segunda-feira, janeiro 05, 2015

Os três momentos (meus) e de Saramago.


Amo Saramago. Não é paixão, porque essa é passageira, amor é manso, é calmo, é para sempre. Amo de um calmo amor prestante, como amigo e como amante...ops, esse é Vinícius. Enfim amo a literatura dele, o que escreve, o que descreve. Ainda e sempre, lembro do cão Achado, de A Caverna. Agora estou lendo A bagagem do viajante, impressões do dia a dia. E ele fala em três momentos em que poderia pensar e escrever. O primeiro, um momento em que estará vivo. O segundo, um momento em que provavelmente ainda estará vivo. E o terceiro momento é um em que dificilmente estará vivo. Ele não está mais vivo, então, hoje escrevo sobre ele e sobre o que ele escreveu. Quem sabe um dia alguém lê o que escrevo agora e também não estarei mais aqui e essa pessoa também pensará sobre isso. Fiquei refletindo sobre essa ideia, a dos momentos prováveis e improváveis de estarmos ainda nesse planeta.
Um momento em que ainda estarei viva: Daqui a dez anos. Estarei com sessenta e cinco anos, rosto envelhecido, eterna barrigudinha, cabelos mais brancos e ralos. Talvez já tenha feito cirurgia na pálpebra, porque estará difícil enxergar com ela caída sobre o olho. Talvez minhas dores nas costas tenham aumentado muito e eu não faça mais academia. Ou talvez faça, mas caminhando devagar e fazendo exercícios conforme minha condição física. Meu filho terá 44 e certamente terá alcançado todo o sucesso que merece, talvez eu já tenha um neto. Provavelmente estará morando em outro lugar, longe daqui, com a Juliana. Minha filha do meio terá 40 e talvez esteja estabilizada em um emprego, talvez dirigindo seu carro, talvez tenha terminado doutorado e esteja trabalhando numa universidade. Minha filha menor terá 35, certamente terminou a faculdade e está trabalhando em algo que goste e que dê retorno a ela. Provavelmente não estarão morando no mesmo lugar onde moram hoje. Minha mãe terá 81.
Um momento em que provavelmente ainda estarei viva: daqui a vinte anos. Terei setenta e cinco anos, andarei bem mais devagar, tudo será mais difícil, me abaixar, dirigir. Não terei mais os mesmos reflexos. Subir escadas estará difícil para mim. Estarei muito enrugadinha e quem sabe será momento de não pintar mais os cabelos, deixá-los branquinhos de vez. Mas curtos. Provavelmente tomarei muitos remédios, o que agora não acontece. Será que ainda farei fotos? Talvez, mas em menor quantidade e com mais qualidade. E meus filhos, minha mãe? Não quero pensar sobre isso.
E o último momento, em que provavelmente não estarei mais por aqui, é daqui a trinta e cinco anos. Noventa. Creio que não chegarei aos noventa e se chegar será uma façanha. Não lembrarei mais de muitas coisas, não enxergarei quase nada, não conseguirei fazer quase nada. Não usarei mais saltos, não conseguirei mais ler...e banho, como vou tomar? Onde estarei, quem cuidará de mim?
Meu filho terá 69 anos, minha filha do meio terá 66 e minha filha mais nova terá 60, será uma guria. E o Dudu terá 52. Mas se é improvável que eu esteja viva com 90 anos, ninguém precisará cuidar de mim. O mundo terá mudado (muito) mais. Meus filhos estarão aposentados! Terão sido felizes? Terão tido filhos, sucesso na profissão, no amor?

 No entanto, tudo é relativo e transitório. Tudo é mutável e mesmo minhas ponderações e possíveis previsões são apenas especulações. Nada se sabe do amanhã. Por isso, é urgente que se viva (bem) hoje.

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