quarta-feira, dezembro 16, 2015

Eli Hugo Russin Virgulino

Eli  Hugo Russin Virgulino, menino,
nasceu no interior do Pará, numa das regiões mais pobres, desabastecimento de quase tudo. Falta energia elétrica e consequentemente não há água encanada. Isso não é nada se houver água limpa na igarapé, mas em época de estio, também a água fica minguada. A estrada de chão se estende e se encomprida como uma serpente empoeirada e cheia de calombos. Do que era a mata só se veem árvores queimadas, retorcidas, fumegantes. A fumaça densa esconde o sol, as nuvens, o céu. Ao meio dia, ele surge alaranjado, filtrado por camadas e camadas de fumaça. A terra se ressente e não dá mais do que alguns pés de mandioca, suficiente para fazer a farinha que será misturado ao caldo ralo do feijão. Quando tem. Mas as árvores, as mesmas que estão sendo queimadas parecendo um genocídio em massa, dão as mangas suculentas que caem em ramos quase até o chão, ao alcance da mão. Mangas, açaí, pupunha, jambolão, banana.  Apesar disso, muitas crianças, os ossos apontando sob a pele encarquilhada pela terra amarelenta.
Quando passa um carro na estrada, nem se incomodam com a nuvem de terra que se levanta como que para protestar pelo desassossego. Espicham a cabeça e os olhos indagam curiosos.
Sem brinquedos, uma lata vira um carrinho que amarrada a uma corda é puxado de lá para cá. Andam quilômetros até a escolinha da vila, tão acanhada quanto eles. Se forem picados por cobra ou escorpião, tão comum no lugar, ou se tiverem uma dor de barriga, febre, dependem da generosidade dos poucos que tem carro para levá-los à cidade em busca de assistência. As famílias que tem uma moto ou bicicleta, e são muitos, levam toda a família engarupados. Criança na frente,pai, mãe com bebê no colo e um maiorzinho atrás. E vão felizes porque a distância se encurta assim. Nessa terra de ninguém e de todo mundo, às vezes a felicidade está simplesmente no orgulho de ter um filho varão e colocar nele um nome especial: Eli Hugo Russin Virgulino.


sábado, dezembro 12, 2015

Angélica

Angélica me contou que foi chamada ao hospital pra ver seu irmão, hospitalizado. Lá chegando, ele disse "Angélica, vou precisar de um empréstimo." já se desculpando com o olhar. Quinhentos, talvez setecentos. A mulher dele falou, ele precisará de fraldas também, Angélica, já que não poderá sair da cama. Angélica voltou pra casa pensando nos setecentos e mais as fraldas que teria que comprar para seu irmão.
No dia seguinte, recebeu o telefonema que não precisaria mais emprestar os setecentos e nem comprar as fraldas. Mas como, ela já havia comprado...e agora? Faria o que com as fraldas?
Angélica lamentou, além de ter que doar as fraldas teria que desembolsar mais do que setecentos para ajudar a comprar o caixão do seu único irmão

quinta-feira, dezembro 10, 2015

Dona Severina

Dona Severina escrevia poesias para o filho com uma letra desenhada à lápis. Falava de amor eterno, de anjos, de desejos de felicidade. Quando ele cresceu, saiu de casa e suas asas voaram por conta própria ela mudou o tom e o sentido das palavras. E quando o anjo acomodou-se em frente a uma televisão na companhia do  Faustão e começou a beber diariamente, a mãe não quis mais saber dele. Que fique na sarjeta, ela disse. Dona Severina morreu dois anos depois, de câncer no intestino e ele, agora, de cirrose.

  • A Igualdade é Branca
  • A Fraternidade é Vermelha
  • A Liberdade é Azul
  • Blade Runner