quarta-feira, março 28, 2012

LIMITES

De todas as ruas que escurecem ao pôr-do-sol,
deve haver uma (qual, eu não sei dizer)
em que já passei pela última vez
sem perceber, refém daquele Alguém

que, com antecedência, fixa leis onipotentes,
ajusta uma balança secreta e inflexível
para todas as sombras, formas e sonhos
tecidos na textura desta vida.

Se há um limite para todas as coisas e uma medida
e uma última vez, e nada mais, e esquecimento,
quem nos dirá a quem nesta casa
nós, sem saber, já dissemos adeus?

Pela janela que amanhece a noite se retira
e entre os livros empilhados que lançam
sombras irregulares na mesa baça,
deve haver um que eu jamais lerei.


Há uma porta que você fechou pra sempre
e algum espelho o esperará em vão;
para você as encruzilhadas parecem muito amplas,
mas há um Janus, vigiando você, nos quatro cantos.

Há uma entre todas tuas memórias
que agora está perdida além da evocação.
Você não será visto descendo àquela fonte,
seja à luz do sol claro, nem sob a lua amarela.

Você nunca recapturará o que o Persa
disse em seu idioma tecido com pássaros e rosas,
quando, ao pôr-do-sol, antes que a luz disperse,
você quer pôr em palavras tanto inesquecível.

E o Rhone fluindo sem parar, e o lago,
todo esse vasto ontem sobre o qual me curvo hoje?
Estará tudo tão perdido como Cartago,
queimada pelos romanos com fogo e sal.

Ao amanhecer parece ouvir o turbulento
murmúrio de multidões crescendo e dissolvendo;
tudo por que fui amado, esquecido,
espaço, tempo, e Borges, estão me deixando agora.



Do site do Millôr

Millôr....

 

M

o

r

r

e

u.

sábado, março 24, 2012

Kurosawa e Noite Estrelada

É impressionante como o filme Sonhos, do  diretor janponês Akira Kurosawa é atual. A atemporalidade deste filme choca. Nunca esqueço algumas cenas e cada vez que vejo tenho as mesmas sensações angustiantes e aterrorizadoras de um pesadelo. Recentemente quando passei pelo tunel da serra do Pinto, em direção a São Francisco de Paula, lembrei da cena do filme, bem no início, onde o tenente vê emergir de dentro do escuro tunel toda a tropa de soldados comandados por ele, todos mortos, a quem ele enviou para a morte em combate. Lembro do cão a amendrontá-lo, ele assustado e depois de enfrentar suas culpas, já sem medo. No episódio da explosão das usinas nucleares então....a cena da mãe fugindo com dois filhos pequenos,um no colo e outro pela mão, tive um sonho assim essa semana; o mundo acabando, água e mais água, fogo nos céus e eu fugindo com duas crianças, uma no colo e outra pela mão.Hoje revejo o filme. Déjà vu? Premonição? Manifestações do inconsciente? O que sei é que o filme é lindo, sensível, de uma beleza extrema. E Van Gohg? Quem não gostaria de entrar em uma tela dele, encontrá-lo e conversar com ele? Se eu pudesse escolher, escolheria Noite Estrelada.

sexta-feira, março 23, 2012

Buffo & Spalanziani


Bufo & Spallanzani é um romance repleto de citações de e sobre outros autores e livros, além de muitas digressões sobre a arte de escrever narrativas. Enfim, tal obra literária está, sempre que possível, fazendo referências à própria literatura, o que, em outras palavras, costumamos chamar de exercício da função metalingüística.
lvan Canabrava narra acontecimentos de sua vida em flash-back. ora a nós leitores ora a Minolta, sua namorada, amiga, amante e confidente. Várias histórias se entrelaçam, se misturam, nesse enredo de Rubem Fonseca. O livro se divide em cinco grandes partes: “Foutre ton encrier”; “Meu passado negro”; “O refúgio do Pico do Gavião”; “A prostituta das provas” e “Maldição”.
Essas partes correspondem a episódios da vida do narrador. Cada uma delas poderia ser independente caso não houvesse um fio narrativo condutor.
Em Foutre ton encrier, o escritor Gustavo Flávio conta a Minolta sua relação com Madame X. Compõe-se de seis capítulos. Madame X, mais tarde revelada como Delfina Delamare, é uma bela e casada grã-fina por quem o narrador se apaixona. Delfina é encontrada morta. O detetive Guedes suspeita de Gustavo Flávio, porém não tem provas contra ele. A princípio, levanta a hipótese de suicídio, porém após os exames periciais comprova-se o homicídio.
O marido de Delfina, o ricaço Eugênio Delamare, tem interesse na idéia de homicídio.
Gustavo Flávio revela a identidade de Madame X à Minolta. Conta também que recebera, antes da morte de Delfina, a visita ameaçadora do marido traído.
Gustavo Flávio é convidado a depor como um dos suspeitos do assassinato de Delfina Delamare.
Em Meu passado negro volta-se ao passado de Gustavo Flávio. Antes de ser Gustavo Flávio, o escritor havia sido professor primário, amante de Zilda. Seu nome: lvan Canabrava. lvan passa a trabalhar numa firma de seguros, que deverá pagar um prêmio altíssimo a Clara Estrucho, viúva de Maurício Estrucho, que fez o seguro poucos meses antes de morrer. Desconfiado, lvan começa a investigar o caso. Descobre, no lixo encontrado no apartamento abandonado do casal Estrucho, um sapo morto e um ramo de flores murchas. Com a ajuda de Ceresso, presidente da Associação Brasileira de Proteção ao Anfíbio, lvan Canabrava descobre também que o veneno do sapo, da espécie Bufo Marinus, associado ao sumo da planta, causa catalepsia profunda. Excitado pela descoberta da fraude, lvan não percebe o descaso de seu chefe e entrega-lhe o relatório completo de suas investigações. No entanto, sob suspeita de loucura, lvan não tem crédito e parte para a experiência da catalepsia. Mesmo com seu próprio atestado de óbito, lvan não consegue convencer o chefe.
Não desiste, vai ao cemitério acompanhado por Minolta, Siri e Maria, seus amigos hippies, para abrir o túmulo onde estaria Maurício Estrucho.
Na ocasião são surpreendidos pelo coveiro e, para calá-lo, lvan o agride, matando-o sem querer. lvan é preso e considerado louco. Vai para o Manicômio Judiciário, de onde foge com a ajuda de Minolta e Siri.
Passa então dez anos escondido com Minolta. lvan Canabrava adota o pseudônimo de Gustavo Flávio (uma homenagem ao escritor francês Gustave Flaubert), engorda trinta quilos, torna-se escritor famoso e aprende a amar as mulheres.
Por sugestão da sua segunda companheira, volta ao Rio de Janeiro. No final da segunda parte, o narrador retoma o relato sobre seu romance com Delfina Delamare.
Minolta observa que o escritor está sentindo dificuldades para começar a escrever seu romance Bufo & Spallanzani e sugere a Gustavo Flávio que se recolha ao Refúgio do Pico do Gavião.
O terceiro episódio poderia constituir-se em outro história, não fosse também vivenciada por Gustavo Flávio. O Refúgio do Pico do Gavião refere-se à conturbada estada do escritor nesse lugar. Há outros hóspedes: um elegante casal de bailarinos, Roma e Vaslav; um maestro e sua esposa prima-dona, Orion e Juliana Pacheco; um rapaz magro e tímido, Carlos; duas "primas", Suzy e Euridice, que são, na verdade, amantes.
Além dos hóspedes, outras personagens participam da trama: Trindade, proprietário do lugar, e D Rizoleta, sua mulher. Numa conversa entre os hóspedes, o maestro questiona o talento dos artistas literário defendendo a idéia de que qualquer um pode ser escritor. A isso Gustavo Flávio responde com um desafio: dá um tema aos presentes, que deverão desenvolvê-lo numa narrativa e apresentá-lo. O maestro, Roma e Suzy aceitam o desafio.
O escritor escreve as primeiras linhas de Bufo & Spallanzani: é uma história de homens e sapos. A propósito, começa a perceber-se a ligação do romance com o titulo: Bufo Marinus é a espécie de sapo encontrada por lvan Canabrava; Spallanzani foi um biólogo italiano do século XVIII que estudava a circulação sangüínea, a digestão e os animais microscópicos. A “Experiência” que o escritor deseja relatar em seu romance tem como personagens dois sapos, Bufo e Marina (qualquer semelhança será mera coincidência?), cobaias de Spallanzani. Ao mesmo tempo, os hóspedes do Refúgio separadamente mostram a Gustavo Flávio suas narrativas que, segundo o narrador, são autobiográficas.
Constata-se que realmente escrever é muito difícil. Durante este episódio, acontece outro crime: Suzy é encontrada morta. Ao mesmo tempo, Minolta recebe um aviso sobrenatural e resolve procurar Gustavo Flávio no Refúgio. O detetive Guedes também vai ao encontro de Gustavo Flávio.
O episódio A Prostituta das Provas divide-se em três capítulos: neles começa a ser desvendado o assassinato de Delfina. Guedes descobre que o assassino confesso não matara a grã-fina e deixa-o em liberdade. O farsante fora pago por Eugênio Delamare, o marido traído, para que o caso fosse encerrado na policia. Guedes, em suas andanças pelo local do crime, encontra Dona Bernarda e seu cão Adolfo. Ela é a testemunha de que Guedes precisa para incriminar Gustavo Flávio.
A última parte, A Maldição, está reservada para o clímax e o desenlace. Ë dividida em oito capítulos. No primeiro capítulo, o narrador faz considerações sobre o gênero do romance em geral. Faz também reflexões sobre a dificuldade de concluir-se uma história.
No segundo capitulo, o relato do Refúgio do Pico do-Gavião é retomado. Descobre-se que o assassino de Suzy é Euridice e que Carlos é a Maria da narrativa que Suzy contara tendo como mote o tema dado por Gustavo Flávio. Segundo Suzy, Maria era casada com José. Os dois fizeram um pacto de amor: quem traísse o companheiro seria morto pelo outro. Maria, então, por ter atentado contra a vida do marido, disfarçara-se em Carlos. Após solucionado o caso, as personagens retornam ao Rio de Janeiro.
Guedes avisa a Gustavo Flávio que passará em sua casa. Na visita, Guedes comunica a Gustavo Flávio que o vigarista preso pelo crime da ricaça havia sido assassinado e que a vítima seguinte seria ele.
Gustavo Flávio, então, arma-se e aguarda o marido enganado. Nesse ínterim, o escritor apaga de seu computador os dados do arquivo para o romance que tentara escrever.
Eugênio Delamare consegue aprisioná-lo e corta suas bolsas escrotais. Durante a tortura, Guedes chega com policiais. Após o tiroteio, Guedes e Gustavo Flávio sobrevivem, os demais morrem.
Finalmente, Gustavo Flávio conta a Minolta quem é o verdadeiro assassino de Delfina. Quando Delfina descobrira que tinha leucemia, decidira que não acabaria da maneira suja, dolorosa e humilhante que a morte escolhera para ela. Resolvera matar-se. Mas a coragem lhe faltava. Convencera, então, Gustavo Flávio a fazer isso por ela. Confessando pormenorizadamente o crime, tenso, ele termina a narrativa dirigindo-se a Minolta.
Ë importante compreender o desdobramento da personagem protagonista para articular os episódios entre si. O fio narrativo, que corresponde ao fato transformador da vida de lvan, encontra-se na figura do sapo. Bufo, além disso, possui outro sentido: significa, segundo o dicionário do Aurélio, "ator ou personagem de comédia ou farsa encarregado de fazer rir o público com mímicas, esgares etc.-". Desde o início da narrativa, o narrador se denomina glutão, sátiro e atacado por satiríase. Sátiro, convém lembrar, é, na mitologia pagã, um semideus lúbrico habitante das florestas, e que tinha chifres curtos e pés e pernas de bode; no sentido figurado significa homem devasso, luxurioso, libidinoso. Satiríase, por sua vez, é um termo da área médica, que significa excitação sexual masculina mórbida. Pode-se fazer, portanto, uma relação entre o impulso de escrever e o impulso ou excitação sexual. A narrativa parece jorrar, em sua complexidade, como um jato em que as partes se articulam e apresentam o quadro fabular e suas personagens.
A temática de Bufo & Spallanzani é o próprio fazer literário, ou seja, é a história do nascimento de um romance que vai sendo contada.
O escrito Gustavo Flávio começa narrando um sonho que tivera com Tolstoi. Tolstoi, como sabem, é um grande escrito russo, autor de Guerra e Paz, de quem o narrador recebe a incumbência de escrever.
A alucinação envolve o tinteiro e a pena (metonímias do ato de escrever), que provocam no escritor a angústia de não conseguir repetir o gesto de molhar a pena no tinteiro tantas vezes quantas forem necessárias para encher páginas vazias. É a chave para entender o enredo do romance.
Talvez não seja adequado falar em romance, mas em memórias. E o próprio narrador que assim se manifesta: "As memórias, como estas que escrevo, também sofrem a sua maldição." (FONSECA, p. 181). Enquadra-se no gênero memorialista, portanto, a forma narrativa escolhida pelo narrador. O narrador escreve memórias de sua vida, lembrando os acontecimentos vividos por ele como lvan Canabrava e como Gustavo Flávio.
O narrador é Gustavo Flávio, pseudônimo de lvan Canabrava, que se escondera por ter praticado um crime e fugido  Manicômio Judiciário.
O escritor famoso Gustavo Flávio precisa entregar a seu editor o livro Bufo & Spallanzani, pelo qual até já recebera adiantado. Vê-se envolvido no assassinato de uma mulher rica e é interrogado pelo detetive Guedes. Por sugestão de Minolta, afasta-se da cidade e hospeda-se no Refúgio do Pico do Gavião. Novamente acontece um crime: uma hóspede é assassinada. Esses relatos compõem a trama do romance. No entanto, a principal trama reside no relato da vida de lvan Canabrava, a personagem-protagonista. lvan Canabrava é amante de Zilda, com quem mora. Tendo vinte anos, abandona seu cargo de professor primário para trabalhar numa companhia de seguros. Desconfiado de uma fraude de um cliente que morrera poucos meses após o contrato, lvan descobre no lixo do apartamento da viúva um sapo morto e um ramo de flores murchas. Descobre também que o sapo é da espécie Bufo marinus e as flores pertencem à planta Pyrethrum parthenium, da família das compostas. Associados, formam uma mistura que provoca o zumbinismo, estado em que ficam as pessoas sob a ação de tal substância. O estado cataléptico pode ser prolongado.

Com essas informações, lvan desvenda a fraude planejada pelo casal Estrucho, porém suas investigações e denúncias são abafadas. Supõe-se que o chefe de lvan seja cúmplice dos criminosos.
Com o intuito de desvendar o crime, lvan tenta abrir o túmulo para provar que não há cadáver enterrado, porém é surpreendido pelo coveiro. Assustado, lvan mata o coveiro. Fogem, ele e Minolta, mas é preso em casa. Vai para o Manicômio Judiciário.
Minolta e Siri facilitam a fuga de lvan. E assim que, refugiado com Minolta durante dez anos, transforma-se no escritor Gustavo Flávio. De volta à cidade, Gustavo Flávio tem vários casos de amor.
O último acontece com uma mulher rica, esposa de um herdeiro de família conceituada.
Essa mulher é assassinada, entrando na trama o detetive Guedes, que suspeita do escritor. Para escrever as memórias, o narrador reúne episódios de sua vida que justificam a história de sapos e homens. O sapo é o mote dado pelo escritor aos hóspedes do Refúgio que aceitam o desafio de escrever. Cada história tem cunho autobiográfico, embora o tema do sapo seja mantido.
No caso do romance Bufo & Spallanzani, o mote é a escritura de um romance cujo tema seja a relação entre sapos e homens. 
Aparentemente Bufo & Spallanzani; é um romance policial. Sob esse disfarce, Rubem Fonseca faz um pastiche do gênero policial, uma vez que descontrai o gênero fazendo uso dele mesmo. Mas, longe de ser apenas um romance policial, Rubem Fonseca nos apresenta uma narrativa complexa, inserida entre as melhores obras da narrativa contemporânea. Entre as características que sustentam esse raciocínio, pode ser citada a função metalingüística, através da qual o escritor reflete sobre seu ofício. Disso resulta o jogo em que ficção e realidade muitas vezes se contundem. No romance em questão, o narrador é escritor e precisa escrever um livro intitulado Bufo & Spallanzani. Ao final, Bufo & Spallanzani é o livro de memórias do escritor Gustavo Flávio. Ele não deve ser confundido como escritor Rubem Fonseca, O assassino desse peculiar romance policial não é o mordomo, mas o próprio narrador.


Acoar ou latir

Acoar ou ecoar?
Minha colega Zete disse que não existe o  verbo acoar, ou seja, os cães não acoam, eles latem. Procurei no dicionário e descobri que aqui no Rio Grande do Sul, na linguagem regionalista gaúcha, os cães acoam, sim. Porém, no resto do Brasil eles latem. Talvez acoar tenha a ver com ecoar; quando o cão abre e fecha a boca rapidamente, querendo manifestar satisfação, prazer ou ódio feroz, o som que sai de dentro dele ecoa, produz eco, vai e vem. Reverbera. Talvez seja isso.
No gauchês dizemos "cão que acoa, não morde". No resto do Brasil dizem "cão que late, não morde".
Como não confio no ditado, seja acoar ou latir, prefiro me afastar quando não tenho certeza do que seu humor poderá causar.

segunda-feira, março 19, 2012

As incríveis mãos dos bugios ou, nossos antepassados



Existe uma relação entre as mãos dos bugios e os indígenas que conheço. A semelhança vai além do físico, do tamanho dos ossos, das articulações, da tensão da mãos, das unhas.


Fui à Santa Cruz no final de semana, especificamente num lugar antigamente chamado Gruta dos Indios. Um lugar que abrigou dezenas de índios Kaingang, Guarani e Xoclen, numa gruta onde muitos nasceram, comeram, dormiram,se abrigaram do sol, da chuva e do frio. Um lugar onde havia muitas, muitas árvores, uma nascente de água limpa e bugios, muito bugios. 


O bugios que vi estavam atrás de uma tela bem reforçada, numa espécie de jaula. Dormiam um ao lado do outro, encostados, sentido o calor do corpo um do outro. Estavam alheios às pessoas que circulavam ao redor e os observavam, fazendo comentários surpresos. As mãos, volta e meia se agarravam na tela, se seguravam nos pilares. Mãos de dedos longos, com palma lisa e dorso cabeludo. Os olhos brilhantes, perscrutadores. 


Pensei que os indígenas também estão numa espécie de jaula, são observados o tempo todo e se saem dali são olhados como bichos exóticos, seres que não fazem parte da classe dos humanos. Eles estão em lugares específicos para eles, em lugares chamados aldeias ou terras indígenas, um lugar onde podem estar com os seus pares e ser como realmente são. Eles não se alimentam como os brancos, não tem os mesmos horários, os mesmos costumes, as mesmas crenças. São diferentes de nós, são eles. Assim como os bugios. 


Os indígenas são bichos exóticos que observamos, estudamos e podemos assim descobrir que somos diferentes deles e não queremos ser como eles. 


Olhando para os bugios na Gruta dos Indios penso em quão triste é vê-los ali, presos em uma jaula, sendo observados por humanos idiotizados, sem direito de ir e vir, de se balançar nas árvores, de buscar seu próprio alimento. Como os indígenas que foram expulsos daquele local há quarenta anos e não podem a ele retornar nem para recordar o local onde enterraram seus umbigos. 


O parque que abriga a Gruta dos Indios tornou-se um lugar feio. Na gruta há iluminação artificial e um portão de ferro, para impedir que quem entre e assente moradia nela? Os brancos em busca de um lugar para fazer sexo e se drogar ou os indígenas em busca da antiga moradia? No pequeno açude há um pedalinho, vi também uma tartaruga boiando que me parecia morta ou adormecida. O teleférico é algo totalmente desnecessário em um local onde a caminhada na natureza deveria ser, por si só, algo agradável. 


Fiz um grande exercício de imaginação para pensar nas crianças indígenas brincando entre as árvores, os adultos habitando a gruta sem deixar suas marcas através de riscos, sinais e desenhos. Que bom se tivessem feito, embora as paredes estejam repletas dos nomes dos brancos que por ali passaram. 


Naquela tarde em que estive dentro da gruta ouvi pessoas batendo na boca com as mãos, imitando gritos presumidamente indígenas, falando em jane, em chita, imaginando-se índios como aquele que viam na televisão, no seriado americano que mostrava o tarzã e a macaca. Riam, diziam "mim,indio". Resolvi que o melhor era me afastar dali, pensando na ignorância de nosso povo. Do quanto desconhecemos a história dessas pessoas e de nossa própria história. 







Se olharmos para dentro de nós, podemos descobrir que somos, sim, descendentes de indígenas e, quem sabe, descendentes daqueles mesmos bugios que estão lá, atrás das grades. Afinal, não há muita diferença entre nossa irracionalidade.





sábado, março 17, 2012

Triste fim de uma rã que amava a música







Sou uma rã, ou o que resta de uma.

Da família Ranidae, faço parte de uma grande diversidade de espécies que se distribuem por todo o mundo, com exceção do sul da África e da maior parte da Austrália oriental. Essa é uma identificação científica, logicamente. Antes de ser da família Ranidae, sou filha de minha mãe e meu pai. Minha mãe se chamava Ani e meu pai é desconhecido. Apareceu numa manhã de início de outono debaixo da ponte onde minha mãe costumava passar as férias e lá eu fui concebida. Minha mãe nunca mais viu meu pai, nem sabe quem ele era, na verdade. Apenas um ranídio qualquer.

Voltando a quem eu sou, ou era. Anfíbio anuro, o que quer dizer que comecei minha vida na água, onde fui concebida, e continuei na terra. Nessa lógica, voltaria para a água para encontrar um namorado e, quem sabe, também ter meus filhinhos. Ao contrário de outros animais que respiram por pulmões eu respirava pela pele, por isso não conseguia ficar exposta ao sol, preferia a sombra e os lugares úmidos. Embora eu não tivesse pulmões, já era adulta.

Minha língua era poderosa, forte, consistente. Com ela capturava meus alimentos que eram, invariavelmente, insetos e vermes.Eu já havia aprendido a emitir sons para atrair um namorado, aprendi com as rãs da vizinhança quando nos reuníamos nas poças perto do açude. Minha mãe sempre dizia para eu não ir longe, não sair sozinha. No final da tarde, até a noitinha, quando as estrelas já brilhavam no céu, nós treinávamos estalando a língua no céu da boca para criar sons homogêneos, que nos caracterizavam.

Na escolinha da vila aprendi que alguns parentes possuiam glândulas venenosas, denominadas pelos humanos como parotóides. Isso não quer dizer que eles sofressem ataque de rãs venenosas, que grudariam em seus cangotes,não, nada disso, o suposto veneno dos parentes seriam sensíveis apenas quando em contato com suas mucosas, o que quer dizer, que teriam que "respirar" rãs, o que é meio difícil de acontecer.

Minha avó nos contava que existiam grandes criadouros de rãs e que essas eram nossas parentes, porque no fim somos todos parentes, mas elas nasciam em um laboratório e eram usadas para estudos. Nunca entendemos bem isso, se era bom ou ruim, mas às vezes, eu pensava que gostaria de ter nascido em um laboratório.

Assim os dias passavam, lentos, muitos lentos. Perto de onde morávamos havia um açude. Ao redor desse açude havia um bar,um lugar onde as pessoas se reuniam para conversar, comer e beber. E cantar. Em algumas noites ouvíamos a cantoria dos humanos. Gostávamos disso, minha mãe dizia que eles eram do bem. Mas sempre me alertava que não deveria me afastar do grupo,nem deixar que me vissem.

Mas eu gostava de me aproximar para vê-los, com suas roupas engraçadas, com desenhos coloridos e ouvir a música que tocavam, era o que mais me atraía. Minha mãe me avisara, mas eu não resistia. Numa dessas noites em que me aproximei demais um humano, querendo brincar ou não, não sei, conseguiu me prender debaixo de um copo para me "olhar melhor", como o ouvi dizer aos amigos. Fiquei ali apavorada, mas esperava que me soltassem e eu poderia voltar ao açude, para as pedras, para a mata e rever minha mãe e meus amigos. Mas eles esqueceram de mim debaixo do copo. As luzes foram se apagando, a cantoria cessou, todos foram embora. No dia seguinte, o sol nasceu e aumentou imensuravelmente no céu onde antes havia estrelas. E esquentou, esquentou muito. Não senti fome, senti sede, muita sede. Espichei minhas perninhas e braços e tentei sair dali. Não conseguia. Meu coração acelerou, batia rápido,muito forte. Até que parou de repente e fique assim, espichada, fininha como uma rãzinha de desenho animado.

Alguém, um humano desumano, quem sabe, me pendurou pela perna como um troféu, um móbile, um enfeite. Agora,contemplo daqui do alto, seca e esturricada, o mundo onde ainda vivem minha mãe e meus amigos. 

E esse foi o meu fim.




Dona Lourdes

Caminhando pelo Parque da Redenção encontramos seres inimagináveis. Não estou falando de jacarés albinos ou sabiás idem. Nem pequenos macaquinhos. Mas  pessoas como a Dona Lourdes, com u, como ela fez questão de frisar. Eu estava contemplando os vários gatos que moram ali nas imediações de uma das entradas do parque, próximo ao orquidário, quando avistei essa senhora xingando e esbravejando em voz alta. Ela falava sozinha, mas parecia que falava com alguém. Me aproximei, cumprimentei-a e perguntei se falava comigo, embora eu soubesse que não era comigo.

Ela disse que não, e explicou que cuida daquela parte do parque, que é responsabilidade dela. Que todos os dias junta as milhares de folhas que caem das árvores, mas durante a noite uma "desgraçada' balança as árvores e junta as folhas, acumulando-as no caminho para que ela as junte de manhã. E conjeturou que se alguém jogar um cigarro, imagine eu que vai pegar fogo em todo o parque e isso ela não pode deixar acontecer.

Enquanto ela me contava eu a observava procurando algum traço (a mais) de insanidade nessa senhora de seus setenta anos, cabelo bem cortado, de óculos, brincos, roupa limpa e luvas de borracha. Não encontrei. Os olhos claros pareciam sinceros e crédulos
E ela continuou contando que possui uma máquina a laser para retirar cobras dos lugares mais improváveis e que no Parque Marinha do Brasil, quando não conseguem retirar as cobras, eles a chamam, só ela consegue pegar as cobras. E completou que levou para o parque um casal de macaquinhos albinos, e que passaram aquelas terras (do Marinha) para o nome dela, são todas terra dela agora.

E que, no Parque da Redenção, bem ali naquela casinha, ela apontou, tem um jacaré albino, trazido por ela, que vive numa espécie de poço com uma tampa, para que ele não saia. Ah, e tem sabiás albinos também, e....e eu fiquei ouvindo deliciada, imaginando aqueles bichos todos por ali e como seria a máquina a laser de pegar cobras.

Conversei com ela mais um pouco e segui minha caminhada porque queria chegar ao brique. Mas não esqueci Dona Lourdes, com u. No caminho observei que alguém parecia mesmo jogar muitas folhas no chão; pensei que ela teria mais trabalho pela frente.

Família querida no brique da Redenção


Final de Verão


No Almanaque ZH do dia 24 de fevereiro de 2012, foi publicado um texto sobre a praia de Capão de antigamente, precisamente das primeiras décadas do século XX, quando havia poucas estradas. Um tempo em que não se podia ir e vir no mesmo dia, quando para comprar carne precisava esperar o boi ser abatido e que a carne ser exposta nas portas e janelas de um estabelecimento chamado Açougue Anno Bom. Retornando aos dias atuais, cerca de 80 mil veículos por hora passaram pela freeway rumo ao litoral no último final de semana, após o carnaval.


Desses 80 mil veículos, muitíssimos lotaram a praia de Capão da Canoa. Encontrar dois metros quadrados de areia livre para armar um guarda-sol e acomodar duas cadeiras envolveu um estudo de logística. Do alto do oitavo andar, da janela ou da beira da praia, em Capão, via-se junto ao mar, muitas vezes “chocolate”, mas muitas vezes azul intenso, gente, muita gente; via-se um “mar de gente”. Nesses dias aconteceu, ali em frente à Iemanjá, a corrida rústica com mais de 2000 participantes e a 28ª edição da Cavalgada do Mar, que saiu de Palmares do Sul e foi até Torres. Esse dia, especialmente, consistiu em apresentar surpresas a quem estava ao sol quente e brisa morna. Minutos antes de passarem os cavaleiros; homens, mulheres, crianças, sendo aplaudidos pelos veranistas, presenciou-se o afogamento de um jovem policial militar, de Santa Maria. Quem estava por ali, na guarita 80 de Capão da Canoa, sentiu o desespero dos salva vidas tentando retirar o jovem do mar e reanimá-lo, em vão. A ambulância chegou, levou-o e todos ficaram na expectativa de sabê-lo vivo.




Nem havíamos nos refeito do impacto desse momento triste, de pensar que uma mãe ficaria sem o filho, amigos, namorada, enfim, a cavalgada chegou a esse ponto da praia. Homens, mulheres, crianças, todos orgulhosos sobre belos animais resfolegantes e bem tratados, aplaudidos pelos veranistas ainda incrédulos. Isso nos fez pensar que a vida continuava. A areia, onde há poucos minutos um jovem estava prostrado, já quase sem vida, serviu de esteio para que tantas pessoas e animais desfilassem seu orgulho de ser gaúcho.


E assim, os dias de férias se sucedem em Capão. Festa para Iemanjá, oferendas, risos de crianças, sorvete, crepes, vendedores ambulantes com seus tecidos coloridos e incansáveis caminhadas, o traque-traque da casquinha, os jogos de bocha, o chimarrão no final da tarde, a escolha da Garota Verão, a Zero. Tudo isso faz parte do verão. Ao final, o retorno ao trabalho, à rotina, aos desafios do dia-a-dia, resta-nos a lembrança desses momentos ímpares e muitas vezes inesperados, a vida fluindo, a morte chegando de repente.


Certamente hoje são outros tempos, imensuravelmente diferentes do início do século XX; a freeway nos garante um viagem razoavelmente tranquila e rápida para a praia, não precisamos mais esperar o boi ser abatido, embora as filas sejam infindáveis no supermercado, mas o desejo e o prazer de estar na praia não mudaram, são os mesmos. E aguardamos todos os meses do ano pela chegada do verão e o à retorno à Capão da Canoa.

quarta-feira, março 14, 2012

Por toda a minha vida

Ah! Meu bem amado 
Quero fazer de um juramento, uma canção 
Eu prometo por toda a minha vida 
Ser somente tua e amar-te como nunca 
Ninguém jamais amou, ninguém 

Ah! Meu bem amado 
Estrela pura parecia 
Eu te amo e te proclamo 
O meu amor, o meu amor... 
Maior que tudo quanto existe 
Ah! Meu amor... 


Vinícius de Moraes


  • A Igualdade é Branca
  • A Fraternidade é Vermelha
  • A Liberdade é Azul
  • Blade Runner