segunda-feira, novembro 19, 2012

Sobre livros, livrarias e feiras de negócios.

Hoje de manhã ouvi o presidente da Expovale, uma feira de negócios que acontece em Lajeado, dizendo que a feira é essencialmente de negócios, que as vendas foram contabilizadas em milhões, sobretudo em veículos automotores. Falou das dificuldades do espaço não mencionando o calor infernal que fazia dentro dos pavilhões. Chamou a minha atenção ele enfatizar o termo negócios, deixando explícito o caráter mercantilista da feira. Em torno de 160 mil passaram por lá, em dez dias de feira, em média dezesseis mil pessoas por dia. O que ele não disse é que a feira recebeu alguns artistas de renome, alguns bons, outros nem tanto. Também não citou a exposição e venda de orquídeas. Essas, além de se encaixar nos negócios também embelezaram o olhar de quem lá esteve. Não falou do grupo indígena moradores de Lajeado que lá estavam expondo e comercializando seu (belo) artesanato e nem falou do concurso de música da Univates que se realizou na abertura da feia. Lamento que a feira seja essencialmente de negócios, como reiterou várias vezes o presidente porque o Vale do Taquari se ressente de ARTE, de CULTURA, de leitura, de conhecimento, de boa educação. Hoje de manhã fui a duas livrarias em Estrela e perguntei pelo livro do Daniel Galera; Barba ensopada de sangue. Na primeira livraria a senhora atrás do balcão respondeu ao meu bom dia sem levantar os olhos. Não resisti e comentei o seu ânimo. Ela deu uma risadinha e disse que não estava muito animada mesmo. Está certo que eram 9 horas de segunda-feira, mas nessa livraria invariavelmente é assim, cara fechada e desconhecimento quase total dos livros que têm ou que pedimos. Perguntei a ela sobre o livro e ela respondeu "Esse livro eu não vi por aqui, deixa eu procurar ...Barbara encharcada de sangue..." Eu disse a ela,não , não é Bárbara, é barba ensopada de...Não, ela disse, não tem, mas o fulano (o dono da livraria) vai a Porto Alegre amanhã, dá pra encomendar. Eu agradeci, disse que iria pra praia e compraria lá. Fui à segunda e última livraria de Estrela e perguntei pelo livro. A moça que me atendeu (aliás, sempre muito bem) disse logo que não, que este não tinha, mas poderia pedir sobre encomenda. E repetiu inúmeras vezes que esse livro só sobre encomenda. E ainda falou que nunca havia ouvido falar em Daniel Galera. Eu informei a ela que é um jovem autor gaúcho, só trinta e três anos, que escreve muito bem, tem vários livros. E ela repetiu: só sobre encomenda. Eu fiquei olhando a palavra sobre sair dos lábios dela e tive que morder os meus para não dizer "moça, não é sobre, é sob...sob encomenda". Mas me contive. Por que as pessoas que trabalham em livrarias não conhecem autores e livros? Por que não leem? E se não o fazem é porque ganham mal? Isso quer dizer que os donos de livrarias não investem em seus funcionários? Se vou numa ferragem, o mínimo que espero do vendedor é que saiba indicar a ferramenta que melhor se adequa ao que preciso ou que, pelo menos, conheça o que estou procurando. Sai desanimada da livraria, pensando em até quando a arte e a cultura continuarão NÃO tendo espaço, até quando continuarão inacessíveis a todas as pessoas. Seria tão difícil aliar negócios de bens duráveis com livros e arte? Não atingiria a todos os públicos? A quem os organizadores de uma feira ouvem ao planejar uma feira? Fazem uma pesquisa de opinião, perguntando o que as pessoas gostariam de ter? Creio que não.

domingo, setembro 30, 2012

As pedras

Tenho uma relação de amor com as pedras, desde que era criança. Em Bom Jesus, minha mãe fazia uma trouxa com a roupa suja e ia lavar no rio .A água transparente deixava ver as pedras e pedrinhas no fundo e isso me fascinava. Eu sempre encontrava um lugarzinho onde me encaixava entre as pedras, dentro d'água. O barulho do rio quedando nas pedras, os diferentes caminhos percorridos pela água, penetrando nas fendas, nos buracos, nas entradas do barranco. O rio era raso ou eu não entraria na água, certamente. Minha memória de menina ainda me deixa "ver" o rio onde eu brincava enquanto minha mãe lavava a roupa. Não lembro se era frio e deveria ser, porque em Bom Jesus as temperaturas sempre são baixas. Mas não lembro disso, lembro das pedrinhas no fundo do rio, das diferentes colorações, dos seus formatos. Sempre pensava que elas pareciam abandonadas lá no fundo do rio, solitárias. Às vezes os raios de sol se infiltravam pela vegetação que margeava as águas e deixava ver detalhes das pedras. Hoje penso que cada uma delas ocupava um espaço que era exatamente o seu, em comunhão com todas as outras, sendo solidárias e cúmplices ao mesmo tempo. Elas são mais do que apenas seres inanimados, como aprendi na escola, sem importância nenhuma, sem nenhuma finalidade. Ao contrário, as pedrinhas são seres especiais, imemoriais, eternas. Elas carregam em si toda a história do planeta. Talvez por amar as pedras desde sempre eu gosto de juntá-las, de colocá-las no bolso quando vou caminhar e de encontrar em cada lugar que vou, uma pedrinha especial. Na Ilha Redonda, dias atrás, às margens do rio Uruguai, eu me deparei novamente com as pedrinhas de rio. Todos os dias eu ia para a beira do rio "namorar" as pedras. Olhar seus diferentes formatos, suas colorações, a maneira como se apoiam umas nas outras, sem pedir demais, sem dar o que não podem. E pensei em como são generosas, mais do que muitos seres humanos. E há ainda a beleza estética de cada uma. Diferentes entre si, são únicas. Gosto de pegar cada uma na mão, olhar para elas, pensar em como foram formadas, porque estão comigo agora.

quarta-feira, setembro 26, 2012

Felicidade

Viajar  com meu filho é um exercício de revisão de vida. Ele puxa lá de baixo, do fundo do bau, acontecimentos, perdas, faltas, coisas que deveriam acontecer e não aconteceram, que deveriam ter sido e não foram. Em meio a isso vai falando do tanto que tem de trabalho, do tanto que anda ocupado, de como dormiu pouco e comeu mal. E questiona, por que isso, por que aquilo. Por que não faço isso ou aquilo, que deveria ter mudado de profissão, que eu poderia ter sido qualquer coisa que quisesse, que poderia ter ganho muito dinheiro, ufa! Fala e critica ao mesmo tempo. E eu, sem conseguir processar tudo o que ele diz, todas as ideias que tem, todas as queixas e colocações, fico meio embasbacada, respondendo com monossílabos tipo "sim, mano" ou "é verdade", "tem razão". Um dia desses, quando fomos para Porto Alegre para comprar um gps (localização; uma grande dificuldade minha e dele)e assistir uma peça de teatro, ele foi me bombardeando. De repente disse que eu estava muito quieta, que não falava (e ele deixa?) e lascou a pergunta: "mãe, tu é feliz assim com a tua vida?" Eu creio que respondi que sim, sou feliz. Mas não disse porque sou feliz. E depois do resto daquele dia e daquela noite, que aconteceram muitas outras coisas, entre elas que ele não conseguiu comprar o gps e nos perdemos em Porto Alegre e não conseguimos assistir o teatro porque não reservamos ingresso e não tinha mais, eu parei pra pensar na sua pergunta: sou feliz? e, mais, o que é felicidade?
Pensei sobre isso e descobri (eu sempre soube) que a felicidade para mim não é um pacote fechado que vem prontinho, colocado na nossa porta por um remetente desconhecido e do qual tiramos uma coisa somente. Quando meus filhos eram pequenos e estavam todos em casa, era felicidade para mim quando eu deitava na cama e sabia, tinha certeza, que todos estavam em suas caminhas,com seus pijaminhos limpinhos e cheirosos. Que no outro dia de manhã eles acordariam e estariam todos ali. Quando, no sábado, depois de uma semana de trabalho fora de casa e essa casa fosse ficando bem bagunçada, eu levantasse cedo, arrumasse, varresse, lavasse, limpasse, deixasse tudo limpinho e organizado, flores no vaso, janelas abertas, sol entrando. Aí, eu fazia um chimarrão, pegava um livro ou uma revista, colocava música clássica a rodar no som e sentava na área, pensando na vida, em como tudo estava bom assim, cada coisa no seu lugar. Felicidade para mim era quando tinha uma apresentação na escola, no dia das mães e até mesmo no dias pais, porque era eu quem ia. Quando recebia bilhetinhos de amor deles. Quando aprendiam uma palavra nova, quando olhava nos olhos deles cheios de esperança e expectativas para o futuro. Quando me abraçavam forte e diziam eu te amo. Isso era felicidade para mim e eu era feliz. Hoje, depois de todos adultos e fora de casa, sou feliz quando os encontro, os abraço, beijo. Quando dizem que me amam. Quando admiram meu trabalho,minhas fotos. Sou feliz quando conversamos, trocamos ideias, falamos do passado, contamos e rimos sempre das mesmas histórias.
Felicidade, para mim, é ter meus filhos, saber que eles existem, que são seres humanos. É isso.

quarta-feira, setembro 05, 2012

Dia 1
O dia anterior ao dia da prisão. Eu ainda não sabia. Nem ela.

Quinta-feira, 9 horas, o Ronaldo Machado, do DNIT,  me pega na Coordenadoria às 9 horas para irmos à aldeia olhar a escola provisória, ver se está tudo de acordo para receber as crianças. é Vamos eu e minha colega Verani. Olhamos a escola, fotografamos, está tudo certo. Aproveito a ida até a aldeia para conversar com a cacique Maria Antonia sobre a contratação do professor Ramilton Kafej Manoel Antonio, indígena Kaingang que será contratado pelo Estado para trabalhar na escola indígena.
Maria Antonia estava fechada dentro de casa. Chamamos e ela abriu a porta com o rosto inchado. Tossia muito, não conseguia respirar, mas sorria. Expliquei a ela que o professor estava vindo e que no dia seguinte o levaria até a aldeia para apresentá-lo a ela. Ela concordou em recebê-lo, falou do meu colarzinho que comprei em Ribeirão Preto, uma lagartixa feita com sementes, e pediu que eu levasse algumas roupas pra ela. Nos despedimos porque ela tossia muito e ia usar a bombinha de ar.
Retornei para a CRE, já pensando na vinda do professor, em como iria arrumar um lugar para ele dormir.
Fiquei em casa à tarde. Liguei para a escola de magistério aqui em Estrela, um semi internato para alunos que fazem estudam na escola. A diretora ficou de retornar, não retornou.  O professor chegaria as 17h40. Fui esperá-lo na rodoviária. O expresso Planalto trouxe o professor Ramilton de Cacique Doble, ao norte do Estado. Fui até o ônibus, o único homem grande,moreno, parecido com um índio, era ele mesmo.
Enquanto o aguardava lembrei que conhecia o Major Maia, do corpo de bombeiros de Estrela. Eu
sabia que ele não está mais em Estrela, mas como ainda tenho o número do celular dele, liguei.


Continua.....

quarta-feira, agosto 22, 2012

Viajar com meu filho e realmente ima viagem pelos caminhos do passado e pelos meandros da alma.

terça-feira, agosto 21, 2012

sábado, julho 21, 2012

Ainda diferenças

Comentei o ocorrido com uma  colega que me relatou a história do marido que, em viagem à Brasília, hospedou-se em um hotel, deixou sua documentação na mala lacrada, no armário fechado e foi para suas reuniões. Meses depois alguém ligou para perguntar onde ele queria que fosse entregue a moto importada que havia comprado. Para encurtar: alguém havia retirado meticulosamente seus documentos da mala lacrada, clonado, sem que ele percebesse. Essa pessoa alugou casa, mandou ligar água, luz, aí tinha comprovante de endereço. Abriu conta em banco, comprou carro, casa e, pasmemos nós: entrou no rhe do estado, do qual o marido da minha amiga é funcionário, e fez empréstimo para descontar em conta. 
Isso ratifica o que eu já havia pensado ao sair do banco; qualquer estelionatário esperto consegue abrir conta em banco, comprovar endereço e retirar talão de cheque, quiçá um mísero cartão magnético. 
Uma jovem indígena que não faz parte do sistema capitalista não consegue, tem que ir e vir várias vezes, pedir, solicitar, quase implorar.


Karina e Karine

 Banrisul, 11h 45. Karina foi ao banco porque não consegue receber um cartão magnético para retirar seu salário mensalmente. Como ela disse, poderia retirar aos poucos, também no final de semana, nem sempre no banco. Assim não, precisa retirar todo o salário no início do mês e   guardar em casa. Também poderia comprar com o cartão e parcelar.  Hoje, dia 20, ela recebe o vale-refeição, algo em torno de 120 reais. Nós, funcionários do estado do Rio Grande do Sul, chamamos de vale-boia. Outro motivo é que Karina mora longe, na área rural da cidade de Estrela. Seu endereço é BR 386, Km 34. Sua casa não tem numeração, sua aldeia não tem ruas. Ela é indígena Kaingang, filha de mãe índia e pai branco desconhecido. Ela também tem uma filhinha de três anos, sem pai. Karina tem 20 anos, morena, olhos verdes, cabelos pretos compridos e estudou até a oitava série. Sua mãe morreu atropelada na BR há uns sete anos. Uns dizem que estava embriagada e adentrou no asfalto na frente de um caminhão. Outros dizem que foi empurrada para dentro da rodovia por seus desafetos. Uma tragédia imensa na vida da pequena Karina, que poderia terminar por aí se as coisas fossem mais fáceis para ela.

Hoje eu a acompanho ao banco e explico ao rapaz que nos atende que ela é indígena Kaingang, que não tem conta de luz para comprovar endereço, que trabalha para o Estado, recebe seu salário todos os meses pelo banco e precisa do cartão. Ele me olha e ouve com atenção e sugere que eu dê o meu endereço como se fosse o dela, já que ele precisa mesmo é de um endereço,não importa se ela mora nesse lugar ou não. Peço para conversar com o gerente. Ele olha em volta e diz que ele deu uma saidinha. Pondero rapidamente com meus botões que não posso dar meu endereço, que não é correto e que isso poderia numa série de visitas à minha casa de madrugada e no final de semana, e isso eu não gostaria. Também olho ao redor e vejo uma moça olhando compenetradamente algo no computador. Ela é a Karine, sub-gerente do banco.

Karine é jovem, loira, olhos azuis. Filha de pai e mãe conhecidos, estudou em escolas particulares e é graduada e pós-graduada em administração. Ela é casada com um marido conhecido. Não tem filhos. Karina tem residência em Estrela e comprova esse endereço. Ela tem conta da água, luz, telefone, internet, telefone celular, tv a cabo. Karine tem carro e carteira de motorista. Peço ao rapaz para conversar com a Karine. Peço à Karina que aguarde onde está porque quero conversar com a Karine em particular.

Sento a sua frente, a conheço de outras transações bancárias e também através de uma amiga em comum. Explico a ela calmamente e em voz baixa a situação da Karina. Que é indígena, não tem conta de luz porque eles não tem conta de luz, quem paga a conta é a FUNAI. Que ela só quer um cartão magnético, que isso facilitaria sua vida, que é funcionária do Estado, merendeira na escola, se precisar daremos um atestado dizendo que ela realmente mora lá, mas que meu endereço particular não posso dar. Karine sente a minha angústia, percebo que seu olhar é sensibilizado. Ela pensa, pondera, liga para o rapaz que está do outro lado do corredor com a Karina à sua frente. Ele responde o que Karine pergunta. Ela volta a olhar a tela do computador, procura no sistema outras formas de comprovação de endereço e me mostra. Está lá a lista: conta de água, conta de luz, conta de tv a cabo, contracheque. Se tivesse endereço da pessoa no contracheque poderia ser, mas nós no Estado recebemos nosso comprovante do que receberemos no mês em nosso local de trabalho, sem endereço pessoal. Isso era antes. Agora nem recebemos mais, podemos olhar no sistema RHE do Estado. Se quisermos ou precisarmos, podemos imprimir. Tudo online, tudo para facilitar a vida do usuário e preservar o planeta do excesso de gasto de papel.

Olhei junto com ela no sistema e nada. Nada que a Karina tivesse para comprovar que realmente mora numa daquelas casinhas de madeira, sem água encanada, sem banheiro, com frestas que podemos enxergar o chão debaixo da casa. Então, Karine perguntou se lá ninguém tem tv a cabo. Sim, lembrou Karina, uma tia tem. Uma luz. Ela trará, na semana que vem, uma conta em nome da tia, a identidade dessa tia, um formulário preenchido com seus dados e assinados por ela. Assim, Karina poderá retirar o cartão, que por sinal, já estava no banco.

Agradeci à Karine que me deu um abraço e lembrou que era o "dia do amigo". A Karina me agradeceu as tentativas de ajudá-la. Saí do banco pensando no quanto duas vidas de pessoas com um nome quase igual podem ser tão diferentes. Existências diferentes, caminhadas diferentes, mundos diferentes. As duas são jovens mulheres. Poderíamos dizer que param por aí as coincidências. Até na grafia do nome está explícita a diferença: Karina e Karine.


sábado, julho 07, 2012

Letícia e Marina

Como posso confundir a Letícia com a Marina? A Letícia tem, no facebook, o nick "Lê Zanon". Marina, é Invernizzi. Letícia tem cabelo curtinho, já teve longo, e usa óculos. Letícia dirige o carro da Univates e tem projetos de trabalhar com a história guarani. Ela gosta de fotografia e do Marcelo. Letícia escreveu e.mail e perguntou se podia levar um amigo que também trabalha com indígenas. Claro, Lê! Foi o que respondi. Letícia tem um sorriso aberto e fica  coradinha, às vezes. Marina é Marina. Mais quieta, mas dona de um bom humor aguçado. Foi ela que replicou quando o Carlos Eduardo disse que vai para casa uma vez por mês: " Pedir dinheiro pros pais!". Marina comprou o vinho, ajudou a servir o café e pediu para experimentar o vinho branco que eu já estava tomando. Elogiou a sobremesa. Marina estava branquinha,com sono. Quem não comia carne e agora come, é a Letícia. Marina usa aparelho nos dentes, Letícia, não. Marina é a "bebê" do grupo de arqueologia da Univates. Letícia mora em Encantado, Marina, em Muçum.

Como posso confundir as duas? Chamar Letícia de Marina e Marina de Letícia? Não posso. Não mais, porque elas são inconfundíveis! Letícia é Lê. E Marina, é Marina.

quinta-feira, junho 21, 2012

E quem disse que viver era fácil?

terça-feira, junho 19, 2012

Coisas que gosto de fazer sozinha e coisas que não me importo em fazer sozinha.

Há  coisas que gosto de fazer sozinha e coisas que não me importo de fazer sozinha. Gosto de ir ao cinema sozinha. Escolher o filme, comprar ingresso, pipoca ou chocolate, conforme a vontade. Entrar na sala, invariavelmente com poucas pessoas. Sentar numa enorme poltrona superconfortável e escolher o que quero fazer. Assistir o filme, cochilar, dormir ou assistir todo o filme, do início ao fim. Ficar triste, concentrada, rir ou chorar se quiser. Ninguém  me olha, ninguém me cobra essa ou aquela postura, ninguém espera nada de mim. Eu sou apenas eu, de mim mesma.Isso é bom.

Uma coisa que não me importo de fazer sozinha é tomar café com leite e bolo de milho na padaria Da Gosto. Está escrito assim: Da Gosto, mas creio que eles querem dizer Dá Gosto; dá gosto tomar café com bolo de milho ou comer um salgado. A padaria é atendida pela Dona Magda, seu marido e alguns funcionários, todos muito gentis, sempre com um sorriso  amigável.. Os doces e salgados são superbaratos e gostosos. Não raro vejo que alcançam café e um doce ou um salgado aos moradores de rua. O lugar é pequeno e está sempre cheio. Ali, pode-se tomar um café quente tranquilamente e ler os jornais do dia. Isso também é bom.




sábado, junho 16, 2012

Concluí meu curso,meu artigo...uma etapa na minha vida. Fiz o melhor? Não sei se fiz o melhor, mas fiz o meu melhor. E agora? O que me espera? A vida ...............a vida anda!


UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL
FACULDADE DE EDUCAÇÃO
PROEJA INDÍGENA







Maria Antônia Soares:
A Memória de uma guerreira indígena






Lylian Mares Cândido Gonçalves




Artigo apresentado no Curso PROEJA Indígena, vinculado à Universidade Federal do Rio Grande do Sul, como exigência parcial para obtenção do título de Especialista.






                                          Orientador: Prof. Dr. Rogério Reus Gonçalves Rosa








Porto Alegre, junho de 2012

Maria Antônia Soares: A Memória de uma guerreira indígena
                                                                        Lylian Mares Cândido Gonçalves[1]


“A pessoa que sofreu sabe de um mistério – o mistério do mal e o milagre da sobrevivência – e nós que escutamos podemos através dela penetrá-lo e compartilhar do milagre”
Sommer


Resumo: A partir da memória da cacique Maria Antônia Soares, da Terra Indígena da Linha Glória, município de Estrela, este texto conta o início de sua vida na Gruta dos Índios, em Santa Cruz do Sul, a expulsão desse território, o convívio com os brancos, as parcerias estabelecidas por ela, as lutas e conquistas enquanto mulher, mãe e liderança da sua comunidade. O texto narrado em terceira pessoa é permeado e entremeado por informações históricas e antropológicas que se aliam à memória e à fala de Maria Antônia.

Palavras-Chave: indígenas – memória – narrativas – história – perdas – conquistas


Introdução
Durante o curso de Especialização em Educação Profissional Integrada à Educação Básica na Modalidade em Educação de Jovens e Adultos – Proposta Diferenciada para Indígenas (PROEJA Indígena), promovido pela Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, fomos desafiados a escrever nosso Memorial – História de Vida, e eu descobri que na história do meu pai há um relato de que ele foi “pego a cachorro no mato”. Isso me tocou profundamente e me levou a refletir e a investigar quem sou eu, quem esteve na vida antes de mim, de quem sou filha, quem foram meus antepassados. Devo reconhecer nesse instante que pouco descobri, porque se não registramos a memória das pessoas e o que elas narram das outras pessoas esse “fio da memória”, que tece e encadeia as histórias de vida, se rompe e tudo se dilui no tempo.
Quando, enfim, precisei definir o tema para o trabalho de conclusão de curso, pensei em registrar a história de Maria Antônia Soares, uma indígena Kaingang, filha, mulher, mãe, cacique da Terra Indígena da Linha Glória, porque as suas memórias deixam de ser privadas para se tornarem públicas à medida que dão vez e voz à memória de seus antepassados e do próprio povo Kaingang.[2]


Dois nomes e um sobrenome
Eu conheci uma mulher. Ela se chama Maria Antônia.
Como outras mulheres que se chamam Maria, ela traz no nome a gana da mulher que entrega e que espera. Como Maria, mãe de Jesus, ela entregou seus filhos, mas não os abandonou. A Maria também se chama Antônia, Maria Antônia. O primeiro é feminino; o segundo, masculino. A Maria Antônia é uma índia Kaingang e o seu nome como que representa o sistema de metades que caracteriza essa sociedade: kamẽ e kanhru. Conforme a visão de mundo dessas pessoas, kamẽ é o sol, a força, o masculino e kanhru é a lua, o frágil, o feminino.[3] Maria Antônia é a mediação desses dois princípios em carne, osso, alma.
A Maria Antônia também é Soares, uma das filhas do patriarca Manoel Soares, de uma numerosa parentela Kaingang. O sobrenome Soares foi atribuído aos Guaranis, pelos portugueses após a Guerra Guaranítica, nos aldeamentos de Cachoeira do Sul que “ganhou” esse sobrenome dos brancos que um dia chegaram à aldeia e disseram que a partir daquele dia “eles seriam Soares”.


A terra, o barro, a pedra.
Por volta da década de quarenta do século passado, o seu pai Manoel Soares empreendeu uma viagem da região de Salto do Jacuí para Santa Cruz do Sul com duas mulheres, Dona Circe, Dona Lídia e filhos pequenos. Em seu corpo corria sangue Kaingang e Guarani, pois ele era filho de mãe Guarani e pai Kaingang. Dona Lídia, mãe de Maria Antônia é filha de pai Kaingang, da família Mello, e de mãe Guarani, do Aldeamento de São Nicolau do Rio Pardo e nos pensamentos de Seu Manoel se misturavam as duas culturas. Como Guarani, ele caminhava em uma busca sem fim pela terra sem males.[4] Como Kaingang ele tinha a voracidade e a resistência para a luta pela terra.
Em Santa Cruz, eles encontraram um abrigo em uma grande gruta. As narrativas mitológicas delineiam que na origem os Kaingang saíram por dois caminhos do interior da terra.[5] Talvez, por causa disso, os Kaingang não cansam de dizer que “a terra é nossa mãe”. Na gruta, Dona Lídia deu a luz à Maria. Maria Antônia saiu da terra para lutar pela terra. Como de costume entre os ameríndios, a sua mãe cortou o seu umbigo com uma taquara e o enterrou bem ali, próximo à gruta.
O seu pai seguiu vivendo com três mulheres. Desses casamentos resultou o nascimento de vinte e cinco filhos. Nem todos vingaram, alguns morreram ao nascer, outros morreram quando pequenos de doenças causadas pelo frio. Desses, Maria Antônia tem lembrança de um em especial, porque a mãe o pariu no hospital e disseram que nascera morto, porém não mostraram o corpo e nem o devolveram a ela.
Quando Maria Antônia era criança, ela brincava com irmãos e primos, todos filhos do mesmo pai. Uma dos passatempos preferidos dela e suas irmãs era fazer bonecos de barro retirado de um rio que cruzava próximo a gruta.
Ela também adorava deitar sobre as pedrinhas redondas no leito raso desse rio, deixar seu corpo ser coberto pela água fria, seus cabelos obedecerem à correnteza. Somente seus olhos e lábios ficavam fora da água, os primeiros a fitarem o céu à procura de bichinhos nas nuvens, os segundos para os narrarem a mim.
Naquele tempo, seus dias eram compridos, permeados pelos barulhos da mata, pelo sol atravessando as folhas das árvores, formando sombras que pareciam fantasmas sem fim. Nas noites altas, os pios das K᷉akó (coruja) e o ronco dos góg (bugio) calavam a madrugada, fazendo com que as águas do rio adormecessem.
Durante as noites, sentados ao redor do fogo, Maria Antônia e as estrelas ouviam as narrativas contadas por seu pai. Histórias que falavam das caçadas do k᷉eme (veado), da k᷉akó (coruja), do e outros bichos da mata. Manoel Soares gostava de imitar o canto do gonvé (sabiá). A sua avó também contava histórias, porém, ela repetia quase sempre essa: “um dia, os homens brancos chegaram à aldeia com vários cães de caça e levaram a sua mãe. Quando ela retornou estava com o fe (peito) em frangalhos, com franjas de carnes penduradas“. Nas palavras de Maria Antônia, a avó contava isso em uma cantilena, em um tom de lamento, e narrava, narrava e narrava para que ninguém nunca mais esquecesse e para que a memória de sua mãe não morresse.[6]


O choro: o triste canto da partida
Maria Antônia foi uma criança feliz, e parecia que nada nesse mundo mudaria isso.
Porém, em uma fria manhã de inverno, quando ainda estavam recolhidos dentro da gruta, Maria Antônia percebeu que algo não estava certo: o seu pai falava alto e as mulheres iniciavam um choro baixinho. Ela e suas irmãs aproximaram-se da entrada da gruta e viram homens estranhos, vestidos de um jeito que elas nunca haviam visto até então, que falavam palavras que elas não entendiam. O que estava acontecendo?
Esse grupo era liderado por um homem grande, maior que todos os outros, ele gesticulava muito. Maria Antônia não imaginava o que viria a seguir: a sua existência e os seus caminhos estavam selados por aqueles homens, que estavam ali para expulsá-los do lugar onde nasceram e viviam.
As mulheres começaram a chorar alto, um lamento contínuo, como se fosse uma cantoria. O pai juntou todos dentro da gruta e explicou na sua língua que eles deveriam partir dali, que aqueles homens não queriam mais que eles permanecessem naquele lugar.
Após esse momento eles juntaram os seus poucos pertences: poucas panelas de barro, alguns potes e as esteiras onde dormiam. A pequena Maria Antônia lembrou que deixara sua boneca secando próximo ao rio, no dia anterior, e nunca mais retornaria para buscá-la.[7]
Nesse momento as lembranças daquela manhã vêm à mente de Maria Antônia como um pesadelo. Ela ainda vê o homem de chapéu preto e olhos ameaçadores que os conduziu às caçambas dos caminhões que os tiraram da gruta.[8]
Quando esses homens os deixaram próximos a uma ponte, eles se sentiram aliviados, permanecendo ali até o final do inverno. Porém, o seu pai queria criar os seus filhos na mata, na terra onde estavam enterrados os umbigos dos seus antepassados. Então, eles empreenderam um movimento de retorno, caminhando por dias e dias à beira da estrada, às vezes escondendo-se na mata devido ao medo de serem novamente colocados em um caminhão e levados ainda para mais longe.
Em uma pequena localidade chamada Pinheiral, ao lado de uma pequena gruta onde morava uma santa, eles se estabeleceram. Ali, o pai ergueu um abrigo com pedaços de pau e galhos de árvores. Era um lugar construído por ele para abrigar a família. Do morro descia um curso d’água limpa e a mata lhes dava o alimento, além da matéria-prima para o artesanato que tramavam para vender na cidade.
A andança de uma localidade a outra era por dias, semanas, meses, anos. Com oito, nove anos Maria Antônia já caminhava junto para vender artesanato. Algumas mulheres diziam que somente comprariam seus trabalhos se ela usasse as roupas que lhes davam. Então ela as colocava, mas antes de chegar a sua casa tirava e as deixava pelo caminho. Maria Antônia não gostava nem de roupas nem de calçados. Andar de pés descalços, pisar o chão de terra era tudo o que ela mais apreciava.
Um dia, Manoel Soares recebeu a visita de um parente que morava em Monte Alverne, ele noticiou que o seu pai estava enfermo. Por dias e dias eles caminharam, acampando à beira da estrada e, ao final de mais de uma semana, eles chegaram ao seu destino: o avô havia morrido.
No enterro, Maria Antônia observava tudo com curiosidade de uma criança, os homens e as mulheres choravam quase em silêncio. Ela recorda que seu Manoel disse que o desaparecimento de seu pai era uma grande perda, que ele havia sido um grande e sábio homem, e que por isso choravam.
O avô foi enrolado em uma grande esteira de taquara e ali enterrado, próximo à cidade de Santa Cruz. Mais tarde, já adulta, ela participaria da cerimônia que acomodaria os ossos dele em um pequeno balaio e que logo depois seria colocado nas águas baixas para que fosse levado pela correnteza e retornasse à natureza de onde um dia viera.




O tempo do sangue
Sem que Maria Antônia percebesse, o tempo modificava o seu corpo e um novo caminho ainda não trilhado logo se desenrolaria à sua frente.
Eles moravam novamente em Pinheiral. Agora eles recebiam a visita de um casal de brancos. O homem e a mulher queriam levá-la para trabalhar em sua casa, tratá-la como filha, dar estudo, comida, cama... Ela queria se esconder, não aparecer, desaparecer. Mas não podia, Maria Antônia era mais alta que as demais, bonita, de longo gãnh (cabelo) preto. E de todas, entre irmãs e primas, escolheram ela, logo ela. Maria Antônia pressentiu em sua sensibilidade aguçada pelas adversidades que, ao contrário de findarem suas dificuldades, seu martírio e sua luta estavam apenas começando. Ela sabia que aos onze anos não era mais uma menina, era adulta, já sangrava. Em um triste destino selado, sem escolha, ela foi levada para trabalhar em um prostíbulo.
Naqueles dias, Maria Antônia não falava português, ela não compreendia o que os brancos diziam. Ela foi jogada em um cabaré à beira da estrada e ficou ali para o uso de quem pudesse pagar pelo seu corpo virgem de doze anos de idade.
A primeira palavra que dirigiu aos brancos foi para pedir água e disse goj na língua Kaingang ou ig, falando em Guarani. Mas eles também não compreendiam o que ela dizia.
Maria Antônia não estava acostumada a comer a comida de branco. Quando viu arroz pela primeira vez ela pensou que fossem pequenos bichinhos. O macarrão imaginou vermes. Ela gostava de comer kum᷉i (mandioca), pén’ó (batata), kakan᷉e (frutas), myg (mel) e para beber kogúnh kron je (chimarrão) preparado na cuia de porongo e pipeta de taquara.
A erva-mate era abundante na região de Santa Cruz e Venâncio Aires, como é ainda hoje. Pequenos animais também faziam parte da sua alimentação, como o pirã (peixe), f᷉enf᷉em (tatu) e até o fójín (zorrilho). Os mais velhos gostavam de pitar o v᷉eju (cigarro).
Mas Maria Antônia queria retornar para a sua casa, voltar a brincar com suas irmãs e irmãos à beira do rio, correr pela mata, pendurar-se nos cipós e buscar a boneca de barro que deixara sozinha próxima ao rio. Mas não havia retorno, os brancos diziam que se voltasse, colocariam fogo na cabana de seu pai. Ela tinha medo que isso acontecesse e, assim, foi ficando.



A filha da dor
Um dia, Maria Antônia sentiu que a sua barriga começou a inchar. Então, ela não serviu mais aos homens brancos. Eles a deixaram voltar para a sua casa, disseram que ela procurasse o seu pai.
Mas, Manoel Soares não morava mais em Pinheiral, próximo à santinha. Em Santa Cruz ela perambulava pelas ruas, dormia sob as marquises, comia o que lhe davam. À noite enrolava-se em um cobertor que alguém lhe alcançava e ficava horas mirando a lua como se esperasse respostas sobre as dores de sua alma e o seu destino. A solidão somente seria maior se ele não tivesse a companhia dela, a Lua.
Em uma manhã coberta pela névoa do inverno, sentindo as dores do parto, ela foi levada a um hospital. Naquela hora ela lembrou-se de como as mulheres ganhavam seus filhos na mata: Maria Antônia queria ter sua filha como as mulheres Kaingang, de cócoras, protegida pelos seres da natureza, acariciada pela brisa do vento. Ela gostaria que seu sangue se misturasse novamente às folhas que cobriam o chão e que o umbigo de sua filha fosse cortado com taquara, como fora feito com ela, e devolvido à mãe terra. Mas não pode ser assim, pois ela estava em uma casa grande chamada hospital. Maria Antônia ganhou sua filha no corredor, no chão. De tudo o que aconteceu foi o que mais se aproximou daquilo que ela sonhou reviver.
A maternidade trouxe à Maria Antônia uma tranquilidade nunca antes consentida. Ela queria estar na terra, cuidar da filha, fazer artesanato em convívio com os seus. Ela não queria mais sair de perto dos parentes. Quando sua filhinha adoeceu e os remédios tradicionais não conseguiam curá-la ela trouxe a menina ao hospital de Lajeado.
O compadre, a quem convidara para batizar sua filha, entregou a criança para sua irmã, que a levou embora e não deixou mais que Maria Antônia a visse. O umbigo que ela guardara enrolado num paninho foi enterrado na Linha Glória, em Estrela.
Durante anos ela chorou a perda da filha, calculando ano a ano os seus aniversários, imaginando aquela que um dia carregara no ventre e parira no chão do hospital. Se pudesse, ainda hoje a pegaria no colo e diria a ela que não a abandonou... nem um dia!


O prazer do jaguar fêmea
Apesar das perdas e dores que sofreu, Maria Antônia transformou-se em um jaguar fêmea. Nos anos seguintes, em viagens pelo Rio Grande do Sul, ela pariu vários filhos. O primeiro filho homem teve o umbigo cortado pela “mãe véia”, com taquara, como manda o costume Kaingang. A todos, ela ensinara o artesanato assim como seu pai lhe educara. E no trançado do cipó, ela foi tecendo a sua história, tramando as dores da mãe e o prazer de ser mulher.
Embora Maria Antônia tenha vivido em vários lugares jamais ela se afastou do seu pai, de quem ouvia os ensinamentos com toda a atenção. Embora Manoel Soares a tivesse entregue aos brancos quando menina, contrariamente a isso, ele pedia que seus filhos não se juntassem com os brancos, não se misturassem a eles. Ele não queria que tivessem junções e casamentos e que desses nascessem crianças que não fossem índios puros. Maria Antônia, dessa vez, o desobedeceu e se relacionou amorosamente com alguns brancos.[9]
Assim como muitas mulheres, Maria Antônia tem a sina do engano e do desamor. Tudo o que ela queria era um marido e um pedaço de terra pra morar e criar os seus filhos. Seus homens, no entanto, queriam mais do que isso ao esperarem dela o amor, o trabalho e o sustento.
Maria Antônia sentia que eles arrancavam dela mais do que estavam dispostos a dar-lhe. E assim ela seguiu procurando seu amor. O seu mundo era o mundo, não havia fronteiras. Sempre retornava à casa do pai que se estabelecera na Linha Glória, em Estrela. Ao final desses encontros com os homens brancos ela não restava só porque eles lhe deixavam um filho, mas era Maria Antônia solidão.


A morte do pai
O pai de Maria Antônia nunca pronunciava a palavra morte. No entanto, ele dizia a ela que se um dia ele “fosse embora” ela deveria retornar à aldeia e cuidar da mãe e dos irmãos menores.
Quando ele morreu atropelado na BR 386, em 1990, ela retornou à Terra Indígena da Linha Glória para cumprir a promessa realizada. Contrariamente ao que seu pai desejava, alguns parentes homens indígenas não concordaram que Maria Antônia fosse a cacique. Para eles, a mulher deveria fazer artesanato, vender, cozinhar, dando a eles o desejado fuá, cuidar dos filhos e se entregar aos prazeres do sexo.
Mas, enfrentando a vontade desses homens, Maria Antônia ouviu toda a comunidade e sempre pensando em realizar o desejo de seu pai, ela assumiu a chefia política. Entre suas conquistas está a água encanada para a comunidade. Antes disso bebiam água de uma pequena bica à beira do asfalto ou de uma pequena sanga que captava o veneno usado pelos agricultores nas lavouras do entorno.
De uma certa feita, diante da reclamação de uns e outros, ela passou o cargo aos seus irmãos que, depois de algum tempo, a devolveram. Assim, Maria Antônia permanece como a liderança na Terra Indígena da Linha Glória, dividindo a responsabilidade das grandes decisões com as irmãs e com os irmãos.[10]


A escola e a fumaça
Um dos sentimentos ruins de Maria Antônia é não saber ler, nem escrever. Ela sabe apenas assinar o nome e quem a ensinou foi um dos filhos homem. Mas isso não a impediu de travar discussões e negociações com o homem branco, ao contrário. Ela tanto conversa com um parente quanto com um promotor público. E talvez por saber o que lhe faltou saber ler e escrever, ela  sonhe e lute por uma educação específica e  diferenciada para as crianças, jovens e adultos da Terra Indígena.
Quando seus filhos, ainda pequenos, foram à escola de brancos e lá deram a eles sabonete para que tomassem banho antes de entrar para a sala de aula, já que o cheiro de fumaça incomodava os professores, ela decidiu que seus filhos não iriam mais àquela escola e que era chegado o momento de terem seu próprio ensino dentro da aldeia. Estabelecendo parcerias com educadores e simpatizantes com a causa indígena, ela conseguiu que uma escola indígena fosse criada e construída dentro do espaço da terra indígena da Linha Glória. [11]
Como a situação de ocupação era de um acampamento, a escola foi construída com madeiras doadas por uma escola estadual que havia sido desmanchada. Uma pequena casinha de madeira com uma sala de aula, banheiro e uma pequena cozinha. Foi o começo. Apesar de não alcançar o ideal de escola indígena, que é uma escola específica, bilíngue, com tempos e espaços diferenciados, com uma pedagogia, professores, funcionários e direção indígena, foi uma grande conquista da comunidade, permeada pela ação da liderança na pessoa da cacique Maria Antônia.
E, enfim, conforme seu desejo, agora será construída uma nova escola, a partir das compensações do DENIT pelo impacto ambiental causado à comunidade indígena por ocasião da duplicação da BR 386. A construção da escola será conforme as metades mitológicas Kamé e Kainru, projeto elaborado pelo curso de arquitetura da UFRGS. (Anexo I)


Considerações Finais: As raízes velhas e as raízes novas
Hoje, Maria Antônia tem a altivez e a dignidade das grandes lideranças. As suas intervenções no mundo dos brancos são de resistência. Seu tom de voz demonstra sua força e sua autoridade. Às vezes a tristeza escurece seu olhar e diminui a luz. Mas quando sorri, um antigo brilho retorna aos olhos e ela lembra outra vez a Maria Antônia menina, que corria pelas matas.
Ela enfatiza que fez o bem e o mal, mas que ela não se arrepende de nada porque é possível errar e retornar a acertar. Maria Antônia não se envergonha de nenhuma passagem do seu passado e, principalmente, sente muito orgulho de ser quem é: uma mulher indígena Kaingang, liderança de um povo discriminado, marginalizado e invisibilizado.
Da mata no entorno da terra indígena ela retira o cipó para o artesanato e as ervas para que curem e que matem as doenças, inclusive as doenças invisíveis.[12] Ela é uma mulher sábia que se diz uma raiz velha. Aos cinquenta e dois anos ela diz que já viveu que chega. Mas quer deixar uma vida melhor para a sua comunidade, para os filhos e os netos. É eles quem importam; as raízes novas. E uma vida melhor quer dizer melhores condições de saúde, oportunidades de emprego, educação numa escola de qualidade, com a manutenção da língua e conhecimentos Kaingang.
Compartilhar da memória e dos conhecimentos de Maria Antônia significou penetrar em um universo de perdas e danos, mas também de construções, conquistas e exemplos de determinação e orgulho de ser quem é: mulher, mãe, avó, filha, liderança e guerreira indígena Kaingang, norte e rumo de sua comunidade.

Referências
GONÇALVES, Lylian Mares Cândido. Crianças Indígenas kaingang em Escola não Indígena: Um estudo de caso envolvendo a EEEF Manuel Bandeira, em Lajeado/RS. Univates, Lajeado, 2011.

HALBWACHS, Maurice. A Memória Coletiva.  Centauro Editora. São Paulo, 2011.

NIMUENDAJÚ, Curt. Notas sobre a Organização Religiosa e Social dos Índios Kaingang. In: GONÇALVES, Marco Antonio (Org.). Etnografia e Indigenismo. Campinas: Ed. Unicamp, 1994.
LAROQUE, Luís Fernando da Silva. De coadjuvantes a protagonistas: seguindo o rastro de algumas lideranças Kaingang no sul do Brasil. História UNISINOS. São Leopoldo, v.9 n.1, p.56-59, Jan/abril. 2005.
________, Luís Fernando da Silva. Kaingang e Missões Religiosas: situações de alianças e guerras. Tellus, ano 9, n. 16,jan./jun.2009
ROSA, Rogério Reus Gonçalves da. As Doenças Invisíveis que Afligem os Kaingang da Bacia Rio Uruguai, Terra Indígena Votouro. Goiânia: XXV Reunião Brasileira de Antropologia, 2006.
SELIGMAN-SILVA, Márcio. (Org.) Palavra e Imagem, Memória e Escritura. Chapecó, Argos, 2006.
SILVA, Juciane Beatriz Sehn da.Territorialidade Kaingang: Um estudo histórico da aldeia Kaingang da Linha Glória, Estrela –RS. Lajeado. UNIVATES, 2011.
SILVA, Sérgio Baptista da. Dualismo e Cosmologia Kaingang: o Xamã e o Domínio da Floresta. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 8, n.18, p.189-209, dezembro de 2002.
SILVEIRA, Maria José. A mãe da mãe de sua mãe e suas filhas.Globo, 2002.
SIMONIAN, Ligia T. L. Terra de Posseiros: um estudo sobre as políticas de terras indígenas, Rio de Janeiro, 1981, UFRJ, dissertação de mestrado.
________, Ligia T. L. Violência entre os Kaingang no RGS: Assassinato, Esquartejamento e Antropofagia. Laudo Antropológico Processo Juri Nº 737-106/79. Comarca de Seberi. RS, 1994.

Anexo IIDescrição: C:\Users\Lyli\AppData\Local\Microsoft\Windows\Temporary Internet Files\Content.Word\Imagem1.png
 



[1] Minha gratidão à orientação sensível e atenciosa do professor Rogério Reus Gonçalves da Rosa. Da mesma forma, a Rodrigo Alegretti Venzon pelo convite para a realização do Curso PROEJA Indígena e tradução das expressões em Kaingang, constantes no texto. Agradeço às intervenções e dedicação da professora Maria Aparecida Bergamaschi, bem como aos demais professores e colegas do curso e aos indígenas Kaingang da Terra Indígena Foxá, em Lajeado, pela convivência e amizade, bem como, da Terra Indígena da Linha Glória, especialmente à Cacique Maria Antônia Soares, por ter me recebido e dado a mim a honra de escrever a sua história.
[2] Nas palavras de Curt Nimuendajú (1994, p. 58): “A tradição dos Kaingang conta que os primeiros desta nação saíram do chão, por isso eles têm a cor da terra. Numa serra no sertão de Guarapuava, não sei bem aonde, dizem eles que até hoje se vê o buraco pelo qual eles subiram. Uma parte deles ficou em baixo da terra onde eles permanecem até agora, e os que cá em cima morrem vão se juntar outra vez com aqueles. Saíram em dois grupos, chefiados por dois irmãos por nome [59] Kañerú e Kamé, sendo que aquele saiu primeiro. Cada um já trouxe um número de gente de ambos os sexos. Dizem que Kañerú e a sua gente toda eram de corpo fino, peludo, pés pequenos, ligeiros tanto nos seus movimentos como nas suas resoluções, cheios de iniciativa, mas de pouca persistência. Kamé e os seus companheiros, ao contrário, eram de corpo grosso, pés grandes, e vagarosos nos seus movimentos e resoluções. Como foram estes dois irmãos que fizeram todas as plantas e animais, e que povoaram a terra com os seus descendentes, não há nada neste mundo fora da terra, dos céus, da água e do fogo, que não pertença ou ao clã de Kanẽrú ou ao de Kamé. [...] O que pertence ao clã Kanẽrú é malhado, o que pertence ao clã Kamé é riscado. O Kaingang reconhece estas pintas tanto no couro dos animais como nas penas dos passarinhos, como também na casca, nas folhas, ou na madeira das plantas. [...] Para os efeitos religiosos e feiticeiros cada clã só tira o material dos animais e vegetais da sua pinta. [...] onça acanguçu foi feita por kanẽrú, um membro deste clã não pode amarrar a carniça [...] No assalto como na dança, o Kañerú, por ser mais disposto e resoluto, há de romper na frente, mas imediatamente atrás tem de seguir Kamé, porque o Kañerú não sustentaria o que ele iniciou”.
[3] Conforme Sérgio Baptista da Silva (2002, p. 190-1): “Vários autores concordam que há um dualismo Kaingang, visível mais concretamente na organização social, que se caracteriza pela existência das duas metades exogâmicas, patrilineares, complementares e assimétricas, designadas como Kamé e Kainru-kré”. Na realidade, as patrimetades kaingang representam apenas um aspecto – o sociológico – de toda uma concepção dual do universo. Todos os seres, objetos e fenômenos naturais são divididos em duas categorias cronológicas, uma ligada ao gêmeo ancestral Kamé, e a outra vinculada ao gêmeo ancestral Kainru. Principalmente, as metades são percebidas pelos Kaingang como cosmológicas, estando igualmente ligadas aos gêmeos civilizadores, os quais emprestam seus nomes a elas. Segundo os mitos, os gêmeos ancestrais estão em relação de oposição e complementaridade um ao outro.
[4] Em Silveira, (2002, p.19), encontramos o seguinte relato: “Sua tribo vivia uma época de tranquilidade. Os homens pescavam e caçavam, as mulheres plantavam mandioca, faziam farinha e cauim e criavam belos cestos e cerâmica. Chegaram àquele lugar fértil, em sua peregrinação em busca da Terra Sem Males [...]”
[5] Para Sérgio Baptista da Silva (2002, p. 192): “Deste modo, manifestados desde uma matriz mitológica Kaingang que cria um campo semântico de oposições a partir da vinculação a um ou outro herói mítico, pares contrastantes marcam este dualismo, cuja abrangência engloba todo o cosmo, incluindo entre outros, os elementos classificatórios no âmbito da natureza e de sua exploração, as relações entre os homens, a organização social e ritual do espaço, a cultura material, as representações sobre as características físicas, emocionais e psicológicas, as diferenciações dos papéis sociais e os padrões gráficos representados em vários suportes. Estes pares opositores caracterizam-se por uma bipolarização contrastante, opositora e complementar, modo como se apresenta o sistema de representações visuais Kaingang”.
[6] Conforme Ligia Simonian (1994, p.10): “No século passado, muitos foram os massacres de Kaingang. [...] Particularmente, em Guarita (RS), centenas de vidas foram abatidas por ervateiros e fazendeiros não índios em 1832, em represália á resistência indígena frente à invasão de seu território (Konkó 1930). Um pouco mais tarde, dezenas de inocentes Kaingang foram massacrados por militares no nordeste do RS. Na década de 1860, os indígenas liderados pelo cacique Doble foram contaminados com roupas infectadas de varíola, que ele recebera de presente quando de uma de suas viagens à capital da Província, sendo grande a mortandade. Além dos clássicos massacres dos Xocleng de Santa Catarina e dos Xetá do Paraná, outros aconteceram, especificamente contra os Kaingang do Rio Grande do Sul e São Paulo onde se registra que a aldeia Colonia Velha foi queimada com seus moradores no interior dos ranchos de capim, homens foram torturado e assassinados, mulheres ‘pegas a cachorro’ e distribuídas entre os combatentes e crianças entregues a fazendeiros para servir de criados. Os Kaingang não encontraram outra alternativa que a resistência como resposta ao processo de conquista imposto pelos não indígenas.
[7] Para Simonian (1981, p.74), “Tradicionalmente as políticas de terras indígenas vêm sendo traçadas a partir de uma perspectiva que traduz interesses de grupos ou de classes sociais que estão a manipular com o poder político e econômico, no interior de uma sociedade tipo nacional, dominada pelo capitalismo internacional. Aos indígenas jamais fora reconhecido o direito de propor ou de simplesmente dispor do que construíram, delimitaram enquanto povo, como habitat, como território.
[8] Segundo Halbwachs (2011, p.51) “No primeiro plano da memória de um grupo se destacam as lembranças dos eventos e das experiências que dizem respeito à maioria de seus membros e que resultam de sua própria vida ou de suas relações com os grupos mais próximos”. [...] As relacionadas a um número muito pequeno e, às vezes, a um único de seus membros, embora estejam compreendidas em sua memória, passam para o segundo plano.
[9] Nas palavras de Luís Fernando da Silva Laroque (2009, p.15), “Esta fluidez na fronteira étnica, isto é, aceitando casamentos e/ou envolvimento sexual com pessoas fora do grupo, encontra-se prescrita no próprio passado mítico Kaingang. Relacionado a isso, Telêmaco Borba (1908, p.22), informa que os gêmeos ancestrais Cairo e Came, casaram seus filhos e filhas entre si, e os rapazes que sobraram vieram para a aldeia e desposaram mulheres Kaingang”.
[10] Ainda de acordo com Laroque (2005, p.56), os critérios para a escolha das lideranças Kaingang ao longo de sua história nunca foram, necessariamente, pautados pela hereditariedade, mas sim pela valentia, generosidade, redistribuição dos bens conseguidos, diplomacia para resolver os problemas junto ao grupo e, principalmente, da segunda metade do século XX em diante, cada vez mais pela habilidade política, dom da oratória, escolaridade e pelo domínio dos códigos dos brancos. Sendo assim, a liderança além de ser atuante fora da aldeia, também precisa atuar dentro da comunidade, a fim de continuar sendo reconhecida pelo grupo. A participação política de mulheres é algo bastante singular na história Kaingang, na medida em que a maior parte dos documentos e material historiográfico produzidos refere-se quase que exclusivamente a aspectos da organização política como sendo do universo masculino.
[11]Conforme Gonçalves (2011, p.36) “A educação escolar indígena regular, no Brasil, vem obtendo, desde a década de 1970, avanços significativos no que diz respeito à legislação e com a promulgação da Constituição de 1988 assegurou-se aos povos indígenas o direito a uma educação escolar diferenciada. Se na atualidade existem leis bastante favoráveis quanto ao reconhecimento da necessidade de uma educação específica, diferenciada e de qualidade para as populações indígenas, na prática, entretanto, há enormes conflitos e contradições a serem superados”.
12 Sobre doenças, segundo Rogério Réus Gonçalves da Rosa (2006, p. 2), “Os Kaingang católicos da Terra Indígena Votou-o diferenciam as doenças provocadas pelo rapto de seus supri (espíritos) pelos vẽnh-kuprĩg-korég (espíritos dos mortos) que vivem no domínio “nűgme”/“mundo dos mortos” — daquelas provocadas por um malfeito enviado ao domínio “casa” da pessoa vitimada. No primeiro caso, a partir da lógica do sistema kujà, através da técnica de êxtase do sonho, o kujà se desloca ao domínio “floresta virgem”, segue através de uma estrada escura em direção ao nűgme, nesse domínio procura convencer o kuprĩg da pessoa raptada a retornar com ele para o nível terra. Tratando-se do segundo, o kujà devolve ao remetente o feitiço, a doença invisível que atormenta a vida de seu paciente vitimado. Nas duas situações, a demora tanto por parte dos familiares do doente na busca do serviço de um kujà, quanto desse mediador em partir ao domínio “nűgme” ou cozer remédio do mato pode acarretar a morte do indivíduo enfermo”.

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