sábado, julho 27, 2013

Florinda

No hospital, conheci uma mulher, negra, magra, dedos finos, rosto oval, cabelos curtos, alisados, uns quarenta anos. Fala mansa, sorriso bonito. De vez em quando passava a mão pelos cabelos. Nos obrigamos a conversar pela exigência da situação; as duas confinadas numa sala de espera. Perguntei como se chamava. Ela disse, Florinda, mas não gostava do nome, muito antigo. Eu perguntei como a chamavam, se de Flor ou de Linda. Ela disse, Linda. Nunca vi um nome mais apropriado a uma mulher. Eu diria que ela é uma Flor Linda.

terça-feira, julho 16, 2013

Um amor de cebola


Ele era um jovem ator de teatro. Guri sensível, criado no campo, no interior de Bom Jesus. Contrariando as expectativas da família que esperava que, como o pai, ele ficasse por ali, assumisse as lidas da família, foi pra Porto Alegre, estudar na UFRGS. Formado em teatro revelou-se um ator talentoso. Apaixonado pela arte de representar encenou algumas peças de um conhecido escritor gaúcho, mas  decepcionado com a rudeza e ignorância do público (e talvez com as mulheres) enamorou-se, estranhamente, de uma cebola. A atração por cebolas vinha de muito, desde a infância  quando inesperadamente passou a colocar no prato várias cebolinhas em conserva, consumindo quase todo o estoque da sua avó. Sua mãe tentou impedi-lo de comer tantas cebolinhas, mas percebeu que não faziam mal ao guri, ao contrário,parece que despertavam sua inteligência e sensibilidade. Quando foi morar sozinho em Porto Alegre descobriu o paraíso dos cebólotras  no Mercado Público. Lá, ele encontrou cebola branca, cebola roxa, cebola de cabeça, cebola em folha, em conserva, sopa de cebolas, cebola desidratada e até doce de cebola. Mas agora era diferente, seu amor estava ampliado, ia além da contemplação e da degustação. Ele estava apaixonado por uma cebolinha, casca lisa, avermelhada, redondinha. E brilhante. A cada dia desvendava uma nova superfície por debaixo de uma das camadas da sua amada. Desvelava uma a uma as partes que se ofereciam a ele. Notava, porém, que ela estava ficando menor, cada dia mais fininha. Seria excesso de amor? Descobriu que por debaixo de camadas e camadas ela parecia mais tenra, mais jovem. E assim, foi comendo uma a uma as partes da cebola, até que restou apenas um indício do que ela teria sido um dia. E nosso jovem ator chorou, não se sabe se de tristeza ou pelos últimos resquícios de gás que a sua amada exalava.

terça-feira, julho 09, 2013

Alimento


Como um sol de polpa escura 
para levar à boca, 
eis as mãos: 
procuram-te desde o chão, 

entre os veios do sono 
e da memória procuram-te: 
à vertigem do ar 
abrem as portas: 

vai entrar o vento ou o violento 
aroma de uma candeia, 
e subitamente a ferida 
recomeça a sangrar: 

é tempo de colher: a noite 
iluminou-se bago a bago: vais surgir 
para beber de um trago 
como um grito contra o muro. 

Sou eu, desde a aurora, 
eu — a terra — que te procuro. 


Eugénio de Andrade

in, Obscuro Domínio

quinta-feira, julho 04, 2013

Tarde



Ela nascera em cima de uma das pesadas mesas da tecelagem numa noite fria e escura de inverno. Quando sua mãe começara a sentir as dores do parto seu pai logo percebeu que nao daria tempo de levá-la a um hospital ou sequer procurar ajuda. Ela viera ao mundo num jato de água morna, entre uma contração e outra, ali mesmo, entre rolos de fios coloridos, cheiro de tinta e vapores das panelas de água que o pai pusera a ferver. Seu umbigo foi cortado, desligando-a do ser que lhe dera à luz, por uma pesada tesoura de ferro. Mariamares,  assim lhe chamaram para que tivesse o nome da virgem e também o do mar. Com o nome no plural ela teria uma vida singular. A infância passava se arrastando, como os rolos dos fios que ficavam jogados pelo chão e rolavam debaixo das mesas. Também ela rolava, brincando ora de castelos com os cones vazios, ora tecendo caminhos sem fim com os pedaços de fios que sobravam e  eram pisoteados sem dó. As primeiras letras aprendera com a mãe e logo lia os livros de historias que pareciam ter estado ali a vida toda, à espera que ela os abrisse  e, finalmente, trouxesse à vida personagens adormecidas. Mariamares se sentia como parte de uma dessas histórias. Tudo ela viveria e nada viveria.

Sentia as dores, o medo, e ao final a redenção pelo final onde os bons eram felizes para sempre e os maus queimados na fogueira. Agorasentia a alma inquieta, mas olhava ao redor e tudo parecia no seu lugar. As rocas girando, os cones esvaziando, as tecelãs tecendo tapeçarias cada vez mais belas, mais coloridas, mais perfeitas. Poucas vezes ela saíra da fábrica, não havia visto o mundo além do final da rua em frente ao casarão, mas não queria ir além.
Sua mãe atendia no balcão, fazia os pedidos, organizava o mostruário. Mariamares, desenhava, brincava com os lápis de cor e brotavam das folhas brancas de papel desenhos que se assemelhavam ao viver. Nem ela, nem a mãe, nem ninguém saberia dizer de onde vinham e como nasciam os desenhos  que Mariamares fazia. Uma tarde, só uma ou menos, foi o que bastou para mudar sua vida.

Ela não esperara, conscientemente, por ele. E aquela era apenas mais uma tarde, a não ser pelo fato de que ela estava luminosamente vestida de amarelo. Quando a luz que entrava pela porta foi obstruída pelo corpo dele, Mariamares levantou os olhos do desenho que fazia e olhou-o. Quase não conteve um suspiro de admiração. Ele era grande, pensou. Mais alto que a maioria das pessoas, moreno, corpo pesado. Ao tirar o chapéu ela percebeu que  não tinha um fio de cabelo, o que deu-lhe um sentimento de ternura imediata. Um menino, pensou. Os olhos amorosos, embora tristes, a voz tranqüila, embora forte. Seu dom, a palavra, a melodia. E ele falava como se recitasse poemas de amor, o tempo todo. Fluíam, brotavam de sua boca como se fossem dálias, rosas e jasmins.

 Mariamares cada vez mais espantada, ia colhendo, uma a uma, as melodias que ele cantava e deixava sair de dentro de si com suavidade.  Ela sentia que havia um fio invisível a tramar-se em torno dos dois, de maneira que ela só conseguiria pensar nele nos dias seguintes. À noite, deitada no escuro, ela ficava relembrando cada palavra, cada gesto, cada olhar, como se realimentasse indefinidamente daquele único encontro. Ao partir ele lhe dera um abraço entre tímido, meio apressado, meio demorado. Ela descobriu, então, que era para ele que tinha vindo ao mundo, era para ele que estava ali, que era por ele que esperara a vida toda.
Mariamares sabia que ele estava lá,  depois da última árvore, quando a rua faz uma curva e deságua no rio. Ela foi infinitas vezes até a porta, saiu para a rua, olhou para o caminho que ele percorrera, vasculhou as redondezas com o olhar dolorido, mas não mais o viu. De seus pés saiam incontáveis fios de todas as cores que iam confundindo-se com os fios perdidos pelo chão e subiam pelas mesas, pelas rocas, pelos teares e penetravam na trama fechada das tapeçarias em composição.. Mariamares estava impedida de ir, presa uma teia tecida ao redor de si, e não podia ficar porque seu coração ja não estava mais ali.

terça-feira, julho 02, 2013

Fanatismo


Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão de meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

Tudo no mundo é frágil, tudo passa..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, vivo de rastros:
"Ah!  Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!..."

Florbela Espanca

O teu olhar

Quando o teu olhar
desagua nos meus olhos
sinto a noite abrir-se
num céu de ternura,
nas minhas mãos
a doce água do rio,
nos teus olhos
a saudade
como nunca ninguém
sentiu..."

2013 - Santiago Salvador

Lá e cá

Mesmo longe, estou aqui,
mesmo lá, estou cá,
mesmo indo, estou vindo.

 O longo caminho,
 os distantes casebres entremeados nas matas,
 as frágeis e finas
folhas dos trevos
os capins mais tenros
as pedras mais encravadas

não se dão conta da distância
entre lá e cá
não sabem
não percebem

não há distância
estou aqui
e estou lá
no tempo
que está
permanece
eterno, dengoso, lento
e sempre, e de novo.

  • A Igualdade é Branca
  • A Fraternidade é Vermelha
  • A Liberdade é Azul
  • Blade Runner