quinta-feira, setembro 04, 2014

O professor de frescobol

Dois caras altos, fortões, malhados, jogando frescobol na beira da praia. Um deles grita o tempo todo, xingando o outro. Porra é apenas a entrada para um cardápio digno de um filme de quinta. O som da raquete batendo na bolinha com violência encontra eco na voz gritante e estrondosa,
Não poderíamos deixar de ouvir, mesmo que quiséssemos, eu e os veranistas dos guarda-sóis à esquerda e à direita nos próximos cem metros. Eu estava tentando ler o Borralheiro, do Carpinejar, e tapei o ouvido direito com uma mão e segurei o livro com a outra, mas tive que me render aos berros que vinham da beira do mar, a poucos metros.
O som das ondas quebrando suavemente na praia, no mês de setembro, deveria ser o único som a ser ouvido. Conjecturei que deveriam ser namorados, o que explicaria, ou não, a passividade de um e a agressividade do outro. Mas não, dentre os berros que chegaram pela brisa, ouvi a palavra professor, porque além de se esmerar nos palavrões, o cara fez questão de dizer que ELE era o professor...!

Penso que o prazer de jogar frescobol está em interagir, comungar, batendo na (coitada) da bolinha de maneira que ela vá ao ou de encontro ao outro, mas que chegue até ele sem um sofrimento demasiado. Ali acontecia o contrário. O xingador enviava as bolas o mais alto possível, ou mais baixo, extremamente à direita, esquerda e com velocidade de um supersônico. E sons como "Ahh", "Huumm" são bem-vindos. Quem não assistiu as irmãs Willians e não se deliciou com seus gemidos que pareciam sair das profundezas do seu ser? Mas, o que não se espera é ouvir numa manhã clara, ensolarada, em que carneirinhos pastam num céu de brigadeiro e criancinhas constroem castelos na areia com seus baldinhos coloridos, dois marmanjos jogando frescobol e um deles esbravejando o tempo todos palavras como: porra, caralho, bosta, merda, burro....e por aí vai.
Uma senhora que estava no guarda-sol ao lado argumentou que essa forma de tratar o aluno poderia ser uma estratégia de marketing, assim todos ficaram sabendo que ele dava aulas de frescobol.
Pensei no susto de meus alunos se eu usasse essa estratégia motivacional em sala de aula:

*Leu o texto, seu bosta?
*Caralho, vocês fazem tudo errado!
*Gostei da tua redação, porra!
*Cara, tu és um burro!

Como dizia minha avó...no meu tempo não era assim.

Um comentário:

Clau disse...

Millôr Fernandes, que se achava o inventor do frescobol (que ele praticava todos os dias de manhã na Praia do Arpoador, ali ao lado da Pedra do Arpoador, local hoje conhecido como Largo Millôr Fernandes), ao que eu saiba ou que se saiba, jamais utilizou palavreado igual ou semelhante e que, me parece, ele iria considerar como escatológico.

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