domingo, fevereiro 01, 2015

O HOMEM SEM JANELA
Uns fecham portadas
e se encerram na paisagem.
Outros habitam quimeras,
extintos magmas interiores.
Eu vivo apenas fora de mim.
De longe
me chegam palavras
e nenhuma cabe
no oco da minha māo
Apenas de outros me faço eu.
Espreito a rua
e, através de mim,
nāo vejo senāo gente
que nasce sem sonhos e vive sem vida.
Sou o homem sem janela:
o mundo está sempre do lado de cá.
A meu lado nāo mora ninguém:
meus vizinhos
habitam todos dentro de mim.
Ao fim da tarde
porém, o céu se curva
para afagar o meu teto.
Em redondo dorso de cāo,
a meus pés se enrosca a solidāo.
É entāo que chegas,
e eu, enfim, regresso
para dentro de minhas paredes.
Só entāo tenho janela.
Mia Couto, em Tradutor de Chuvas.

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