dia
Fez todo bordado de raios de sol
Oh poesia, me ajude
Vou colher avencas, lírios, rosas dálias
Pelos campos verdes
Que você batiza de jardins-do-céu
Mas pode ficar tranqüila, minha poesia
Pois nós voltaremos numa estrela-guia
Num clarão de lua quando serenar
Ou talvez até, quem sabe
Nós só voltaremos no cavalo baio
O alazão da noite 

Cujo o nome é raio, raio de luar

E lembro da tristeza de Florbela Espanca, da tristeza de Frida Kahlo e sempre e sempre, e de novo, de Vinícius de Moraes que soube cantar a tristeza como ninguém:

E daí? Uma mulher tem que ter
Qualquer coisa além de beleza
Qualquer coisa de triste
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado
Uma beleza que vem da tristeza
De se saber mulher

E lembrando dessas mulheres, desses poetas eu me consolo porque penso que a tristeza é um sentimento inerente ao ser humano e nem todos que parecem alegres não são tristes. A tristeza se esconde atrás da alegria dos palhaços. 

  • A Igualdade é Branca
  • A Fraternidade é Vermelha
  • A Liberdade é Azul
  • Blade Runner