domingo, dezembro 25, 2011

A Carol e eu


Essas e outras palavras ou c 'est la vie.

Tudo parece irrelevante e desnecessário depois de 500 postagens. Textos, frases, reflexões.Imagens. Se colocássemos todas as palavras numa grande bacia e misturássemos com o tempo sem dormir, as lágrimas, os sorrisos, daria uma mistura consistente, talvez pastosa. Ponto de bala, ou melhor, ponto de bolo. Tudo isso,todo esse tempo, essas letras, palavras, sensações, imagens, são o que sou. Depois de escrever tanto e tão pouco, paradoxalmente,descubro que essa não sou eu, que ou que era há poucos instantes, não sou mais. Ou o que era em anos anteriores, o que fui, o que fiz, o que pensei, não sou eu. Fui, talvez, mas não sou. Ao contrário, descubro que sou uma onda em movimento, que cresce, que sobe, que desce, se espraia, se dilui na praia, entra nos buraquinhos na areia e retorna ao fundo do mar para novamente crescer e vir e ficar e voltar. Não estou pronta, não sou eu. Estou eu. Ouço o que dizem as pessoas, cada uma tem muito a dizer sobre as coisas mais humanas e mais profundas; sobre o próprio ser humano. Parece-me que sou imperfeita, muito imperfeita, eternamente inacabada, aprendiz. É o outro que sabe, a verdade está com ele? Sou eu que não sei, não sei nada? Sei alguma coisa? O que é a verdade? Que verdade é essa? Existe uma verdade? Hoje é Natal. Sem família, sem filhos, mas ao mesmo tempo com eles e neles e eles em mim. C'est la vie. E ponto final. Não estou para dramas, para dores, para eternos e revisitados sofrimentos. Quero ser feliz. O tempo urge, o tempo ruge, voa.

quinta-feira, dezembro 15, 2011

500

Postagem 500. Casualmente olhei nas configurações do blog e vi que essa semana postei o texto de número 500. Muitos textos; curtos, longos,poemas, hai-kais, observações,textos meus, de diversos autores. Fotografias, comentários, um artigo. Muitas coisas, muitas palavras, ideias,sensações. Muitas coisas aconteceram na minha vida desde que iniciei a escrever no blog.Parece-me que estou comemorando uma espécie de aniversário.Então, parabéns para mim!

quinta-feira, dezembro 01, 2011

Uns e outros

O que faz com que nos aproximemos mais de uma pessoa do que de outra? E de gostemos mais de uma do que de outra? Na última festa de criança que fui conheci uma pessoa que me fez pensar sobre isso e escrever esse texto. Ao chegar à festa logo vi várias crianças e suas mamães,todas muito lindas, com laços e fitas, roupas cor de rosa combinando com os sapatos. Tais mães, tais filhas e vice-versa. Todas envolvidas com docinhos, presentes e brincadeiras infantis. Num sofá, um tanto ilhada, uma moça que depois vim a saber tem dezoito anos. Nasceu em 93, ela disse.Nossa, em 93,logo aqui na década de trás! Nos apresentamos e começamos a conversar.Falamos sobre família, sobre juventude, sobre espiritismo, sobre namoro, amor, casamento, sobre aprender uma segunda língua, viajar para Paris,sobre estudos,livros, profissão, ufa! Quanto assunto para se conversar com uma jovem menina de 18 anos! Ela foi apresentada a poucas pessoas e ninguém, além de mim, se aproximou dela para conversar.Talvez pela natureza da festa, pela futilidade das convidadas, ninguém imaginou que ela teria tanto assunto e com tanta propriedade.
Creio que assim surgem as amizades, com pessoas com quem temos afinidades; pessoas que olhamos uma vez e intuímos que são do bem.
Como é bom saber que podemos conversar com alguém que está do outro lado da ponte, quase no início da nossa vida e, mesmo assim, demonstrar maturidade e serenidade em suas opiniões.

E assim é com todas as pessoas que nos relacionamos,seja na vida pessoal ou no trabalho. Quantas pessoas convivemos durante anos e anos e não conhecemos,não sabemos quase nada sobre elas, o que gostam ou o que pensam. E tem as que simplesmente aturamos, as que sabemos que temos que conviver, mas que não escolhemos conviver e assim que podemos nos afastamos? Para algumas pessoas não acrescentamos nada assim como algumas pessoas não fazem diferença em nossa vida.

E outras, como a menina da festa, fazem a diferença, adicionam, nos trazem felicidades.

domingo, novembro 27, 2011

Como é difícil viver longe dos filhos e longe do amor dos filhos.

sexta-feira, novembro 25, 2011

A luz das manhãs




Gosto da luz da manhãs. Na cidade grande a luz incide sobre os arranha céus, as árvores, as pessoas caminhando apressadamente, os cães preguiçosos, os moradores de rua ainda adormecidos nas calçadas.No campo, a luz da manhã ilumina o orvalho na relva, as águas cristalinas dos rios e acorda a passarada. Gosto da luz das manhãs na minha pele, gosto de olhar sob a luz das manhãs.

Amigos,amor.




A música Pais e Filhos, da Legião Urbana, tem um tom de tragicidade, de tristeza e de apelo ao amor incondicional aos filhos e amigos, às pessoas que amamos e com quem convivemos. Gosto dessa música, mas nem sempre fazemos da sua letra uma máxima em nossa vida, um norteador, um direcionador. Não perdi nenhuma das pessoas da foto, mas lembrei disso quando, mexendo no computador, encontrei a foto. As amigas Elisena e Angela não verei mais seguidamente, talvez raramente, talvez nunca mais. Uma mora em Passo Fundo, a outra em Guaíba. Nosso amigo João Maurício não encontramos mais. Ele não veio mais para as aulas, provavelmente nunca mais nos veremos.Na foto restamos eu e minha filha, um encontro e reencontro sistemático, senão pessoalmente, por telefone, e.mail e pensamento. São os laços do amor familiar que se perpetuam.
A amizade e o amor que temos pela pessoa deve se manifestar a cada momento, a cada dia. É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã. E na verdade não há.

quinta-feira, novembro 24, 2011

Nas profundezas do jardim

Minha amiga Paula resolveu reformar a casa. Os pedreiros chegaram de mansinho com pás, talhadeiras, furadeiras, martelos e carrinhos-de-mão. Combinados com o Angelo, marido de Paula, puseram-se a quebrar paredes e remodelar a casa, construída há dez anos, à beira do Canal de São Gonçalo.

Reforma sempre demora mais do que o previsto. Assim, os dias foram passando, a poeira cobrindo tudo, móveis fora do lugar e os pedreiros chegando às 7hs e saindo às 18hs. Sem concluir a reforma dentro de casa, passaram para o jardim. Com a necessidade de se fazer uma drenagem da água no terreno, que é próximo ao rio, os pedreiros iniciaram a traçar profundos e estreitos canais no jardim.

Ao chegar em casa, no final da tarde, os pedreiros relatavam os progressos do trabalho diário. Paula e Ângelo já estavam ficando exasperados com todos os buracos, tábuas pelo chão e poeira, mas essa é normalidade de uma reforma. No entanto, numa dessas tardes, Paula chegou em casa e foi a vez dos pedreiros mostrarem-se exasperados:
- Dona Paula, a gente tava cavando a terra lá no buraco e encontramo uma coisa estranha. E relataram:Ao aprofundarem a escavação, num dos tuneis abertos no meio do terreno, encontraram uma laje. Não era uma laje natural, dessas que nascem e crescem desordenadamente como as magnólias do Machado de Assis. Ao contrário, era uma laje lapidada por mãos humanas, retangular e de cor alaranjada. Debaixo da pesada laje havia um plástico preto e grosso, enrolado como se fosse um tapete, em torno de si mesmo. O rolo media, aproximadamente, 1,80cm. Desenrolaram o "tapete" de plástico preto e um odor fétido empestou o ar. Cobriram os narizes com as camisetas sujas e espiaram para dentro do rolo. Roupas podres e água suja. E fedor. Enrolaram novamente o plástico e deram um fim naquilo.

Paula achou graça do relato dos pedreiros, mas tentou levar a sério.
- Vamos chamar a polícia, quem sabe é um corpo?
- Não, Dona Paula. Nóis já botemo lá pras banda do rio.
Minha amiga insistiu, mas eles desconversaram.

Quando ela me contou essa história logo pensei: quem seria o morto ou a morta? Seria humano, inumano? Seria um desumano? Enterrado há mais de dez anos, essa reforma era a esperança, quem sabe, desse cadáver desconhecido ser, finalmente, encontrado e reconhecido.

Quem desapareceu há mais de dez anos na região do Canal de São Gonçalo, em Pelotas? Era homem, mulher? Moço, velho? Era alto, isso é certo. Das roupas, os pedreiros não informaram quase nada. Como o corpo estivera tanto tempo dentro d'água, literalmente desapareceram, corpo e tecidos, restando fragmentos de trapos apodrecidos.

Certamente Watson saberia dizer quem era o defunto, o que fazia, como morreu e até o que comeu em sua última refeição. Mas não sou Watson, embora continue a pensar no morto, enterrado tão profundamente naquele solo arenoso e úmido, tão solitário e anônimo nas profundezas do jardim da minha amiga.



(Os nomes e lugares foram alterados para preservar a segurança dos vivos)

quarta-feira, novembro 23, 2011

Sou sua sabiá

Se o mundo for desabar
sobre a sua cama
E o medo se aconchegar
sob o seu lençol
E se você sem dormir
tremer ao nascer do sol
Escute a voz de quem ama
ela chega aí

Você pode estar
tristíssimo no seu quarto
Que eu sempre terei
meu jeito de consolar
É só ter alma de ouvir,
e coração de escutar
E nunca me farto
do uníssono com a vida

Eu sou, sou sua sabiá
Não importa
onde for vou te catar
Te vou cantar te vou
te vou te vou te vou
Eu sou, sou sua sabiá
O que eu tenho eu te dou
E tenho a dar
Só tenho a voz cantar,
cantar, cantar, cantar


Marisa Monte

A mãe

terça-feira, novembro 22, 2011

O pai

Meus sabiás




Um casalzinho de sabiás fez ninho na área da minha casa. Quando percebi já haviam nascido três filhotes. Fiquei espantada com o tamanho dos bichinhos,eu não diria que eram filhotes a não ser pela dificuldade em manterem os olhos abertos por muito tempo.

Há alguns dias eu os observava e eles ficavam lá, paradinhos, olhando para fora, com os olhos fixos em mim. Quando me aproximava eles não se mexiam. Percebi que não tinham medo ou não conheciam o perigo. Os pais, não, eles mudavam o canto quando eu ou um gato se aproximava. Os gatos oferecem um perigo real, se eles conseguem chegar perto do ninho dos sabiás,adeus tia chica!Ou, adeus sabiá!

Agora eles saíram do ninho e iniciaram os primeiros voos. Ficaram por ali durante dois dias, nas cadeiras, nos galhos das árvores, no chão. Um deles dormiu na janela da cozinha, na primeira noite. Agora já foram para o mundo e tomara que esse mundo seja bom para eles e, principalmente, que saibam fugir quando necessário,que saibam reconhecer entre um gato malandro e a dona da casa que se debruça na janela e adora ouvi-los cantar.

Esses são meus sabiás, porque eu quero dizer que são meus, mas eles são deles mesmos, são livres.

Todas as tardes quando chego em casa do trabalho encontro meus sabiás.Eu,na janela e eles, no telhado em frente. Eles cantam, eu respondo. Eu canto, eles respondem. Eles, meio desconfiados, viram a cabecinha em minha direção e observam. Devem pensar que sou muito grande para uma sabiá. Eu penso que os engano com meu falso canto. Ficamos assim um tempinho, até que eles voam para outros lugares e eu vou tomar meu café.

Minha felicidade pessoal, no momento, reside nesses momentos de encontro com os meus sabiás e seus filhotes.

terça-feira, novembro 15, 2011

O Dudu e eu

segunda-feira, novembro 07, 2011

Flores, frutos e felicidade materna

Hoje minha filha me disse uma das coisas mais bonitas que já ouvi. E eu experimentei uma doce sensação de felicidade materna. Ela disse que percebe que à medida que está ficando mais velha está ficando muito parecida comigo. Não fisicamente, mas no jeito de olhar o mundo, de pensar certas coisas.
Como toda mãe que se preza pensei que ensinar a se organizar, a ter uma cama com lençóis limpos e cheirosos, a receber bem as pessoas, era importante. Ela sempre resmungou um pouco com isso e às vezes foi meio contra, argumentando que eu me apegava a coisas pequenas, desnecessárias.
Pois foi exatamente sobre isso que falamos hoje. Ela disse que se importa com isso, acha importante apresentar uma cama limpinha a uma visita, por exemplo. E aí que disse que percebe estar ficando cada vez mais parecida comigo. Isso me deixou muito feliz. Não que minhas verdades sejam absolutas, mas são as minhas verdades, coisas que tentei passar para meus filhos.
Arrumar a mesa com cuidado, colocar guardanapo, os talheres no lugar, uma louça bonita, uma toalha limpa, flores, velas. Gosto disso, acho bacana. É uma forma de demonstrarmos nosso amor e carinho por quem estamos recebendo.
Enfim, é aquela velha história da sementinha. Plantamos a semente, cuidamos da terra, regamos e não podemos ter pressa, um dia ela brota, cresce e dá flores e frutos.

Sobre a beleza e a arrogância

Sobre a foto retirada do blog. O barquinho ancorado no lago, na foto, pertence ao sítio de uma colega minha. Ela era minha amiga, mas de tanto ser agressiva e arrogante, para não dizer estúpida, eu me afastei dela. A última aconteceu na sexta passada, no final do expediente. Ela estacionou na faixa amarela, em frente ao nosso local de trabalho, durante toda a tarde. Quando saí do trabalho, casualmente a encontrei e comentei que eu tinha medo de estacionar na faixa amarela. Ela disse assim: "Tu tem mesmo que ter medo porque tua carteira é provisória, eu não preciso ter medo. E de mais a mais este estacionamento é nosso (do trabalho). Eu argumentei que, para mim, o certo é certo, agora e depois quando tiver carteira definitiva. Ela se afastou e eu fique indignada, por sua arrogância, por sua agressividade gratuita, de novo.
Ela é uma dessas pessoas que nunca nos dizem algo de bom, ao contrário, sempre tem algo ruim a dizer. E eu faço o possível para ficar longe de pessoas como ela, eu e os outros noventa por cento dos colegas.

Então, eu não sabia como escrever sobre isso sem nomear exatamente como fiz agora. O que eu queria era comparar um lugar tão bonito, que pertence a uma pessoa tão feia, o que, de certa forma, é injusto.

Mas, como meu leitor percebeu a retirada da foto, preciso explicar-me.

Demorei muito a aprender a dirigir, ainda estou aprendendo e não pretendo infringir a legislação, seja agora ou depois de ter carteira definitiva. Penso que as leis deveriam ser respeitadas em todos os níveis, sempre, afinal elas servem para que não sejamos animalescos, para que nos relacionemos com o outro e com o mundo de forma civilizada. Para algumas pessoas não são necessárias as leis, o respeito é intrínseco, para outras, nem existindo leis resolve. Elas não respeitam nada mesmo e impõem o que pensam e o que sentem a todos os outros. É o caso dessa colega. Infelizmente para quem tem que conviver com ela.

Esse fato me incomodou durante o final de semana, foi como se uma espinha de peixe estivesse atravessada em minha garganta. Difícil de engolir.

domingo, novembro 06, 2011

As chaves



Gosto de estar em Porto Alegre. Gosto do burburinho das ruas, do por do sol do Guaíba, da agitação cultural. Gosto dos bares da Lima e Silva, embora não tenha ido a nenhum deles (ainda). Mesmo assim, gosto de passar e ver as pessoas sentadas, conversando, bebendo, confraternizando.
Por outro lado, quando vejo pessoas dormindo nas ruas, enroladas em um cobertor velho e sujo, não consigo deixar de pensar que elas têm (ou tinham) uma família, pai, mãe, irmãos. Ou não. Mesmo que não tenham, como diz a minha mãe, "não são filhos de carucaca", embora eu não saiba exatamente o que quer dizer isso. Elas nasceram de uma mãe, isso é certo, embora possam ter tido apenas mãe durante a vida toda.

Mas, é nessa Porto Alegre e nesse domingo ensolarado de novembro que aconteceu um fato inusitado, desses que a gente ouve falar mas que nunca nos aconteceu.
Indo para o brique da Redenção, dei uma paradinha na praça da Matriz para tomar água e descansar à sombra das acácias e jacarandás, quando uma moça aproximou-se e perguntou se eu ia ficar por ali. Respondi que ia ficar um pouco, mas não muito. Ela explicou que alguém deixara um molho de chaves sobre o banco próximo dali, onde ela estivera sentada e que ela não queria ir embora deixando as chaves; alguém poderia pegar e o dono não mais as encontraria. Percebi que ela estava aliviada em passar para mim a responsabilidade sobre as chaves. Ela explicou que provavelmente alguma mulher teria deixado cair da bolsa e entraria em pânico quando percebesse a perda. Que poderia ser alguém que tivesse estacionado o carro por ali e só notaria quando fosse embora. Perguntei se não daria para identificar a marca do carro pela chave, ela disse que não. Enfim, ela foi embora e eu me aproximei do banco, sentei ao lado das chaves. Junto tinha um chaveiro escrito "enfermagem". Várias chaves, todas de portões e portas de casa, nenhuma de carro.Além de várias chaves comuns, todas de portas externas. Deduzi que a pessoa deveria, provavelmente, morar por ali. Além disso, dois cortadores de unha de aço inox, exatamente iguais. Pensei que as chaves seriam de um homem, já que mulheres não cortam a unha com cortadores, elas lixam, tiram a cutícula e pintam, embora isso seja regra, há exceções. A menos que essa mulher seja uma enfermeira, o que faz com que tenha sempre as unhas bem cortadas e sem esmalte, o que explicaria um cortador de unha. Mas dois? Um talvez já não corte tão bem, então tem junto um novo cortador de unha, ambos da mesma marca; Unhex.
Observei as pessoas ao redor, uma mãe brincando com o filho na pracinha, um morador de rua deitado junto a um monumento, um casal sentado mais adiante, outro casal passando com um cachorrinho, um skatista, dois rapazes com camisa do Inter conversando. Nenhum guarda, nenhum ponto de táxi próximo. A moça que me passou a responsabilidade de guardiã das chaves já ia longe, certamente aliviada por se livrar do compromisso auto imposto. Pensei em levar as chaves comigo e deixar o número de telefone sobre o banco. Nisso aproximou-se um senhor e sentou-se no banco em frente ao meu. Eu perguntei se ele ficaria ali por muito tempo ao que ele respondeu com outra pergunta; por que? Expliquei o caso da chave e disse que iria deixar pra ele a função de cuidar das chaves, eu teria que ir embora. Ele disse que se fosse uma mulher, cuidaria, mas das chaves não. Pedi uma caneta emprestada e escrevi num pedaço de papel de propaganda que estava por ali, a seguinte mensagem: "Estou com as tuas chaves" e o número do meu telefone. Deixei em cima do banco com uma pedra em cima, guardei as chaves na bolsa e fui embora. O "senhor" queria guardar mais do que as chaves, então não dei muita bola pra ele.
Fui embora pensando se teria feito a coisa certa. Quantas pessoas ligariam para o meu celular passando trotes? Será que a pessoa que perdeu a chave retornaria àquele banco? Dobrei a esquina, andei uma quadra e senti que minha bolsa estava pesando muito. Senti que aquele peso todo era das chaves de alguém, da vida de alguém, das portas que só deveriam se abrir para essa pessoa, a enfermeira ou enfermeiro, ou estudante de enfermagem, ou quem quer que fosse. Não era da minha história, da minha vida, não era a minha carga.

Voltei ao banco, peguei o bilhete que, provavelmente ainda não havia sido visto por ninguém, coloquei no lixo, devolvi a pedra ao chão. Do outro lado da rua (sempre do outro lado da rua) tem a sede de um partido político e mesmo sendo domingo, um pintor varria pacientemente a calçada onde havia vestígios de tinta e reboco descascado. A porta estava aberta, entrei e bem próximo havia uma mesa, vários blocos e papeis para rascunho e uma canetinha hidrocor vermelha. Peguei um pedaço de papel e escrevi "Estas chaves foram encontradas no banco em frente, na praça". Saí como entrei, quieta e sem ser vista. Aliviada, não deixei a chave na rua, não trouxe comigo. Alguém que a encontrasse, certamente se sentiria responsável por ela.
E o dono ou a dona das chaves, a essa altura da noite, já deve ter encontrado um chaveiro para, pelo menos, poder entrar em casa.
Lamento, é um mistério que não desvendarei, mas o que seria dos mistérios se todos fossem desvendados? Não existiriam. E a vida, sem mistério, não tem graça.

quarta-feira, novembro 02, 2011

A beleza e a solidão



As areias das praias de Natal parecem infindáveis.Na solidão do espaço, de repente passa uma charrete carregando um pescador, ou é um pescador carregando uma charrete? Passa tão lentamente e, paradoxalmente, tão rápido que quase não conseguimos registrar. Ela estava lá e de repente não estava mais.

segunda-feira, outubro 31, 2011

A propósito....





...que pode uma criatura, entre outras criaturas, senão amar?

Sobre sonhos, fantasias e cruezas, ou seja, o feijão e o sonho.

Eu conversava com uma amiga e ela dizia que só gostava de filmes que mostrassem a realidade, que não gostava de assistir nada que não pudesse ser real. Fiquei pensando nisso porque eu gosto de filmes de ficção científica. Gosto de Guerra nas Estrelas (no tempo em que se ia ao cinema) Matrix, Kill Bill e, especialmente, Blade Runner. Cada um com seu mérito. Vi Guerra nas Estrelas no cinema há trinta e tantos anos. Era tudo realmente fantástico, a tela, o som e a época.Eu usava calças boca de sino laranja brilhante. Pode?
Na tv, já com meu filho pequeno, gostávamos de assistir O Incrível Hulk. Quando o cientista se transformava em Hulk, após um acesso de raiva, meu filho se agarrava em mim e quase nunca via a transformação. Com o tempo outras versões para o cinema apareceram, mas o Hulk nunca mais foi o mesmo. Depois, assisti Blade Runner, também no cinema, o que causou em mim um esforço para compreender todas as nuances do filme. Seria Dick Deckard também um andróide? Por isso, e por gostar mesmo, assisti várias vezes. E a música? Vangelis! Perfeita para cada momento do filme. Hoje revejo Blade Runner e ainda e sempre é meu favorito. E Harrison Ford era um jovem ator. Todas as cenas são muito boas, mas uma das finais é a que mais gosto; quando o replicante o salva da morte e diz, entre outras coisas, que "é difícil viver com medo, assim vivem os escravos" e depois diz "tem coisas que se perdem, como lágrimas na chuva". Enfim, gosto desse filme e para mim ainda é um mistério. Outro filme que gosto muito é AI - Inteligência Artificial. E nesse aparece toda a relação de amor entre mãe e filho. E um questionamento já iniciado lá em Blade Runner; pode o ser humano (o humano)usar e abusar da criação científica, laboratorial, geneticista? Existe realmente um mérito e uma ética nisso? Reflexões a fazer. Cada vez que assisto A.I. choro!

Depois vieram Harry Potter e o Senhor dos Aneis. Uma ficção para adolescentes.Sendo assim ou não , vendeu-se milhares de livros, o que é bom. E agora pouco a saga dos lobisomens e vampiros, filmes mais superficiais e que resisti a ver, mas acabei me rendendo e confesso que gostei.

E pensando em filmes, sou levada a pensar em ficção literária. Antes de ser transformado em filme, um texto, um roteiro é escrita, é palavra. E aí, percebo que também sempre gostei de ficção também na literatura. Admirável mundo novo,do Aldous Huxley. Eram os deuses astronautas? de Erich von Däniken. E "A revolução dos bichos", do George Orwel. Sei que é uma metáfora socialista, não exatamente uma ficção e que, sem muito esforço, podemos identificar o porco, o cachorro, a galinha, aqui mesmo perto de nós, no político ao lado, quem sabe.

E a literatura fantástica do Saramago (A Caverna) e do meu preferido, Gabriel Garcia Márquez, com seus Cem anos de solidão, O amor nos tempos do cólera, Contos de mamãe grande, Crônica de uma morte anunciada e muitos outros? Contos fantásticos maravilhosos.
E aí, retornando muitos,muitos anos, lembro de O chapeuzinho vermelho, Os três porquinhos, Os sete cabritinhos. São histórias fantásticas, não podem existir, não fazem parte da realidade ou do realizável, mas são extremamente importantes para a criança, assim como a fantasia é importante para o adulto.

E o que disse à minha amiga foi que a fantasia, o sonho são necessários a nossa existência. O que seria de nós, humanos, se tudo fosse absolutamente real, físico, material, frio? O que seria de nós se as histórias, os filmes, as imagens, fossem apenas aquelas que são cognoscíveis, viáveis, pertinentes, possíveis? O que seria de nós se não fosse o sonho, a fantasia? Enlouqueceríamos, certamente. Precisamos do sonho, da esperança, da imaginação.
Pelo menos eu, preciso.

sexta-feira, outubro 28, 2011

Amar (o meu)

Sempre gostei desse poema do Drummond; Amar.

"Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?"

Quando ouço o primeiro verso, todos os outros se desencadeiam e se derramam aos meus ouvidos e ao meu coração. É como um ar que atiça meus sentimentos, minhas dores, meus amores. Pelos meus filhos, pelas pessoas a quem amo, em quem penso, de quem sinto saudades. Pelos que foram e pelos que estão. Amor por mim, pela menina que fui um dia e que há tanto tempo me abandonou.

Que pode uma criatura entre outras criaturas senão amar?
Amar e malamar, amar e desamar, amar e perder, amar e sofrer?
E sempre, sempre e sempre amar.

Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, outubro 26, 2011

A mediadora




A Lu mediando obras de arte no Santander Cultural/Bienal do Mercosul

Em respeito ao meu único e fiel leitor

O blog continua (quase) o mesmo.

Preguiça de Mulher

Lembrei de uma massa que minha mãe fazia quando éramos pequenos e que se chamava "Preguiça de Mulher". Era uma massa feita com farinha, ovos e água, eu acho. Chamava-se assim porque era simples de fazer, e rápida. Era mole, pegava-se às colheradas que iam sendo colocadas diretamente na água quente. Ficava pronto rápido, por isso o nome de preguiça de mulher. Era um prato simples, acompanhado de molho, normalmente de tomate e cebolas, que também é fácil e rápido de fazer. Em todo caso, a "preguiça da mulher" resultava em um prato saboroso que devorávamos com prazer.

Hoje não se come mais essa massa, come-se Barilla, que cozinha em 3 ou 4 minutos, al dente. É tão gostosa quanto a massa que minha mãe fazia às pressas, com poucos ingredientes, mas não tem aquele gosto de infância.

terça-feira, outubro 25, 2011

Frescura de Mulher






Depois de muito andar com o João e a Denise pela beira da praia e de termos sidos "salvos" por um bugueiro, enterrei, literalmente, os pés numa mistura de areia, barro e detritos de peixes e caranguejos. É o que se chama de "terra fértil" ou melhor, água fértil, onde pululam milhares de seres vivos. Confesso que meu desprendimento pelas banalidades humanas como pés limpos se desfizeram. Não sou tão agreste ou tão selvagem assim. Chegamos a uma pousada e consegui lavar os pés, tirar o barro, o que me deixou bem mais confortável. Frescura de mulher? Pode ser, assumo.

No Farol, em Galinhos

quarta-feira, agosto 31, 2011

Setembro

Finalmente agosto se vai. É tempo de acordar, de brotar, de florescer, renascer. Tempo de acordar. Em agosto perdemos amigos, uns viajaram, outros morreram.Quem sobreviveu à agosto, viverá.

domingo, agosto 21, 2011




Receita de músico

segunda-feira, agosto 01, 2011

Tempo

de recolhimento.

quinta-feira, julho 28, 2011

Precisamos querer ser como as árvores

Precisamos querer ser como as árvores; seres com fortes e profundas raízes na mãe Terra, que se nutrem e alimentam seus filhos. Precisamos querer ser como as árvores com seus galhos harmoniosamente rasgados que se estendem aos céus e abrigam milhares de seres invisíveis, e na noite, observam em silêncio a passagem das horas. Precisamos querer ser como as árvores em sua dignidade e serenidade, fortes, frágeis, guerreiras serenas que dão flores e frutos, e sempre, apesar de tudo, buscam a vida.

Kafej Kupri

Uma pessoa nasce sem nome e após receber um e ser literalmente nomeada pelos seus pares, ela passa a carregar esse nome ou o nome a carrega? Quando falamos em determinada pessoa e a chamamos pelo nome, visualizamos a sua imagem, então o nome tem uma imagem, ele passa a ser físico. . Alguns nomes nos parecem belos, combinam com a pessoa. Alguns são a própria imagem da beleza, como Bela ou Linda. Alguns são meigos, como Dona Mimosa, por exemplo. Ou são sensuais, como Maria dos Prazeres. Ou dolorosos, como Maria das Dores. Alguns são ridículos, como Adegesto Pataca, ou assustadoramente eróticos como Xana, que antigamente não tinha a conotação que tem hoje, ou Bucetilde Pinto, chamada por Dona Tilde. Ou os que lembram sempre um automóvel, como Chevrolet da Silva Ford. Os pretensos a lembrar astros da música pop como Máiquel Diéquison da Silva, ou os totalmente indecisos como Inelegível Legível. Os voltados para a área da saúde, como Esparadrapo Clemente de Sá ou Maria Aspirina de Oliveira.
Muitos desses buscam os cartórios de registro civil para alterar o nome, o que não é tão simples. Uma amiga conseguiu trocar o nome de Xana para Milena. Eu a chamo de Milena, mas sempre lembro da Xana. O nome.Algumas pessoas, mesmo com um nome normal, acabam trocando-o por um apelido. Lisiane se chama Pipoca, Gustavo se chama Frango e Isaías se chama Morto. Outras famílias usam letras do alfabeto para nomear os filhos, como Alberto,Beatriz,Carlos,Dora,Eulália,Francisco,Gorete,Helena,Iolanda,José, Luiz, Maria....até o Zeno. Outros usam a mesma letra, numa variação infindável; Aldo,Alberto,Alma,Alcéia,Alcides,Alcinéia,Alcebíades...Ou juntam o nome da mãe e do pai; Joana e Antonio: Joanton,Antojon,Joania,Jonia,Anjon,e assim por diante.

Mas também existem os nomes temáticos; os Cristãos, por exemplo, colocam nomes de origem bíblica nos filhos: Raquel, João, Lucas, Pedro, Paulo. Os televisivos seguem a novela da hora e, de repente, nascem uma porção de Astro Herculano. Tem também os nomes literários, Aureliano Buendía, Clarissa, Ana Terra....boa literatura!

Também existe uma leva de nomes influenciados pelos comerciais de televisão, como Anderson Clayton, Doriana,(margarina), Tiger, inspirado no desenho infantil He Man, ou nomes norte americanizados como Kirllian. Existem os nomes de duplo gênero, que transitam dos dois lados,como Nadir, Clair. Os nomes fortes como Helena, Vitória, ou os esperançosos, como Esperança, (ah, menininha dos olhos verdes que despenca lá do algo do décimo segundo andar do ano...como é teu nome? Es-pe-ran-ça).Os nostálgicos, como Dona Saudade. Os burgueses como Patrícia e Maurício.

Tem os enigmáticos, como sobrenome Nacarato.Japonês, chinês, italiano? Nacar Ato.
Na Carato, Naca Rato, Nacara To.

Tem os melódicos, como Rogerio Rosa. Roger io Rosa. Ro Gerio Rosa. Rog Er Io Rosa. Rogerioro Sa.

Os nomes das minhas amigas Elisena Madaina, Angela Dornelles...chiquérrimo! Nomes nobres.


Já os povos indígenas tem uma forma especial de pensar o nome das crianças, conforme a sua cultura e mitologia. Na concepção guarani, o que determina o nome é justamente a
região de onde vem a alma da criança, não sendo jamais uma decisão arbitrária dos pais. É com base no “lugar de onde vem a alma” que onome será constituído. E, ao saber sua origem, que sempre é dada pelo próprio filho por meio de sonhos, os pais também saberão suas qualidadese características individuais. Cada região do “zênite” possui determinadosaspectos, assim como seus moradores. A origem do nome permite prever um pouco do percurso futuro dessa criança que ainda sequer nasceu,seus gostos, jeito de ser e possíveis caminhos a serem percorridos.Um exemplo de nome Guarani é Zico....., que quer dizer......

Quando uma criança kaingang nasce ela recebe dois nomes, um que pode ser o nome de uma planta, um animal, uma flor, um pássaro ou um animal selvagem e outro nome que é dado pela sociedade ocidental. Por exemplo; uma indígena pode se chamar Joziléia....., nome ocidental e kaingang. Ou Pedro....., que quer dizer.....em kaingang. Também é dado à criança o nome de alguém que já morreu e que tenha tido um bom espírito.

Meu nome é Lylian Cândido, que quer dizer Lilliun Candidus, lírio branco, que em kaingang quer se escreve Kafej Kupri. Esse é meu nome Kaingang.


Enfim, carregamos o nome e ele nos carrega?

quarta-feira, julho 27, 2011

Hai-Kai das Queixas e das Gueixas (por anonimus)

Hai-kai das aparentes insignificâncias altamente significantes da amada língua da pátria mãe gentil...ou...ô língua.

Das gueixas,
Claro,
Não há queixas.

Hai-kai das ap...etc...ao contrário

Queixas?
Claro,
Não há gueixas.

terça-feira, julho 26, 2011

O grupo

As 3 gurias

O maestro

Ensaio

Queixas e não Gueixas!!! :)

Em Porto Alegre o Coro fará uma apresentação. Esta será na abertura da Bienal, dia 10 ou 11 de setembro, ainda não sei bem. Esse trabalho do artista finlandês, Oliver, estará na Bienal, numa sala especial, onde passarão o tempo todo imagens dos ensaios e das apresentações do Coro, em Teutônia. No domingo ocupamos a rodoviária de Teutônia, na minha opinião um dos lugares mais feios da cidade, mas na visão do artista, completamente pertinente e representativo do lugar.

Coro de Queixas

Participar do Coro de Queixas foi algo muito especial. Preciso louvar o mérito do músico, maestro e arranjador, Lucas Brolese. Ele conseguiu, em pouquíssimo período de tempo, encontrar e agregar pessoas muito diferentes entre si; pessoas que não se conheciam ou apenas tinham se visto ocasionalmente para, juntas,dedicarem-se a um trabalho em conjunto, um trabaho de coro, em que o sucesso de um depende do sucesso de outro. Ou melhor, o resultado de um contribui para o bom resultado do outro. A partir das queixas apontadas por inúmeras pessoas da comunidade,foi feita uma organização, uma musicalização e arranjo, expressando essas queixas de forma prazerosa e agradável para quem ouviu. A música foi composta em três ritmos; primeira parte um arranjo para coral erudito. A segunda parte com ritmo flamenco e a terceira parte em ritmo de samba. Entremeios dois momentos hilários e imperdíveis, um diálogo entre uma atendente de telemarketing e um fã da novel Insensato Coração e um momento em que todos, literalmente, latem para representar os "cachorros do vizinho". Na última quarta-feira antes da gravação e apresentação ao público, chovia aos cântaros. Choveu durante todo o dia e toda a noite. E as pessoas estavam lá, fiéis, presentes, apesar da chuva e do frio. E isso porque acreditavam na ideia do artista finlandês Oliver Kochta-Kalleinen no carisma do professor Lucas que, e diga-se de passagem,foi alvo de uma queixa "meu professor de vocal e violão chega sempre atrasado".Defeito perdoado tendo em vista o carisma, alegria e atenção com que contempla cada uma das pessoas com quem convive. O resultado não poderia ser menos do que maravilhoso. Quem quiser conferir, no próximo dia 11 de setembro o grupo fará apresentação na abertura da 8ª Bienal do Mercosul, no cais do porto, em Porto Alegre.

quarta-feira, junho 15, 2011

Quem?

....mergulha no fundo da alma humana e lá descobre a fonte de irracionalidade no continente secreto de onde brotam as pulsões que nos motivam.

O Ramo de Ouro ,
Frazer.

(Prefácio)

quinta-feira, junho 09, 2011

Tortura

Tortura.Essa é a palavra que sintetiza o processo de aquisição da "carteira de motorista". Quando tomei conhecimento de tudo o que viria pela frente, ou melhor, que eu pensava que viria,me assustei com algumas coisas. Hoje vejo que aquelas coisas eram nada perto do que viria.

"O exame de olhos"
Fiquei um pouco preocupada porque o médico examinador é o mesmo com quem consultei há meses e que receitou óculos para longe e para perto.Ou seja, não enxergo de perto, e menos ainda de longe. Mas uso óculos apenas para leitura, sou adepta da teoria que se olhos acostumarem com óculos, cada vez enxergarei menos ou não enxergarei sem eles. Mas....o médico, que deveria me conhecer e reconhecer, porque moramos na mesma cidade (bem pequena) e que já me atendeu várias vezes (ele é oto-rrino-laringo-logista), não só não me reconheceu como atestou que eu enxergo perfeitamente bem e não preciso de óculos. Então, passei na primeira fase.

"O exame psicotécnico"
Também estava preocupada com esse exame, pois não sabia do que se tratava. Como professora, aprendi que devemos sempre explicar aos alunos o processo do que vai acontecer,o objetivo, o como, a avaliação, etc,etc,etc. Fomos colocados numa sala e ficamos um tempo aguardando. Então, entrou uma mulher, que deve ser a psicóloga, distribuiu cadernos de exercícios e deu instruções. Iniciar o preenchimento quando ela mandasse e parar quando ela desse um sinal. Assim fiz. Os exercícios eram repetir risquinhos e eu o fiz da melhor maneira possível, todos quase iguaizinhos, com tranquilidade, com segurança de quem está acostumada a traçar risquinhos. Passei. Parabéns, ela disse, está aprovada. Na hora. Ah, passei, eu disse. Passei no psicotécnico! Hoje me pergunto se alguém reprova. Deve reprovar.

"O exame teórico"
O lugar onde tivemos as aulas teóricas é precário, como precárias são todas as instalações do CFC.Iniciei as aulas no verão, das 19h às 22h. As cadeiras duras, a sala pequena e apinhada de gente. O ar condicionado não dava conta de refrigerar o ambiente. No intervalo de 15 minutos íamos ao banheiro, à padaria ao lado ou tomar um café preto que a professora requentava para todos. O banheiro, com uma torneira sempre vazando, sem sabonete e sem toalha de papel. O vaso também, sempre vazando, não dava para sentar, tínhamos que fazer xixi de pé, ou melhor, semi agachadas, sem encostar as coxas na beirada do vaso. Os homens, como fazem xixi de pé normalmente, creio que não tiveram restrições ou problemas com o banheiro. A televisão onde foram passados os vídeos é mínima, pendurada no teto. A única coisa, e talvez a mais importante, que se salvou, foi a professora. Kelen, a professora, explica bem,muito bem. Noites e noites aprendemos sobre legislação, sinalização e fizemos simulações de exercícios. Eu prestei atenção, fiquei com dor no cóccix, de tanto ficar sentada, e aprendi. No dia da prova, lá estava eu, de caneta preta e lápis 2b, em punho. No dia do resultado soube que gabaritei a prova, ou seja, acertei as 30 questões.

"As aulas práticas"
Os carros do CFC são todos iguais, ou pelo menos tentam ser; são da mesma marca e sem direção hidráulica. Sem ar condicionado, sujos por dentro, cheios de pó, de terra mesmo. Fiz a quase totalidade de aulas práticas com o mesmo professor. No primeiro dia cheguei antes da hora; penso que devemos ser pontuais. Na primeira aula eu não sabia nem ligar o carro, quanto mais fazer as mudanças. Saí do zero. Não sabia fazer conversões à direita, esquerda, onde parar, como parar. Fui fazendo aulas e aprendendo. Fiz algumas aulas e fiquei quase um mês sem ter aulas porque não tinha mais horário na autoescola. Isso no verão. Quando retornei, à noite, quase já tinha esquecido o que tinha aprendido. A minha dificuldade maior era o morro. Como estacionar no morro e arrancar SEM QUE O CARRO VOLTE PARA TRÁS. E sem deixar apagar. O instrutor dizia: "quando o carro começar a tremer, é pra tirar o pé do freio e colocar no acelerador". Às vezes a embriagem tremia, o volante tremia, o carro todo tremia. Eu tirava o pé do freio e colocava no acelerador....e o carro morria. Hoje sei que preciso tirar o pé da embrigaem até sentir que o carro vai ficar parado. Isso significa "segurar o carro só na embriagem". E aí, acelerar tirando o pé devagar da embriagem. Com calma, com tranquilidadEe,sem tremedeira.

O instrutor
Fiz a quase totalidade de aulas práticas com o mesmo professor. No primeiro dia cheguei antes da hora; penso que devemos ser pontuais. O professor, nada. Demorou a chegar, aí preenchia os registros referentes às distâncias percorridas pelo carro.No decorrer dos dias descobri que ele nunca chegaria na hora, sempre passava uns 5 ou 10 minutos. E numa das vezes que saímos para o percurso na rua, mandou que eu estacionasse numa esquina para ele "pegar" limão num limoeiro que ficava na calçada de uma casa. Noutra vez, enquanto eu fazia baliza, ele foi fumar e conversar com o instrutor do carro de trás. Eu não queria falar, achava que isso me prejudicaria. Ledo engano. Em vinte aulas não aprendi a fazer a terceira marcha. Só descobri que precisaria fazer três vezes durante o percurso no dia da prova, ou reprovaria, porque uma moça (uma vítima) que fez prova no mesmo dia que eu, me contou. Peguei ogeriza pelo instrutor. Nas duas últimas aulas mudou o instrutor, e aí aprendi coisas que nunca havia aprendido, como fazer terceira marcha e alinhar no morro.


A prova prática ou a tortura final
O dia da prova prática é o ápice da tortura final. Ficamos todos no mesmo espaço,ou seja, na calçada, de pé, aguardando.Parece gado apavorado esperando o momento de ir para o matadouro. Passado do horário combinado vem um dos instrutores fazer a "chamada". E aí, aleatoriamente, vai chamando de dois em dois, ou três em três. Se o candidato volta em seguida, a pé, é porque rodou. Se o carro desaparece e volta uns quinze minutos depois, pode ter passado ou rodado. Sabemos pela imagem de profunda prostração, por aqueles que vão embora e não olham pra trás ou daqueles que abraçam o avaliador, e abrem a boca de orelha a orelha. Eu, depois de duas horas de pé e ouvindo as mulheres (principalmente) contando em minúcias quantas vezes reprovaram "ah, eu é a nona vez...mas não desisto", "ah, eu já vou fazer um ano que to fazendo a cartera...nunca saí da baliza" ou "eu nem tô, se não passar vou fazer de novo". E eu... fazendo a prova pela terceira vez, vou ficando apavorada. No dia anterior fiz baliza direitinho, perfeita. Não encostei atrás, nem na frente, nem dos lados. Encostei apenas os quatro pneus no chão, isso pode. Quando chega a minha vez, entro no carro, coloco o cinto, ajusto os espelhos....e de repente a boca fica seca, não engata a marcha...e ouço a voz da mulher que ouvi por último..."não seeeei o que me dá....eu seiiii dirigiiir...mas quando entro no carrro....dá um brannnco....não sei mais fazer naaaaada......a perna treeeme" Ai,meu Deus....a voz arrastada da mulher parece que entrou dentro de mim, o carro não anda...não consigo mais pensar, não acerto as marchas....fico em pânico, bato na baliza, derrubo tudo. O avaliador e meu instrutor,um solidário e o outro consternado, ficam me olhando penalizados. E eu digo para o meu instrutor "tu sabe que eu sei fazer baliza, diz pra ele que eu sei fazer...não sei o que me deu". Pronto, rodei de novo. Vou em direção à esquina, sem olhar pra trás. Fico puta da cara comigo mesma. Não sei o que me deu, emburreci. Rodei. Aiiiiiiiiiiiiiiiiii, que tortuuuuuuuuuuura!!!!

A separação de sílabas é uma licença poética!

segunda-feira, junho 06, 2011

Laranja do céu




Laranja do céu é uma laranja extremamente doce; pequena, simples e doce.

sábado, junho 04, 2011

Pressentimento

Pressenti a tua chegada desde tempos imemoriais.
E hoje, quando chegas, finalmente, abro
os braços à imensidão do universo
para te acolher no aconchego
do meu coração.

Te recebo assim, pelos olhos e pela pele
e te reconheço como o Eleito
dos meus dias
e minhas noites eternas.

E, num ato prazeroso de comensalidade,
me embebedo de tuas águas
e tuas carnes,
te fazendo, novamente,
parte de mim.

sábado, maio 28, 2011

Vinho seco e laranjas do céu

Uma vez escrevi um texto sobre vinho seco e pessoas doces.O contraste entre duas coisas tao diferentes e tão especiais quando um acompanhado do outro. O sabor do vinho encorpado, a cor, o brilho, o perfume e as pessoas queridas, que nos sao caras, que fazem diferença em nossa vida.

Hoje ganhei laranjas do céu. Nunca havia parado pra pensar nesses frutos tão simples, tão delicados e tão doces. Algumas pessoas são assim; simples, despretensiosas, doces.

Ivania, minha amiga, é assim. Em sua casa jantamos um macarrão gostoso, polvilhado com queijo ralado na hora, tomamos vinho tinto seco e ganhamos laranjas do céu. E de quebra, fotografamos seus gatos e olhamos seus livros.

Uma noite perfeita.

terça-feira, março 22, 2011

Hoje
estou
poesia.

No leito do rio adormecido

No leito do rio adormecido deposito meu corpo, minha alma e meu pensamento para que, acariciados pelas águas frias e macias descansem e voem como anjos virgens e brinquem como as crianças nos jardins da infância dos meus dias.

Lua



Lua
que te quero nua
que te quero minha
que te quero só.

Lua
que te quero ninho
que te quero sonho
que te quero lua.

Ahhh...lua........

terça-feira, março 01, 2011

O Autor

Professora de Literatura em uma escola do interior sonhava em trazer grandes nomes da literatura para conversar com os alunos, falar de sua obra, de suas personagens. Antes, a preparação. Livros comprados, emprestados, lidos pelos alunos e discutidos em sala de aula. Quando o escritor chegava era um alvoroço, uma ansiedade quase lembrando um encontro de amor. Afinal, ali estaria o Autor. Aquele que era criador e responsável por todas as histórias maravilhosas trancafiadas nos livros e apenas esperando o momento exato em que o desejo é despertado no leitor e ele abre o livro iniciando um relacionamento de amor ou ódio, ou ambos.

Num tempo em que a literatura está cada vez mais relegada a segundo ou terceiro plano nas prioridades de nossos alunos e dos adultos em geral, os professores de literatura, conhecedores e eternos apaixonados, tentam de todos os meios quebrar os preconceitos e apresentar aos alunos o que existe de melhor em termos de livros e autores.

Numa dessas ocasiões, pensamos em trazer o escritor Moacyr Scliar para palestrar aos alunos e professores. Uma das questões era: Ele virá? Pensamos que seria difícil, que cobraria uma fortuna, afinal era uma estrela da literatura gaúcha, com mais de setenta obras publicadas. Ele era médico, morava em Porto Alegre e nós....no interior do interior. Mesmo assim, tentamos. Através do escritor Walmor Santos, trouxemos Moacyr Scliar até a escola. Para nossa surpresa constatamos que aquele homem miúdo e genial, de olhos azuis rasgados muito vivos, era, além de um escritor voltado para o ser humano em sua plenitude, ele mesmo um ser humano extremamente simples e gentil.

Parafraseando Carlos Drummond de Andrade nunca esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas. Nunca esquecerei o salão da comunidade repleto de alunos, professores e lá na frente, Moacyr Scliar, falando a todos como se tivesse nascido ali.
Hoje, estamos órfãos, leitores e personagens. Moacyr Scliar nos fará falta.

Órfãos

Um amigo lembrou que Moacyr deixou viúvas a literatura gaúcha e a medicina, numa comparação feliz. Penso que deixou também inúmeros órfãos. Não somente os leitores, mas também as personagens. Ao nascimento de uma personagem ela mostra quem é, tem personalidade, emoções, cria, sofre, ama, morre. E interage com as pessoas que as leem e conhecem através das suas histórias. E existem aquelas que não se contentam em surgir em apenas uma obra e vão transitando por uma e por outra, às vezes apenas de leve, sugeridas de forma que podemos entrever seus pensamentos, suas ideias. Às vezes de forma marcante, em que sua personalidade não se insinua, mas se impõem. Todas elas lá, dentro dos livros, esperando o momento exato em que um leitor sinta aquele desejo incontido de conhecê-las, e abra o livro e comece um relacionamento de amor ou de ódio.


Moacyr Scliar foi um escritor completo: transitou tranquilamente entre romances, contos, crônicas, ficção infanto-juvenil e ensaios. E poesia, sim, por que não? Quem pode dizer que a poesia não está presente em "um sonho no caroço do abacate", por exemplo. De forma simbólica, o caroço do abacate guarda os sonhos que ficaram na infância da senhora Stern, judia que deixou o seu país por causa da guerra e sonhava comer abacate, fruta cara e inacessível. O livro trata de outras questões pontuais, como a amizade, o preconceito racial, ética e amor.


Existem semelhanças entre o escritor e o médico. Ambos possibilitam o nascimento dos seres e cuidam para que cresçam de forma saudável, preservam a vida. Eu diria que Moacyr Scliar foi um médico de corpos e almas. Ele soube cuidar do corpo, do físico, daquilo que é visível e palpável. E o fez de maneira primorosa, dedicada, pensando nas populações; era médico sanitarista. Como escritor era um observador da existência humana. E a partir da sua sensibilidade de menino judeu, nascido e criado em Porto Alegre, foi aproximando letras, tecendo textos, compondo histórias sobre o ser humano e suas minúcias, revelando o preconceito étnico racial.
Hoje os gaúchos estão órfãos. Moacyr Scliar nos fará falta, como médico, como escritor e como o grande ser humano que era.

domingo, fevereiro 27, 2011

Entrega revisitada

Te afirmo
Que todos
os meus instantes
Os meus sóis, minhas luas,
Meus devaneios
E pensamentos
São pra ti.

Todos os meus sonhos,
Os meus poemas
Rabiscados
Em guardanapos
E papel de pão
São pra ti.

As minhas noites de insônia


Ou as minhas noites de sono profundo
Os meus medos noturnos
E os meus pesadelos,
Todos são pra ti.

E os meus lençóis de linho
A brancura do travesseiro
O perfume do manjericão
Os meus ais
E meus suspiros
Todos são pra ti.

As lágrimas dos meus olhos
A busca do olhar incontido
O sorriso da minha boca
Minhas palavras todas
As ditas
E as não pensadas
Todas são pra ti.

Te confesso o meu amor
Te entrego o meu amor
Porque pertenço a ti.

dez2007

sexta-feira, fevereiro 25, 2011

Quando o sol adormece sobre o Guaíba.....




....ele reverbera e transpõe as medidas exatas das linhas sólidas para derramar em outros espaços suas iluminuras, numa impressão de fogo a arder nas janelas.

De repente, não mais que de repente.

É vero.
Eu sei que vou te amar.........por toda a minha vida eu vou te amar....desesperadamente eu vou te amar...eu sei que vou te amar.....e cada verso meu será...pra ti dizer...que eu sei que vou te amar...por toda a minha vida......

e eu sei que vou chorar..e cada volta tua há de apagar..o que essa ausência tua me causou....

até que...de repente, não mais que de repente, o Vinícius fala naquela voz aveludada de quem acabou de acordar....

De tudo, ao meu amor serei atento,
antes,
e sempre,
e tanto...
que mesmo em face do maior encanto
dele se encante mais meu pensamento.

Bem, mas o Soneto de Fidelidade, ele mesmo em si mesmo, ele não musicou. Mas musicou o Soneto de Separação...que ficou bem apropriado, bem triste. Como tristes são as separações.

quinta-feira, fevereiro 24, 2011

Soneto de Fidelidade e de meu amor eterno

Ah, Vinícius....de tudo ao meu amor serei atento...antes e sempre e tanto, que mesmo em face do maior encanto, dele se encante mais meu pensamento.

E em seu louvor hei de cantar meu canto, e rir meu riso e derramar meu pranto, ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure,
quem sabe a morte, angustia de quem vive...
quem sabe a solidão, fim de quem ama...

Eu possa me dizer do amor (que tive)
que não seja imortal, posto que é chama
mas que seja infinito enquanto dure.

Não compreendo como ninguém musicou este soneto que amo tanto.

Revisitar Florbela

Revisitar Florbela Espanca sempre é regenerador. Sentimentos apenas adormecidos à espera de um sinal, bem de leve, para que refloresçam, renasçam, rebrotem. O maravilhoso da palavra reside nessa capacidade imensurável e atemporal em enternecer, encantar e reverberar em corações apaixonados, em corações eternamente solitários.

Um dos meus preferidos...


Meu Amor, meu Amado, vê... Repara:

Poisa os teus lindos olhos de oiro em mim,

– Dos meus beijos de amor deus fez-me avara

Para nunca os contares até ao fim.


Meus olhos têm tom de pedra rara,

– É só para teu bem que os tenho assim

E as minhas mãos são fontes de Água clara

A cantar sobre a sede dum jardim.


Sou triste como a folha ao abandono

Num parque solitário, pelo Outono,

Sobre um lago onde vogam nenufares...


Deus fez-me atravessar o teu caminho...

–Que contas dás a Deus indo sozinho,

Passando junto a mim, sem me encontrares?


Soneto II

Amiga

Deixa-me ser a tua amiga, Amor,
A tua amiga só, já que não queres
Que pelo teu amor seja a melhor,
A mais triste de todas as mulheres.

Que só, de ti, me venha mágoa e dor
O que me importa, a mim?! O que quiseres
É sempre um sonho bom! Seja o que for,
Bendito sejas tu por mo dizeres!

Beija-me as mãos, Amor, devagarinho...
Como se os dois nascessemos irmãos,
Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho...

Beija-mas bem!... Que fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas mãos,
Os beijos que sonhei prà minha boca!...

Florbela Espanca

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

De emprestar livros e outras coisas

Tenho uma amiga com quem compartilho meus livros. Emprestei a ela Travessuras da Menina Má, do peruano Vargas Lhosa. Ela pedira sugetão de um bom livro e esse era um que ainda estava vivo em mim. Se tivesse oportunidade, e talvez tenha um dia, não há ninguém que possa dizer o contrário, eu quero traçar um paralelo entre esse livro, Crônica da Casa Assassinada, do mineiro Lúcio Cardoso e A Impura, do francês Guy des Cars. Lily, Nina e Chantal. Três mulheres. Três autores, três histórias. E vários homens, mulheres, mães, pais, namorados e sentimento. Uns que amam demais. Outros que não são amados. Trê mulheres lindas que libertam-se das amarras das conveniências,do provável, do mensurável. Três tempos diferentes. Três espaços. Em comum o serem mulheres que amam. E que ousam. E porque amam e ousam pagam o preço ditado por homens, mesmo que sejam os autores que as fazem assim. Pergunta: até que ponto o eu-lírico é só o lírico, inventado, desvinculado do eu-autor-homem, ser humano imperfeito, cheio de desejos e defeitos?
Enfim,lembrei de tudo isso porque é um projeto adormecido. Li os três livros em diferentes tempos da minha vida. É como se essas mulheres me visitassem e revisitassem e encontrassem também uma Lyli diferente. Minha quase xará e quase homônima Lily teve um fim terrível, como também o tiveram Nina e Chantal. É como se dissessem a elas "amem, mas paguem".

Quando emprestei o livro à minha amiga comentei sobre essas questões. Ela leu, devolveu e há poucos dias me procurou entusiasmada pedindo sugestões de (mais)bons livros. E explicou: conheceu um homem que lê. (!) E ele perguntou a ela qual foi o último livro que leu, ao que ela respondeu "Travessuras da Menina Má". E ele....ficou surpreso...ora, viva...uma mulher que lê! Sei que minha amiga ficou feliz, estava vibrando com o novo achado: Um homem que lê, que pensa, que tem ideias.

Emprestei a ela mais três livros; O Processo, do Kafka, imperdível para compreender a complexidade humana. Memórias de Adriano, cuja linguagem primorosa relata as reflexões e paixões do imperador romano.E....queria emprestar Crônica da Casa...mas descobri que está emprestado há meses para um amigo. Então, emprestei Dois Irmãos, do Milton Hatoun, mostra a relação de amor e ódio entre dois irmãos. As paixões, as perdas, as dores, os ganhos.

Não perguntei para minha amiga se voltou a encontrar o moço que a motivou a ler Kafka assim, tão repentinamente, mas penso que de qualquer forma terá valido a pena.

Entre os próximos livros que vou emprestar a ela estão Cem anos de solidão e O amor nos tempos do cólera, do Garcia Márquez. Embora tenha vontade de emprestar Crônica de uma morte anunciada e Memórias de minhas putas tristes. E também vou emprestar Mãos de Cavalo, do Daniel Galera e O Animal agonizante, do Phillip Roth.Mesmo que para isso tenha que torcer que minha amiga volte a se encontrar com o objeto de sua motivação.

Afrodisíaco

Frequentemente as revistas femininas veiculam matérias sobre os poderes dos afrodisíacos. Afrodisíaco (do grego tardio ‘aphrodisiakós’ = relativo aos prazeres do amor) significa «relativo à deusa do amor, Afrodite»; «que provoca ou estimula o desejo sexual». Utilizado como substantivo (o/um afrodisíaco), diz-se da «substância que produz ou intensifica o desejo sexual».

Os naturais coexistem pacificamente com os artificiais, disputando espaço nas listas de necessidades de pessoas que, de um lado vendem um produto de eficácia duvidosa e de outro lado de pessoas que pensam que precisam de um produto natural ou artificial que lhes devolvam o desejo perdido.

Filmes, imagens, palavras, fantasias, situações. Num mundo farto de ofertas de todos os tipos, a superficialidade traz a saturação. As pessoas sentem-se saturadas, plenas de tantas ofertas, tantos oferecimentos de todas as naturezas e, ao mesmo tempo, vazias. Parece que quanto mais a procura, maior a distância entre o desejo e o que podem encontrar.

Mas, e as mulheres, o que querem? O que as sensibiliza, atrai, toca? O que funciona como afrodisíaco para as mulheres? Certamente não é o que imaginam os homens. Não é um corpo sarado, uma barriga tanquinho, um rosto lisinho, uma vasta cabeleira. Comecemos por aí. Antigamente, muito antigamente, estava em voga um ditado que dizia que "é do careca que elas gostam mais". Não necessariamente, não acredito que seja dos carecas que as mulheres gostam mais. Mas, ao contrário do que muitos homens pensam, um homem careca é charmoso e sensual. Um rosto lisinho dá impressão de pouca idade, imaturidade. Rugas passam a impressão de experiência,de um presumível sofrimento e consequente sensibilidade.Barriga tanquinho dá a impressão de alguém que se preocupa demasiadamente com a aparência física e não pensa muito, literalmente. As mulheres até gostam de olhar um homem belo o que, aliás, é uma raridade, como talvez sejam raras as mulheres realmente belas, que encantam até as próprias mulheres.

Se não é o que se vê que funciona como afrodisíaco para as mulheres, então o que pode ser? Simples: Inteligência aplicada. Um homem inteligente, bem articulado, que sabe conversar, gosta de usar as palavras com adequação. Um homem que tem ideias, que gosta (e conhece)boa música. Um homem que leu alguns dos livros que você também leu, e que se surpreende por isso, é um homem excitante.

Um homem sensível, que tem atitude, que se preocupa não só com o seu umbigo,mas com as pessoas, é um homem que atrai as mulheres. Afrodisíaco para nós é nos olhar nos olhos, apertar nossa mão com firmeza. E precisa demonstrar que não tem medo de experimentar, dizer que gostou e também dizer se não gostou. Um homem nos agrada quando diz o que pensa, não quando desaparece sem dar um telefonema, o que nos faz pensar o quanto é medroso e imaturo. O que atrai uma mulher que se emociona, que vibra, que gosta de crianças, que cozinha bem. Que sabe tomar um bom vinho. Ou uma boa cachaça.

Tudo isso (e mais um pouco) são afrodisíacos para as mulheres. Talvez não seja exatamente isso que a maioria dos homens pensa que precisa ser ou fazer para agradar uma mulher. Talvez por isso, também, seja raro encontrar homens que nos encantem.

quinta-feira, fevereiro 17, 2011

Quem quer que seja você agora a segurar a minha mão

Seja você quem for segurando-me na mão,
Sem uma coisa tudo será inútil,
Aviso a tempo, antes que me tente mais,
Eu não sou o que você supôs, mas muito diferente.
Quem é aquele que se tornaria meu seguidor?
Quem se assinaria candidato às minhas afeições? Você é ele?

O caminho é suspicaz - o resultado lento, incerto, talvez destrutivo;
Você teria que desistir de tudo o mais - eu sozinho esperaria ser seu Deus, único e exclusivo,
Seu noviciado seria assim mesmo longo e exaustivo,
Toda a teoria passada da sua vida, e toda a conformidade às vidas ao seu redor, teriam que ser abandonadas;
Portanto solte-me agora, antes de se dar ao trabalho - Tire as mãos dos meus ombros,
Largue-me, e siga o seu caminho.

Ou senão, apenas de leve, nalgum bosque, para tentar,
Ou atrás de uma pedra, ao ar livre,
(Pois em qualquer aposento coberto de uma casa eu não me mostro - nem em companhia,
E em bibliotecas deito como um mudo, um parvo, ou não nascido, ou morto, )
Mas apenas talvez com você numa alta colina - primeiro vigiando para que ninguém, por milhas em torno, se aproxime despercebido,
Ou talvez com você velejando no mar, ou na praia do mar, ou alguma ilha calma,
Aqui botar seus lábios nos meus eu lhe permito,
Com o beijo demorado dos camaradas, ou o beijo do novo marido,
Pois eu sou o novo marido, e eu sou o camarada.

Ou, se quiser, me enfiando sob a sua roupa,
Onde eu possa sentir as batidas do seu coração, ou descansar no seu quadril,
Carregar-me quando atravessar terra ou mar;
Pois assim, apenas tocando você, é o bastante - é o melhor,
E assim, tocando você, eu dormiria em silêncio e seria levado eternamente.

Mas se você enganar estas folhas, corre perigo,
Pois estas folhas, e eu, você não entenderá,
Elas vão lhe escapar de pronto, e ainda mais depois - eu certamente vou lhe escapar,
Mesmo quando você ache que sem dúvida me pegou, cuidado!
Você já pode ver que eu lhe escapei.

Pois não é pelo que pus nele que escrevi este livro,
Nem é ao lê-lo que você irá adquiri-lo,
Nem aqueles que melhor me conhecem e admiram, e me elogiam com alarde,
Nem os candidatos ao meu amor, (a não ser no máximo pouquíssimos) serão vitoriosos,
Nem meus poemas farão só o bem - farão o mal também, talvez mais,
Pois tudo é inútil sem o que você pode ter pensado muitas vezes mas não atingido - o que eu insinuei,

Portanto larga-me, e segue o seu caminho.


Walt Whitman

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