sexta-feira, setembro 19, 2014

O retorno de Maria


Maria voltou! Foi isso que Pedro me falou num misto de alegria e surpresa. Vasculhei a imagem da rua recortada pela porta envidraçada do hotel, mas não a vi.  Durou exatamente dois dias o exílio de Maria. Eu e Pedro ainda estávamos impactados pela repentino afastamento dela pela polícia local, quando ela retornou.
A literatura permite-se divagar e imaginar o destino de suas personagens. Quando não sabemos o que aconteceu com elas, o que foi o caso de Maria, queremos crer que reencontrou a família, que ficou lá no sertão acolhida por sua mãe e recebida aos pulos de alegria pelos filhos. Ou que foi internada em um hospital psiquiátrico, e a essa altura eu já estava colocando Maria no primeiro mundo. Eu já via Maria de roupa branca, cabelos soltos, o olhar perdido, submetido a doses de analgésicos e psicotrópicos, vagando pelos corredores limpos de um hospital, cheirando a éter. Pensei em Maria surrada, abandonada à beira do caminho para o sertão, faminta, desgrenhada.
E eis que Maria ressurge, mais altiva, o olhar mais duro, mais atrevida. Nesse mesmo dia pensei em oferecer a ela uma maçã e um pacote de doces de goiaba, que era o que eu tinha. Ela disse com voz áspera "vá envenenar o cão!". Não pude deixar de me sentir a legítima bruxa dos contos de fadas que oferece a maçã envenenada à Branca de Neve. É provável que ela nem conheça a história da Branca de Neve.  Confesso que fiquei assustada por sua reação, mas já sabia que ela não aceitava alimentos, a menos que deixassem no chão próximo e ela pegava quando quisesse. Parece que funciona mais ou menos como um controle da situação. Não há uma pessoa que precisa e outra que dá. Não há reciprocidade entre o dar e receber. Lembrei da história do rasgar dinheiro.
Passei a observá-la de longe e evitava olhar pra ela quando sabia que estava me olhando. Eu sentia seu olhar me acompanhando quando eu passava.
Um dia vi que conversava com garis, homens e mulheres que descansavam à noitinha, sentados na calçada. Ela continuou dormindo no batente da janela de um prédio próximo, enrolada num lençol, com a cabeça voltada pra parede, os chinelos também adormecidos ao lado, protegendo sua dignidade da curiosidade alheia.

Numa manhã de sol, depois de vários dias chuvosos, ela sentou quase na porta de hotel e tomou banho. Encheu um galão de água numa torneira próxima e esfregou os pés. Depois jogou água nos cabelos e no corpo todo, assim como estava, vestida.
As vezes eu saia do hotel e ela estava exatamente na porta, mas o olhar está lá adiante, depois da rua, depois do largo à beira mar, depois do mar.
Maria escolheu este lugar para esperar, para viver. Não há mais mãe, não há pai, não há filhos, não há companheiro. Não sei o que será de Maria, talvez ela fique ali até que a polícia venha é a leve de novo e ela retorne. Ou não.




quinta-feira, setembro 04, 2014

O professor de frescobol

Dois caras altos, fortões, malhados, jogando frescobol na beira da praia. Um deles grita o tempo todo, xingando o outro. Porra é apenas a entrada para um cardápio digno de um filme de quinta. O som da raquete batendo na bolinha com violência encontra eco na voz gritante e estrondosa,
Não poderíamos deixar de ouvir, mesmo que quiséssemos, eu e os veranistas dos guarda-sóis à esquerda e à direita nos próximos cem metros. Eu estava tentando ler o Borralheiro, do Carpinejar, e tapei o ouvido direito com uma mão e segurei o livro com a outra, mas tive que me render aos berros que vinham da beira do mar, a poucos metros.
O som das ondas quebrando suavemente na praia, no mês de setembro, deveria ser o único som a ser ouvido. Conjecturei que deveriam ser namorados, o que explicaria, ou não, a passividade de um e a agressividade do outro. Mas não, dentre os berros que chegaram pela brisa, ouvi a palavra professor, porque além de se esmerar nos palavrões, o cara fez questão de dizer que ELE era o professor...!

Penso que o prazer de jogar frescobol está em interagir, comungar, batendo na (coitada) da bolinha de maneira que ela vá ao ou de encontro ao outro, mas que chegue até ele sem um sofrimento demasiado. Ali acontecia o contrário. O xingador enviava as bolas o mais alto possível, ou mais baixo, extremamente à direita, esquerda e com velocidade de um supersônico. E sons como "Ahh", "Huumm" são bem-vindos. Quem não assistiu as irmãs Willians e não se deliciou com seus gemidos que pareciam sair das profundezas do seu ser? Mas, o que não se espera é ouvir numa manhã clara, ensolarada, em que carneirinhos pastam num céu de brigadeiro e criancinhas constroem castelos na areia com seus baldinhos coloridos, dois marmanjos jogando frescobol e um deles esbravejando o tempo todos palavras como: porra, caralho, bosta, merda, burro....e por aí vai.
Uma senhora que estava no guarda-sol ao lado argumentou que essa forma de tratar o aluno poderia ser uma estratégia de marketing, assim todos ficaram sabendo que ele dava aulas de frescobol.
Pensei no susto de meus alunos se eu usasse essa estratégia motivacional em sala de aula:

*Leu o texto, seu bosta?
*Caralho, vocês fazem tudo errado!
*Gostei da tua redação, porra!
*Cara, tu és um burro!

Como dizia minha avó...no meu tempo não era assim.

quarta-feira, setembro 03, 2014

Maria



           Vou chamá-la de Maria. Nos primeiros dias em que a vi pareceu-me estar simplesmente à espera de alguém. Roupas limpas, arrumadas, bolsa a tiracolo, cabelos presos em um coque. Quando nossos olhares se cruzavam, ela me olhava com olhar desinteressado, sempre altivo. Uma mulher jovem, rosto liso, quieto, olhos tristes. Com o passar dos dias parecia continuar esperando alguém que ela sabia que não viria. Perambulava pelas vitrines, olhava alguma coisa com curiosidade, ficava espiando através da vidraça, o noticiário na televisão no saguão do hotel. Cruzei com ela em vários momentos, sentada na calçada, sobre o ar condicionado que fica pendurado no rés da calçada de manha muito cedo ou deitada à beira de uma janela, já no escuro da noite. Algumas vezes a ouvi cantando, uma voz suave, quase inaudível. Outra vez a vi sentada com as pernas cruzadas, como se estivesse meditando. De vez em quando tinha nas mãos uma bíblia surrada.  Um dia, aproximei-me como quem não quer nada e perguntei seu nome. Como ela parecera não ter ouvido, repeti e repeti. Ela não se virou para me olhar, entendi que não queria responder, não queria conversar. Não havia confiança entre nós, não havia motivos para ela dizer-me seu nome.

Outras pessoas vivem e dormem no entorno do hotel onde eu estive. Crianças, poucas. Alguns adolescentes e vários adultos. Conversando com um moço que trabalha no hotel e que, de vez em quando alcançava café para Maria,  ele disse que em João Pessoa há atendimento às crianças e para tirá-las das ruas, mas não há nenhum olhar para os adultos.

E penso em Machado e naquela frase que é a minha carta na manga no jogo existência:

"O menino é o pai do homem". Deve-se cuidar das crianças, porque elas são pequenas, pais e mães dos adultos que virão, mas se isso não acontecer, quem cuida dos adultos abandonados afetivamente? Que cuida dos adultos que fugiram de casa, que saíram pra comprar cigarros na esquina e nunca mais voltaram? Quem olha para os mendigos, os abandonados, os desvalidos, moradores de rua, os mentalmente perturbados? Os adultos autistas, esquizofrênicos ou simplesmente os infelizes?

Uma manhã, quando saí do hotel , a polícia estava lá, com celular na mão, com aparelho de dar choque, com cassetetes. Algumas pessoas conversavam e me aproximei porque vi que ela estava lá,  a Maria, sentada, alheia a tudo, um sorriso enigmático com que contemplava os espectadores curiosos.  Enquanto ela aguardava silenciosa, uma mulher comentava com voz esganiçada que “ela era doida mesmo porque picara dois reais”. Outra segredou que ela ficara assim depois que fora abandonada pelo marido, mas sua tristeza aumentara muito quando o conselho tutelar arrebatou seus filhos. Refleti que os dois reais não eram importantes pra ela. Talvez ela quisesse atenção, carinho, seu marido, seus filhos de volta. Talvez quisesse a sua casa, seu pedaço de chão, seu lugar no mundo, o retorno de sua dignidade.

Por mais que minha imaginação divague e especule, jamais saberei quem era ela e o que a levou a ficar assim, à deriva. O que me leva a outra questão: o que realmente fazemos pelas pessoas que estão próximas a nós, as que cruzam o nosso caminho. Para que realmente existimos? Qual é a diferença que fazemos na vida das pessoas? 
Soube dias depois que a levaram para o interior, para o sertão, para o local provável onde ela vivia.
A ausência deixada por ela me entristeceu. Por ela, e por todos nós, enclausurados em nossas mazelas, com nossos fantasmas a nos atormentar, num mundo de solidão.

  • A Igualdade é Branca
  • A Fraternidade é Vermelha
  • A Liberdade é Azul
  • Blade Runner