terça-feira, maio 10, 2016

Fragmentação

Fragmentação

Programada, inicio a desfragmentação.

De pedaço em pedaço, me desfaço. Primeiro os pés. Guardo-os lado a lado numa caixa de sapatos.  Olho para eles. Estão um pouco inchados e amassados por passarem o dia todo dentro de um par de botas. A meia deixou desenhos na pele.As veias azuis estão salientes .Passo o dedo por elas de leve. Sinto-as ainda quentes. Os dedos brancos, as unhas quadradas, delicadas. Cubro-os com um papel de seda. 

Depois, guardo o umbigo numa caixinha de metal, destas de pastilhas Valda. Não consigo deixar de pensar que meu umbigo ficará com cheiro de eucalipto. Gosto de eucalipto. Meu umbigo redondo, pequeno, parece um botão cor de pelo.  Umbigo inútil. Durante muito tempo olhei apenas para ele.

Os seios, guardo-os na gaveta da cômoda, entre lenços e cachecóis.

O sexo, debaixo do travesseiro, ao alcance da mão.

O coração, retiro-o com cuidado e sinto-o pulsar entre as mãos. Seguro firme.Temo abrir os dedos e que ele fuja, voe como um beija-flor. Não, meu coração bate fraquinho. Olho com cuidado e vejo que tem as bordas amassadas.Alguns pedaços estão faltando.Fico pensando como ainda pulsa.Como ainda vive.Ou não vive? Ou é apenas impressão minha? Ou será reflexo de um músculo involuntário?

 Guardo-o numa caixinha, no fundo de uma gaveta. Por cima, coloco cartas de amor não recebidas, poemas não escritos, fotografias esmaecidas.Ao lado, uma flor seca.


Minha memória guardo numa dessas caixinhas de separar coisas de costura.Um partezinha para as alegrias, duas para os sofrimentos.Outra para as esperanças.E uma última para a alegria de viver.

Os olhos, extraio um a um. Guardo-os na bolsa, irão onde eu for.

A voz, prendo numa gaiola.Ficará lá, à espera de um instante mágico em que precise de minha palavra, de meu grito.


As mãos, estas mãos que buscam, que ardem, que doem, guardo-as nos bolsos de um casaco.Um dia desses, despretensiosamente, alguém as achará, tal qual uma moeda perdida e tão festejada.

 Assim,deito e não sou mais. Desfragmentada, não existe Eu. Apenas partes do que fui.

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