quinta-feira, maio 02, 2013

Beijo...e como os beijos frágil e inesperadamente forte.

Um carocinho

Enquanto aguardava a vez na fila do pronto atendimento do hospital e que, afinal, o atendimento não é "de pronto", eu ouvi uma conversa entre um senhor e a atendente. Moça, quero uma consulta pra minha esposa. Ela está com um machucado,parece uma espinha. Não, não é uma espinha, mas está inflamado. É um caroço vermelho, um carocinho. E coça. Eu quero saber que médico vai atender. Não sei, senhor, depende. Depende de que? Minha mulher tem esse machucado e preciso que um médico olhe. Vamos aguardar, senhor. E ele, já perdendo a paciência e erguendo a voz, moça, minha mulher precisa de um médico desses que mexem com vagina, entende? Ah, sim, senhor, o médico é um clínico geral mas vou ver então um ginecologista. Moça, dá pra ser uma mulher?

Gosto do teu cheiro

Gosto do teu cheiro. Ela ficou com essa frase na cabeça. Ela também gostava do próprio cheiro mas não podia afirmar que sentia o "seu" cheiro separadamente dos cheiros das outras pessoas. Podia dizer, sim, que sabia o que era um cheiro ruim. Cheiro de mofo, das coisas guardadas da tia cheirando à naftalina, cheiro de xixi de gato. Cheiro de suor misturado com talco barato. Ela sabia que era cheirosa, dos banhos demorados, das águas e sabonetes. E perfumes. Sabia também que seu próprio cheiro, aquele que cada um tem, sem perfume químico algum, era bom. Ele dizia que ela tinha cheiro de pão quente, gostoso. Outras vezes tinha cheiro de orquídea do mato. E cheiro de mato, e de chuva. E aspirava sua nuca e sua pele. E agora que ele se fora ela sentia saudades de si mesma, perdida em algum lugar no tempo e no espaço, sem cheiro algum.

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